Os três atos de Wenger no Arsenal: o invencível, o sobrevivente e o decadente

A paternidade é um conceito constante no futebol inglês, incluso em relações simbióticas entre treinadores e clubes. Havia um Manchester United antes e depois de Matt Busby, e antes e depois de Alex Ferguson. Bill Shankly fundou o Liverpool moderno. Brian Clough foi responsável por colocar o Nottingham Forest no mapa. O Arsenal teve seus primeiros sucessos com Herbert Chapman e, nos anos noventa, foi refundado por Arsène Wenger, que anunciou o fim da sua passagem pelo norte de Londres, nesta sexta-feira. 

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Este momento estava próximo. Era inevitável. O Arsenal prepara-se para uma segunda temporada seguida fora da elite europeia, depois de duas décadas disputando a Champions League – a única alternativa é vencer a Liga Europa. O salto que era esperado não aconteceu. O clube pulou para baixo e não para cima. A relação da torcida com Wenger está lamentavelmente por um fio. A paciência esgotou-se há bastante tempo. 

Mesmo com mais um ano de contrato, Wenger decidiu ir embora para preservar o seu legado. Não quer passar pela humilhação de ser demitido pelo clube que revolucionou. Ultimamente, seu nome virou piada, sinônimo do atraso e da decadência. Isso é injusto com ele: o francês foi um técnico revolucionário, que montou equipes encantadoras, alcançou grandes feitos e deixou a sua marca no futebol inglês. Está na turma de Busby, Shankly, Ferguson e Clough. Na fila para virar estátua. 

Agora que a história está próxima de ser encerrada, é possível fazer um balanço mais preciso da trajetória de Wenger no Arsenal. Um balanço, com todos os pesares, ainda positivo. 

O operador de milagres

Arsène Wenger em sua primeira coletiva de imprensa como técnico do Arsenal (Foto: AP Photo/Photo/David Cheskin)

“Havia uma atmosfera fantástica em Highbury. Mesmo naquela época, eu pensei que seria ótimo fazer parte daquilo”. Aquela época era 2 de janeiro de 1989. Arsène Wenger ainda era treinador do Monaco. Retornando de uma viagem de observação na Turquia, passou alguns dias em Londres para assistir a uma partida do futebol inglês, tradicionalmente ocupado durante as festas de fim de ano. A sua história com o Arsenal estava prestes a começar. 

Wenger foi reconhecido pelo ex-vice-presidente David Dein. “Ele estava apenas passando pela minha frente, assistindo a um jogo, e eu disse: ‘Quer jantar comigo e minha esposa?’. A resposta dele mudou nossas vidas. Estava escrito nas estrelas. Arsène no Arsenal. É o destino, acontecerá algum dia”, contou Dein ao Channel 5. 

Em 1996, o Arsenal estava com problemas. George Graham havia encerrado sua vitoriosa passagem de quase nove anos em desgraça, acusado de receber propina de agentes de jogadores.  O clube foi 12º colocado naquela temporada. Bruce Rioch, outro escocês, foi o seu sucessor. Quinto lugar na Premier League. Melhor, mas ainda longe do potencial dos Gunners. Aprofundando o problema, o capitão e lenda Tony Adams havia acabado de anunciar seus problemas com o álcool. Estava na hora de cumprir a profecia. 

Pequenos óculos redondos, corte de cabelo conservador, sem um passado relevante como jogador profissional e uma carreira de treinador que o levou ao Japão. Era isso que a maioria do público do futebol inglês conseguia retirar de Wenger nos primeiros dias. A passagem pelo Monaco criou uma boa reputação, de um treinador inteligente, de técnicas modernas e bom em revelar jovens atletas. Mas isso seria suficiente para a ascendente Premier League? Ah, sim: além de tudo, ele era francês. 

Esse fato é relevante pelo choque de cultura, pois Wenger chegou a um elenco majoritariamente britânico, com qualidades e defeitos característicos, mas também porque nunca, na história do Campeonato Inglês, desde a primeira edição, em 1888, apenas alguns anos depois do fim da guerra Franco-Prussiana, um treinador que não fosse inglês ou escocês havia conquistado o título nacional da Inglaterra. 

Wenger ganhou de Dein, além da oferta de emprego da sua vida, o apelido de “operador de milagres”, pelo que conseguiu fazer em Highbury. “Ele revolucionou o clube dramaticamente”, afirma o dirigente. “Naqueles dias, todos tinham hábitos de bebida. Era de conhecimento comum, mas ele mudou todos os métodos de dieta, mudou os métodos de treinamento, assegurou que os garotos cuidassem melhor do próprio corpo”. 

