A derrota para a Suécia por 1 a 0, na Friends Arena de Estocolmo, inegavelmente deixou a Itália assustada com sua seleção. Claro, uma virada ainda é possível no jogo de volta da repescagem europeia para a Copa de 2018, na próxima segunda: há jogadores que podem ajudar (principalmente se forem escalados desde o começo), e o ambiente no San Siro deverá ser de forte pressão. Mas também não é descartável a hipótese de a Suécia deixar a Azzurra, tetracampeã mundial, fora de uma Copa do Mundo. E na última vez que isso aconteceu, em 1958, foi porque a seleção do Belpaese não soube se refazer de circunstâncias adversas.

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Tais circunstâncias eram inesperadas quando começou a disputa, no grupo 8 das Eliminatórias europeias. Primeiro, porque a facilidade era visível: já com a tradição de bicampeã mundial, os adversários do grupo eram Portugal e Irlanda do Norte, duas seleções que nunca haviam disputado uma Copa. Em segundo lugar, porque o time azzurro era experiente – começando pelo técnico (Alfredo Foni, titular da seleção campeã mundial em 1938) e continuando pelos jogadores (destaque para os atacantes Ermes Muccinelli, da Juventus, e Amleto Frignani, da Udinese, que já tinham a Copa de 1954 no currículo – Muccinelli, então, jogara já em 1950).

E o começo da campanha italiana pareceu confirmar tal favoritismo: em 25 de abril de 1957, 1 a 0 na Irlanda do Norte, em Roma, com o zagueiro Sergio Cervato, da Fiorentina, marcando em cobrança de falta. O resultado era promissor, já que norte-irlandeses e portugueses haviam empatado em um gol no jogo inicial do grupo, em 16 de janeiro. Ainda mais promissor pelo fato da seleção do Ulster ter talvez a grande geração de sua história: Harry Gregg (no gol), Danny Blanchflower (no meio-campo) e William “Billy” Bingham (no ataque) eram os sustentáculos do time. E ela até fora ousada contra os italianos, mandando duas bolas na trave. Mesmo com a derrota para a favorita do grupo, a Irlanda do Norte se credenciaria como a grande desafiadora da Itália com o resultado seguinte: 3 a 0 em Portugal, em Belfast, no dia 1º de maio.

Supunha-se que a Azzurra teria facilidades no jogo seguinte, contra a seleção lusa, mas havia um amistoso no meio do caminho. E o resultado dele mudou tudo: em 12 de maio de 1957, contra a Iugoslávia, Alfredo Foni escalou a mesma base que vencera a estreia nas Eliminatórias – fundada na Fiorentina, com Cervato (autor do gol), os zagueiros Ardico Magnini, e os meio-campistas Armando Segato, Giuseppe Chiappella e Guido Gratton. Deu tudo errado no amistoso: em Zagreb, os iugoslavos golearam impiedosamente a Itália, por 6 a 1. Era para sacudir a poeira e seguir em frente rumo ao jogo contra Portugal, mas Alfredo Foni sucumbiu à pressão que torcida e imprensa fizeram.

Após o amistoso, o técnico mudou a escalação italiana quase por completo: dos 11 que haviam jogado contra a Irlanda do Norte, apenas Cervato e Chiapella voltariam a campo contra os portugueses. De resto, as novas convocações incluíam jogadores para todos os gostos. Como o antológico Giampiero Boniperti, que voltava ao ataque. Ou o meio-campista Bruno Pesaola, argentino naturalizado (“oriundi”, como dizem os italianos), que vinha fazendo sucesso no Napoli havia alguns anos. E acima de tudo, um outro “oriundi” com experiência em Copas para dar e vender: ninguém menos do que o uruguaio Alcides Edgardo Ghiggia, então na Roma, que dispensava apresentação pela façanha num certo jogo em 16 de julho de 1950.

Boniperti, Pesaola e Ghiggia estavam entre os nove que renovavam a Itália contra Portugal, em 26 de maio, em Lisboa. Mas a emenda ficou ainda pior do que o soneto: totalmente desentrosada, a Azzurra foi presa fácil para os Tugas. Manuel Vasques abriu o placar no primeiro tempo, aos 38 minutos; e no fim do jogo, Antonio Teixeira (aos 38) e Lucas Matateu (aos 42 minutos) impunham no placar o 3 a 0 com que os transalpinos não contavam. E que tornavam necessária uma vitória em outra visita – esta com mais dureza em potencial, contra a Irlanda do Norte, em Belfast.

