Na Copa de 1998, após duas rodadas, a Dinamarca ostentava uma vitória meio insípida sobre a Arábia Saudita (1 a 0 – pelo menos, foi melhor do que os sauditas, então) e um empate contra a África do Sul (1 a 1). Mas já dava para ver que Peter Schmeichel correspondia às expectativas: era o grande nome da defesa dinamarquesa naquele Mundial. Em que pese ter levado por baixo das pernas o gol de Benjamin McCarthy no empate com os sul-africanos, o goleiro mostrava o comando, a elasticidade e o porte físico que fizeram dele um dos grandes da posição em sua era. 20 anos depois, o filho Kasper Schmeichel não chega a tanto. Mas também tem sido um dos símbolos da Dinamarca nesta Copa do Mundo – e vê até agora os mesmos resultados que os daneses tiveram na França: uma vitória por 1 a 0 (sobre o Peru) e um empate em 1 a 1 (contra a Austrália).

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É uma curiosa coincidência. Mais uma das pitorescas histórias envolvendo os 26 pares de pais e filhos que jogaram em Copas – um pai teve dois filhos jogando, como se verá. Tais histórias envolvem muitas variáveis, desde que Luis Pérez, atacante mexicano, esteve na Copa de 1930 – 40 anos antes do filho Mario configurar o primeiro par “pai-filho”, estando no grupo do México que disputou o Mundial em casa.

Houve casos de desempenhos, nos quais o genitor superou o rebento. Aconteceu no único caso brasileiro. Na Copa de 1938, Domingos da Guia era uma das figuras-chave na primeira Seleção Brasileira a se destacar na história do torneio – embora a ingenuidade do zagueiro no pênalti cometido contra a Itália, na semifinal de 1938, tenha marcado (a ponto de dar conotação negativa à já existente “domingada”, termo que até então descrevia a habilidade com que Domingos saía jogando na defesa). 36 anos depois, o filho Ademir foi mais um Da Guia nas Copas. Mas teve papel periférico entre os 22 que Zagallo levou àquela Copa (para irritação de muitos, e não só palmeirenses, aliás). Tão periférico que Ademir até se assustou ao saber que jogaria a decisão do terceiro lugar em 1974, contra a Polônia, enquanto a delegação almoçava no mesmo dia. O “Divino” jogou 66 minutos, deu lugar a Mirandinha no segundo tempo – e se restringiu àqueles minutos a participação em Copas de um dos símbolos da história do Palmeiras.

Claro, houve casos nos quais os filhos é que puderam olhar para os pais com alguma superioridade. Para começar, Danny Blind sequer jogou partidas pela Holanda, mesmo tendo ido a duas Copas, enquanto seu filho Daley jogou só uma e foi apontado quase unanimemente como um dos grandes destaques dela. Nos Djorkaeff franceses, se o pai Jean foi zagueiro na esquecível eliminação dos Bleus na primeira fase de 1966, o filho Youri colaborou ativamente na campanha do título em 1998. O mais lapidar aconteceu com os Reina, ambos goleiros, na Espanha: o patriarca Miguel ficou no banco em 1966 e viu a equipe espanhola também cair nos grupos. Já José Manuel (ou melhor, “Pepe Reina”) viu a Furia/Roja enfim deixar o “quase” de lado e render um título mundial à tradicionalíssima história do país no torneio, em 2010. E Pepe Reina foi até mais longe do que o pai: ao invés de uma, tem três Copas para contar, incluindo a atual.

Houve ainda casos em que a importância técnica dos familiares nas campanhas das seleções foi parecida. Mesmo que o Uruguai tenha ficado pelo caminho ainda na primeira fase em 1974, Pablo Forlán já era símbolo da garra charrúa na lateral direita. O filho Diego já começava também num patamar importante dentro da Celeste, quando a Copa de 2010 começou – para simbolizar ao final dela como a campanha na África do Sul fora honrosa, como um dos artilheiros. Na Itália, Cesare Maldini também era um dos esteios na zaga, mesmo tendo somente uma Copa no currículo. Coube a Paolo não só ocupar destaque parecido no setor, mas levá-lo além, titular absoluto da Azzurra que foi em quatro mundiais.

Houve espaço para uma história de orgulho duplo na Suécia: o pai Roy Andersson defendeu o país na Copa de 1978, e viu a história seguir com Patrik (em 1994 e 2002) e Daniel (em 2002 e 2006). No México, então, a sequência foi tripla. Tomás Balcázar começou como pai, somente, jogando a Copa de 1954 – e marcando um dos gols “del Tri”, na derrota por 3 a 2 para a França, na fase de grupos. Muito tempo depois, Berta Caloino, filha de Balcázar, se casou com Javier Hernández Gutiérrez, meio-campista reserva na equipe dona da casa na Copa de 1986. Pelo nome do genro de Balcázar, já se imagina o fim da história. Pois é: coube a Hernández Gutiérrez, apelidado “Chicharo” (“Ervilha”), ter um filho chamado Javier Hernández Balcázar. E o neto de Tomás Balcázar virou “Chicharito”, seguindo a história por três Copas no México até este 2018 – e marcando contra a França em 2010, como o avô Tomás fizera em 1954.

Vale até um momento em que o parentesco atrapalhou, como em 2006, na seleção de Sérvia e Montenegro. Antes da Copa a ser sediada na Alemanha, o atacante Mirko Vucinic se lesionou e foi cortado. Ainda com alguns dias para chamar um substituto, o técnico Ilija Petkovic escolheu…. o filho, Dusan Petkovic. O apontamento da imprensa sérvio-montenegrina foi geral: a convocação só se dera pelo critério paterno, jamais pelo técnico. A dois dias do início da Copa (e a três da estreia da seleção), Dusan se encheu das críticas e preferiu espontaneamente deixar a delegação. O pai ficou com os 22 jogadores restantes – não foi chamado um substituto – e viu uma campanha problemática terminar em três derrotas.

Nesta Copa que corre na Rússia, vale ainda citar o caso de Amir Abedzadeh, goleiro reserva do Irã – exatamente a mesma posição em que o pai, Ahmad Reza, foi titular do Team Melli na Copa de 1998. Caso semelhante ao dos Schmeichel. Que terão mais uma coincidência a ligá-los: afinal, se o pai Peter pegou a França na última partida da fase de grupos então, os Bleus também são os adversários a tentarem vazar Kasper. Só resta ao arqueiro do Leicester esperar que a história se repita: a Dinamarca perdeu em 1998 (2 a 1 para os franceses), mas o empate entre África do Sul e Arábia Saudita garantiu a presença danesa nas oitavas de final.

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