O cuidado com a alimentação fazia parte das inovações de Wenger para a época. No Monaco, obrigou os jogadores a fazerem as refeições junto com a comissão técnica para, além de promover a união, supervisionar o que todos estavam comendo. Trocou a carne vermelha pelo frango. Trouxe profissionais específicos, como fisioterapeutas e nutricionistas. Apostava na preparação com base em vídeo e fazia treinos táticos direcionados. 

Dennis Bergkamp era uma dos poucos estrangeiros do elenco. Mesmo antes de tomar posse do seu novo reinado, Wenger havia sugerido a contratação de Patrick Vieira. Nicolas Anelka veio do Paris Saint-Germain. O Arsenal foi terceiro colocado na primeira temporada de Wenger. Para a seguinte, foram contratados Marc Overmars e Emmanuel Petit. Na metade de 1998, os Gunners comemoravam a a primeira Dobradinha – liga e copa – desde 1971. E Wenger, o francês, era o primeiro estrangeiro a conquistar a Inglaterra. 

Além do óbvio efeito que troféus têm para um clube, eles também foram importantes para referendar um estilo de futebol ao qual poucos estavam acostumados nas arquibancadas de Highbury. As melhores equipes da história do Arsenal foram famosas pela tosquice, digamos assim. Jogadores fortes, raçudos, disciplinados, capazes de deixar o sangue no gramado, mas não tão capazes assim de acertar cinco ou seis passes seguidos para a frente. Era o DNA do clube entrando em mutação. O time de Wenger tinha a força física, mas tinha, acima de tudo, a técnica. Passes rápidos, verticais e muito refinamento. Uma fórmula invencível. 

Nos sete anos seguintes, o Arsenal teve muita pouca criatividade na posição em que terminaria a Premier League: ou era primeiro ou era segundo colocado. Foi um período de disputas acirradas com o Manchester United de Alex Ferguson, campeão todas as vezes em que os Gunners foram vice naquele período, com exceção de 2004/05, quando o Chelsea de José Mourinho e Roman Abramovich já começava a modificar o terreno da Premier League. Mas ainda havia tempo para dois grandes feitos de Wenger. 

A última vez que uma equipe havia sido campeã inglesa sem nenhuma derrota havia sido o Preston North End, em 1889. Foram apenas 22 partidas de liga naquela campanha. A Premier League em 2003/04 previa 38 rodadas. Com o peso do tempo, ninguém realmente acreditava que o futebol inglês veria outra equipe imbatível. Mas Lehmann, Lauren, Sol Campbell, Kolo Touré, Ashley Cole, Gilberto Silva, Patrick Vieira, Robert Pirès, Ljunberg, Henry, Bergkamp e Arsène Wenger deram de ombros para a história. 

Os Invencíveis são o auge do trabalho de Wenger no Arsenal. Uma equipe construída pelas mãos de um artesão. A cada janela de transferências, um novo jogador era bordado. O produto final ficou 49 jogos invicto, entre maio de 2003 e outubro de 2004, transcendendo entre três edições da Premier League. Apenas quatro times conseguiram segurar o ataque dos Gunners naquela campanha vitoriosa: Birmingham, Newcastle, Fulham e Manchester United seguraram o 0 a 0. A alcunha de milagreiro nunca foi tão apropriada. 

O que não deu para fazer foi transferir o sucesso para o futebol continental. O Arsenal foi derrotado nas quartas de final da Champions League pelo Chelsea de Claudio Ranieri. Mas a chance veio dois anos depois, no último suspiro dos Invencíveis. Poucas mudanças foram feitas: Vieira saiu para a Juventus e foi substituído por Fàbregas; Eboué ganhou a corrida pela lateral direita; e Hleb foi mais titular que Dennis Bergkamp, já de olho em onde penduraria as suas botas. 

A derrota para o Barcelona, em Paris, foi um marco para Wenger, o fim trágico de um primeiro ato glorioso. A deterioração foi rápida, durou apenas dois anos. Antes do começo da temporada seguinte, Bergkamp, aposentado, Pirès, Sol Campbell, Lauren e Ashley Cole já haviam deixado o clube. Touré perdia espaço para Gallas. O bonde seguiu em frente, levando Henry, Ljunberg e Lehmann. Um novo time precisava ser construído. Assim como um novo estádio. 

