A esperança de que alguém da Confederação Asiática superasse a fase de grupos era pequena. Talvez o Japão pudesse ser melhor que Costa do Marfim, Colômbia ou Grécia no Grupo C, ou até a Coreia do Sul surpreendesse Argélia, Rússia ou Bélgica – já se sabia de antemão que australianos e iranianos não deveriam ir muito longe.

Todas essas equipes tiveram problemas parecidos de forma geral. A principal dificuldade nos times era atacar, tanto que os piores índices de chutes a gol pertencem às equipes da Ásia. Veja alguns números dos quatro representantes da confederação:

Irã: oito chutes a gol por jogo = 1 gol em três partidas

Austrália: nove chutes a gol por jogo = 3 gols em três partidas

Coreia do Sul: 11,3 chutes a gol por jogo = 3 gols em três partidas

Japão: 16,3 chutes a gol por jogo = 2 gols em três partidas

Pode parecer que o Japão é bem melhor que os outros asiáticos, mas o único ponto no Grupo C tem explicação lógica: o Japão finalizou muito, mas só acertou o alvo 4,3 vezes por partida, mesmo número da Coreia do Sul, que finalizou menos.

Na posse de bola, novamente os retrancados iranianos ficaram na pior posição entre todas as seleções, com apenas 29,7% do tempo com a pelota nos pés. A Austrália foi melhor (42,6%), mas os grandes destaques ficam por conta de sul-coreanos (52,5%) e japoneses (59%, o quinto melhor).

E o pouco tempo com a bola nos pés aliado à má pontaria na hora de finalizar sobrecarregou as defesas asiáticas… A Coreia do Sul levou média de 16 chutes por partida, a quarta maior da Copa do Mundo, enquanto Irã e Japão sofreram 14,3 cada – a Austrália apenas 11,3, a 24ª seleção que mais levou chutes dos adversários. Logicamente, quanto mais tempo o adversário fica dentro da área, mas o seu time leva gols… E a Austrália teve a defesa mais vazada, com nove gols sofridos, ao lado de Camarões, enquanto Japão e Coreia do Sul sofreram seis.

A boa surpresa

Mas a Ásia na Copa do Mundo 2014 não foi um desastre completo. Pode-se destacar o Irã do técnico português Carlos Queiroz, que somou apenas um ponto e só ficou na defesa, o que muitos enxergam com negativismo, é verdade, mas surpreendeu em vários aspectos. O jogo contra a Bósnia Herzegovina (derrota de 3 a 1) foi irreconhecível, e os persas não atuaram bem diante da Nigéria, mas tudo foi diferente contra a Argentina.

Todos pensavam que os companheiros de Lionel Messi iriam humilhar o Irã, mas a seleção asiática jogou muito bem na parte defensiva, não teve um pênalti assinalado a seu favor e perdeu outras quatro chances por incompetência de seus atacantes. O gol sofrido aos 45 minutos do segundo tempo desabou os iranianos, mas eles estão de parabéns.

A Argentina finalizou 21 vezes naquela partida, mas apenas quatro no alvo. Já o Irã acertou o alvo em três das oito oportunidades, mesmo com posse de bola de apenas 24%. Foram 22 desarmes dos persas nos 90 minutos, o que fez do Irã o quarto melhor no quesito de forma geral, com 21 intervenções por jogo, atrás de Espanha (24,3), Holanda (23,7) e Costa Rica (21).

Os líderes nos desarmes no jogo diante dos sul-americanos foram Andranik Teymourian e Ashkan Dejagah, com cinco, mas a defesa de forma geral também foi muito bem, afastando o perigo na maioria das vezes em que tocou na bola com essa intenção. Se na Copa do Mundo não é possível ao Irã sonhar com as oitavas de final, o objetivo da seleção persa deve ser o título da Copa da Ásia 2015.

Resta saber se Carlos Queiroz vai continuar comandando o time, já que a federação local precisará de muito dinheiro para mantê-lo em Teerã – é quase certo que sairá. O técnico italiano do Japão, Alberto Zaccheroni, já deixou a seleção asiática, encerrando ciclo que começou em 2010 e durou 55 partidas (30v, 12e, 13d), com 54,5% de aproveitamento.

O motivo: ficou chateado com a eliminação japonesa e sentiu que não tinha mais ânimo para continuar no cargo. Coreia do Sul e Austrália podem dar seguimento ao trabalho, pois há espaço para evolução, principalmente entre os australianos, que foram superiores ao que deles se esperava.

Uma pitada de história

No contexto histórico, é a pior participação asiática desde que a Copa passou a ter 32 equipes. Todos foram lanternas em suas chaves, sem nenhuma vitória e apenas três pontos de 36 possíveis (8,3% de aproveitamento). Desde 1998, na França, em duas oportunidades todos os asiáticos foram eliminados ainda na fase de grupos.

Arábia Saudita: um ponto no Grupo C, com França, Dinamarca e África do Sul

Coreia do Sul: um ponto no Grupo E, com Holanda, México e Bélgica

Irã: três pontos no Grupo F, com Estados Unidos, Alemanha e Iugoslávia

Japão: nenhum ponto no Grupo H, com Argentina, Jamaica e Croácia

Nos Mundiais seguintes, às vezes uma seleção asiática seguia adiante no torneio. O melhor resultado ocorreu em 2002, quando Coreia do Sul e Japão sediaram a competição e superaram os adversários. Os sul-coreanos lideraram o Grupo D, com sete pontos, à frente de Estados Unidos, Portugal e Polônia, enquanto o Japão foi o primeiro no Grupo H, melhor que Bélgica, Rússia e Tunísia. A Coreia do Sul, com a ajuda da arbitragem, atingiu o quarto lugar na Copa do Mundo, enquanto o Japão caiu nas oitavas de final.

Quatro anos mais tarde, Irã, Japão, Arábia Saudita e Coreia do Sul sucumbiram em suas chaves, mas a Austrália, que ainda fazia parte da Confederação da Oceania, conseguiu vaga nas oitavas de final, caindo diante da Itália. Na África do Sul 2010, Coreia do Sul e Japão passaram pela fase de grupos, mas não Austrália e Coreia do Norte, esta última na chave do Brasil.

Ou seja, a campanha em 2014 representa uma regressão significativa para o futebol asiático, até porque, tirando a Austrália, nenhuma equipe do continente estava em um grupo fortíssimo. No mínimo, era possível coletar alguma vitória pelo caminho.