Em 4 de dezembro de 1957, a Itália estava na capital norte-irlandesa para superar a péssima surpresa. Só que a meteorologia provocou um outro revés: escalado para apitar o jogo das Eliminatórias, o juiz húngaro István Zsolt não conseguiu embarcar a tempo para Belfast, pela forte neblina no aeroporto de Londres, onde o trio de arbitragem estava. Na Irlanda do Norte, para não desagradar ainda mais as 50 mil pessoas que já lotavam o estádio, o delegado da Fifa tomou uma atitude inimaginável hoje em dia: de jogo de qualificação, transformou o Irlanda do Norte x Itália num mero amistoso. A torcida presente começou a causar confusão, e o ambiente em campo ficou tenso a ponto da partida ser lembrada como “a batalha de Belfast”. O jogo amigável terminou num empate em 2 a 2, e os jogadores italianos (também alvos da fúria da torcida, por jogadas mais ríspidas) só saíram sem arranhões do campo porque os próprios futebolistas norte-irlandeses, capitaneados por Danny Blanchflower, os conduziram até os vestiários. Poderia ser um resultado que trouxesse alívio – se o jogo tivesse valido algo. Não valeu, e a Fifa marcou outro Irlanda do Norte x Itália, para 15 de janeiro de 1958.

Fosse como fosse, o terceiro jogo da campanha azzurra pelas Eliminatórias deu motivos para a torcida pensar que o pior tinha passado: 3 a 0 em cima de Portugal, em Milão, no dia 22 de dezembro de 1957, com dois gols de Guido Gratton e um do meio-campista Gino Pivatelli. Para o jogo, Alfredo Foni apostou em mais “oriundi” na Itália. Não bastasse Ghiggia, mais um antológico membro do Uruguai campeão mundial em 1950 foi chamado – Juan Schiaffino, então no Milan, justamente o autor do gol de empate no “Maracanazo”. Além da dupla uruguaia que se reencontrava vestindo um tom mais escuro de azul, entrou em campo contra os portugueses o argentino Miguel Ángel Montuori, meio-campista da Fiorentina.

E em 15 de janeiro de 1958, chegou a hora de viajar a Belfast, pegar a Irlanda do Norte para valer e, quem sabe, confirmar o favoritismo antes das Eliminatórias. Por via das dúvidas, o mesmo István Zsolt que apitaria a partida inicial já estava na capital norte-irlandesa desde o dia anterior. E a Itália chegava com um ataque totalmente formado por “oriundi”: além de Ghiggia, Schiaffino e Montuori, estava escalado o brasileiro Dino da Costa, goleador máximo do Campeonato Italiano em 1956/57, com 22 gols pela Roma.

Só que a Irlanda do Norte também queria ir à forra e mostrar que seu esforço merecia prêmio. Pois mostrou já no começo da partida: em menos de meia hora, encaminhou a vitória que a levaria à sua primeira participação em Copas. Aos 13 minutos do primeiro tempo, Jimmy McIlroy abriu o placar; e aos 28, Wilbur Cush ampliou a vantagem dos anfitriões em Belfast. Desarvorada, a Itália só se recompôs no segundo tempo, quando Dino da Costa diminuiu. Porém, justamente o mais badalado dos “oriundi” cometeu o ato que desanimou definitivamente a Azzurra: Ghiggia cometeu falta no defensor Alf McMichael e foi expulso por István Zsolt. E a Irlanda do Norte pôde impor sua marcação, frustrar a Itália e deixar seu nome como campeã do grupo 8 das Eliminatórias, com a vaga nas mãos.

E graças às derrotas inesperadas – nas qualificações e no amistoso contra a Iugoslávia -, a Itália entrou num desespero do qual não conseguiu sair. Ficou fora da Copa de 1958. Foi o último susto da Azzurra em Eliminatórias. E a torcida atual deseja que continue sendo, após a próxima segunda.