O momento mais difícil 

Estátua de Henry à frente do Emirates

“Em 2006, começou o período mais difícil da minha vida porque nosso dinheiro estava restrito, precisávamos pagar muito dinheiro que estávamos devendo e tínhamos que vender nossos melhores jogadores e nos manter no topo”. De olho no progresso, a diretoria do Arsenal decidiu que estava na hora de se mudar. O Highbury, com todo seu carisma e atmosfera, não era capaz de produzir os dividendos que o futebol moderno exigia. No outro lado da rua, literalmente, foi construído o estádio Emirates, hoje responsável por bilheterias fantásticas. Mas isso veio com um custo. 

O próprio Wenger deu as contas: £ 4 mil por pessoa, multiplicado por 60.000, dá £ 240 milhões. Com o dinheiro necessário para o terreno e para indenizar os estabelecimentos comerciais que precisaram ser desapropriados, a dívida chegou a £ 400 milhões. Foi necessária quase uma década para estabilizar a situação financeira. O técnico francês restringe o problema ao período entre 2006 e 2014, quando havia uma pressão gigantesca para disputar a Champions League todos os anos ao mesmo tempo em que não havia nenhum dinheiro para contrações. 

Nos oito mercados do período determinado por Wenger, o Arsenal vendeu mais do que comprou em cinco. Ficou no elas por elas em um deles, deu prejuízo de apenas £ 13 milhões em outro e, no último, em 2013/14, quando contratou Özil, a conta ficou £ 31 milhões no vermelho. A janela com mais gastos foi a de 2011/12, com £ 55 milhões desembolsados. Mas a arrecadação também foi alta, com as vendas de Fàbregas, Nasri e Clichy: £ 66 milhões. 

Além de não poder investir, Wenger precisava lidar com as chegadas de novos participantes ao tabuleiro do futebol inglês em que, até então, ele jogava xadrez quase exclusivamente com Ferguson. Abramovich comprou o Chelsea e o Manchester City foi parar nas mãos cobertas de petróleo dos Emirados Árabes. De repente, havia duas novas potências aliciando jogadores do próprio Arsenal e inflacionando os preços do mercado. Paralelamente, Barcelona, e Real Madrid se estabeleciam como potências globais. Vultuosas somas de dinheiro foram gastas para acelerar o processo de construção de um time vencedor e esse cronograma acabou se tornando padrão. Imprensa, torcida e jogadores não tinham mais paciência para o trabalho artesanal. 

Não é a toa que Wenger, nos últimos dez ou doze anos, tenha criticado com frequência a injeção de dinheiro externo ao futebol inglês. Não havia mais tempo para esperar o florescer de uma equipe jovem e os jogadores que ele já havia desenvolvido desejavam ir embora. Queriam títulos, tinham que pensar na própria carreira, aquela história de sempre. O primeiro sinal foi a ida de Ashley Cole para o Chelsea. Fàbregas, Clichy, Adebayor, Nasri e Van Persie também fizeram as malas nos anos seguintes. 

Os planos de Wenger foram arruinados pelo novo contexto do futebol mundial. O objetivo não era mais encantar ou nem mesmo vencer. Era meramente sobreviver. Classificar-se para a Champions League era imperativo, por causa das receitas essenciais para pagar o estádio. Mas precisava fazer isso em uma liga cada vez mais competitiva, sem poder investir e vendo alguns dos seus principais atletas sendo contratados pelos rivais. E de alguma maneira, ele conseguiu. 

O Arsenal flutuou entre terceiro e quarto colocado naquele período, mantendo a escrita invejável de Wenger de disputar a Champions League em todas as suas temporadas desde 1998/99, sequência que só seria quebrada em 2017/18. O único título foi a Copa da Inglaterra de 2014, justamente no fim do calvário financeiro dos Gunners. Özil havia chegado naquela temporada como o presságio de futuros grandes investimentos. E o troféu da FA Cup deveria representar a mesma coisa. 

Decadência

Torcida pede a saída de Wenger (Foto: Getty Images)

A falta de investimentos do Arsenal muitas vezes caiu exclusivamente nas costas de Wenger, sem levar em conta as notas promissórias do Emirates. Não era uma opinião totalmente absurda porque o francês, mesmo em temos de bonança, nunca foi muito predisposto a quebrar a banca. Preferia jogadores jovens. O perfil era de paciência. Mas, enquanto tentava sobreviver nos anos de vacas magras, o futebol mudou demais. E quando finalmente colocou a cabeça para fora da água, não se mostrou preparado para os novos desafios. 

