Entre tantos negócios concluídos nesta última semana de mercado de transferências, um deles em particular chamou a atenção. Aos 38 anos, em busca de confirmar sua vaga na seleção australiana para a Copa do Mundo de 2018, Tim Cahill voltou para onde tudo começou. Defenderá o Millwall até o fim da temporada para tentar expandir seu currículo de 57 gols e 251 partidas pelo clube que defendeu de 1998 a 2004, o que só foi possível graças a um incrível sacrifício da sua família.

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Cahill nasceu em Sydney, filho de pai inglês, apaixonado pelo West Ham, e mãe samoana, cuja parte da família dava mais atenção para o críquete e o rúgbi, um dos esportes favoritos da Austrália. Mas desde cedo foi atraído pela bola redonda. Ainda bem: quando era pequeno, diziam que ele era muito pequeno para jogar futebol. Imagina o que diriam se sua pretensão fosse o rúgbi? E, além disso, sua mãe não deixou. “Minha mãe não me deixava chegar perto de uma bola oval porque achava que era um esporte muito violento. E meu pai não falaria nada porque sempre foi um fanático por futebol”, disse, segundo o site The World Game.

Ele lembra que seu pai acordava cedo para assistir às partidas da Inglaterra, especialmente do West Ham, seu clube do coração. Cahill escapava da cama para acompanhá-lo. “Eu sempre conseguia ver as luzes da televisão nos corredores, da Premier League, da Copa do Mundo e coisas assim”, disse, em entrevista à emissora ABC.

Cahill estava no Sydney United, em 1997, quando sua família tomou uma decisão ousada. Não havia como alcançar as grandes glórias que ele via pela televisão permanecendo na Austrália, cujo futebol era insipiente e a A-League ainda nem havia sido criada. Era necessário ir para os centros mais relevantes. Mas, para isso, era necessário dinheiro. A família Cahill não era muito rica. O pai era engenheiro e a mãe trabalhava em fábricas. Quando Tim Cahill sênior caiu e precisou passar por cirurgia no quadril, a mãe assumiu outro emprego para pagar as contas.

Tim, Sean e Chris, os três irmãos da família Cahill, eram bons de bola, mas era preciso escolher apenas um deles. Tim levou vantagem. “Tim simplesmente tinha aquele extra de classe no seu jogo que os outros garotos não tinham”, explica Nick Theodorakopoulos, que treinou os moleques quando eles eram adolescentes. Chris chegou a ser capitão da seleção de Samoa e defendeu o St. George Saints, time semi-amador da Austrália. Sean atingiu as manchetes ao ser preso por agredir um homem em 2008, quando Tim já era jogador do Everton.

A família apostou todas as fichas em Tim. Contraiu um empréstimo bancário para financiar a viagem para a Inglaterra. Sean até abandonou a escola e arrumou um emprego para ajudar a pagar. “Não tínhamos outra escolha financeiramente. Se você não consegue pagar, não consegue pagar”, disse, ao The Australian. “Não tinha nada a ver com dinheiro, mas com sucesso como jogador de futebol, de marcar o primeiro gol em uma Copa do Mundo, jogar duas finais da Copa da Inglaterra, de estar na Premier League. Por causa disso, eu sempre jogo por todo mundo: minha família, meus filhos, a Austrália. Penso em todos eles sempre que entro em campo”.

O pai conseguiu armar testes no Nottingham Forest e no Millwall. Tim foi bem e recebeu uma proposta do clube londrino. Aos 17 anos, assinou contrato profissional e, em maio de 1998, estreou contra o Bournemouth. As £ 5 mil libras que recebeu pela assinatura foram imediatamente enviadas para a Austrália, para que seus pais pudessem pagar o empréstimo e dar depósito em uma casa própria. “Não há um dia em que eu não penso nisso. Eu chamo de ‘a bela ferida’. É isso que a família faz: sacrifica seu tempo um pelo outro. Eu nunca tive muitos grandes amigos. Meus melhores amigos são meus irmãos e minha irmã”, disse Cahill, à ABC.

Com o tempo, Cahill conseguiu contratos melhores e, uma vez que achou que estava seguro o bastante, mandou os pais pararem de trabalhar. “Eles não tiveram escolha”, disse ao The Australian. “Assim que assinei um contrato decente na Inglaterra, foi isso, eu os tirei do emprego. Eu posso dividir tudo que tenho com eles, todas as boas coisas que vêm do futebol. É um mundo muito solitário gastar todo aquele dinheiro sozinho, então divido com a minha família. Sem dúvidas eu cuido deles”.

Cahill estava na Inglaterra, mas o sonho era disputar a Premier League. Isso não foi possível com o Millwall, que ficou entre a terceira e a segunda divisão naquela época – e até hoje. Mas as copas existem para realizar alguns sonhos que parecem impossíveis. Em 2004, um bom sorteio e os gols de Cahill ajudaram o clube a chegar à decisão da Copa da Inglaterra, contra o Manchester United.

Foi o primeiro time fora da elite a conseguir o feito desde 1982. Tudo bem que o Millwall não enfrentou equipes da Premier League. Estreou contra o Walsall, da segunda divisão, como ele; na quarta rodada, pegou o Telford United, da quinta divisão, e que inclusive entrou em falência ao fim daquela temporada; o próximo adversário foi o Burnley, que também estava na Segundona; o Tranmere Rovers, da terceira divisão, foi o adversário das quartas de final e foi necessário um replay, após o empate sem gols em The Den, para o Millwall chegar às semifinais.

A um passo da final, o Millwall tinha que passar pelo Sunderland, mais um time que compartilhava a segunda divisão com ele. E foi quando Cahill mais brilhou. Naquela grande ocasião, pegou o rebote de uma linda jogada individual e marcou o único gol da vitória por 1 a 0, que carimbou o passaporte para o Millennium Stadium. Tim Cahill sênior estava nas arquibancadas de Old Trafford.

“É um dia especial”, comemorou Cahill, na época. “Não apenas para mim, mas para a minha família. Sete anos atrás, meu velho pegou um empréstimo para que eu pudesse vir da Austrália e este é o resultado. É legal conseguir pagá-lo com um dia como este, dar algo em retorno. Não há nada que eu possa dizer para agradecer minha família por ter arriscado comigo e é legal pagá-los com um dia especial como este. Viverá na minha mente para sempre. Você realmente trabalha duro quando alguém te dá uma chance e os resultados são fantásticos. É bom se lembrar de onde você veio. Minha família tem um papel fundamental na minha carreira”.

Depois daquela grande campanha, o Everton buscou seus serviços para substituir um jovem rapaz chamado Wayne Rooney, que estava de malas prontas para o Manchester United, e encerrou a história de Tim Cahill pelo Millwall. Pelo menos, era o que todos nós achávamos. “Eu não ignoro o romance da história. Sempre disse que, se voltasse à Inglaterra, voltaria para casa”, afirmou Cahill, ao site do Millwall, seu velho e novo lar.