A carteira foi aberta: em três dos quatro mercados desde a chegada de Ôzil, o Arsenal gastou perto de £ 100 milhões em todos eles. Chegaram nomes como Sánchez e Cech, que deveriam ajudar a formar a espinha dorsal de uma nova equipe vencedora – Aubameyang, Lacazette e Mkhitaryan já fazem parte de um segundo projeto. Mas muito dinheiro também foi mal investido. Chambers, Welbeck, Gabriel Paulista e Debuchy, juntos, custaram mais de £ 60 milhões.

Os conceitos de Wenger, acima de tudo um homem de princípios, absolutamente elogiável por todos os ângulos, começaram a entrar em conflito com as exigências necessárias para voltar a vencer. A sensação era de que ele sabia o que era necessário para retornar ao primeiro patamar, tinha as armas à disposição, mas se recusava a fazê-lo, em nome de vencer com os seus métodos. Mesmo gastando mais, as somas ainda eram inferiores ao dos seus principais adversários.

A segunda hipótese é que ele simplesmente ficou para trás. Não consegue mais montar times competitivos como antigamente. As revoluções dos anos noventa tornaram-se arcaicas. Todo mundo usa vídeos e estatísticas e nutricionistas. Não são vantagens se não forem bem utilizadas. A complexidade do jogo multiplicou-se nos últimos dez anos, e o Arsenal não está acompanhando a evolução. Parece mais frágil e desorganizado a cada temporada. A única novidade tática recente foi tentar copiar o esquema de três zagueiros de Conte. 

A abordagem mais humana de Wenger ao ofício de treinador não tem o mesmo efeito com uma nova geração de jogadores mais exigente e, por vezes, mimada. Os sucessos do passado não compram créditos hoje em dia. O Arsenal é uma equipe frágil mentalmente, suscetível a entrar em colapso a qualquer momento. Nada parecido com a coragem dos Invencíveis. A liderança destemida de nomes como Vieira e Henry não foi replicada em nenhum dos novos craques do francês. Özil, o maior nome deste novo período, é acusado, justa ou injustamente, de desaparecer nos momentos mais importantes. 

“Se você come caviar todos os dias, é difícil voltar às salsichas”, disse um profético Wenger, ainda em 1998. A torcida teve paciência durante a reestruturação financeira pós-Emirates, aceitou comer salsichas para contribuir com a causa, mas cobra o retorno do caviar. O estádio produz a renda que se esperava,  o clube seguiu na Champions League, com exceção da última temporada, os acordos de material esportivo cresceram exponencialmente, e o contrato de direitos de televisão é o maior da história da Inglaterra. Se dinheiro não é mais uma questão, qual é o problema agora? 

Foi prometido que o Arsenal estaria bem posicionado para voltar ao primeiro patamar a partir de 2014. E houve realmente uma ligeira evolução, com o terceiro lugar de 2014/15 e o vice-campeonato de 2015/16, a primeira vez que o clube terminou na segunda colocação desde 2005. No entanto, o campeão daquele ano foi o Leicester, o que apenas aumentou a pressão sobre Wenger: Claudio Ranieri venceu a Premier League por um time pequeno antes de o Arsenal quebrar o seu jejum de títulos ingleses. 

Três conquistas de Copa da Inglaterra em quatro temporadas nada fizeram para aplacar a fúria da torcida, agora nutrindo um sentimento de traição. O momento que deveria ser o da reviravolta foi preenchido por mais humilhações. Derrotas pesadas nas oitavas de final da Champions League evidenciavam a distância para os melhores times da Europa. Uma distância que nunca parecia diminuir. O quinto lugar da temporada passada, fora da Champions pela primeira vez desde 1997/98, foi a primeira ferida mortal. 

A diretoria decidiu escancarar sua confiança no trabalho de Wenger com um novo contrato de dois anos. Mas dificilmente a torcida toleraria mais uma temporada medíocre e foi isso que o treinador francês entregou. Na melhor das hipóteses, terminará a Premier League em sexto lugar e ainda pode ser ultrapassado pelo Burnley. Foi eliminado das duas copas inglesas e tem na Liga Europa a única chance de título e de retornar à Champions League na próxima temporada. 

O que era paciência tornou-se protestos constantes. Dá para olhar essa postura pelo prisma da ingratidão, mas também do recado: o tempo de Wenger no Emirates terminou, e ele parece ter sido o último a perceber. Pelo menos percebeu a tempo de evitar a indignidade de ser demitido pelo clube que ajudou a revolucionar e que o promoveu ao reconhecimento do mundo do futebol. A decisão do francês permite que agora o seu trabalho seja olhado como um todo, o que invariavelmente resulta em sentimentos de gratidão. Mas, também, de alívio.