Oscar comemora o seu gol no primeiro jogo do Brasil na Copa (AP Photo/Ivan Sekretarev)

Vai, Oscar! Vai ser gauche, vai ser Neymar na vida

“Quando nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.”

É assim que se inicia o Poema de Sete Faces, de Carlos Drummond de Andrade. O “gauche” do poema é um indivíduo “desajustado”, fora dos padrões normais.

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Não cabe aqui uma análise mais detalhada do excelente poema, nem do excelente poeta, mas quem quiser saber mais sobre o tema pode googlar, há muito na internet para ler. Lembrei-me desta linha inicial na última sexta-feira, ao me dar conta de que a seleção brasileira precisa de Neymar, seu “gauche”, o único autorizado a sair do esquema para desequilibrar. A seleção precisa de Neymar, mas não terá Neymar. Mas terá Oscar. E é só ele que pode ser Neymar nesse grupo. Desde que deixem.

Não estou dizendo que Oscar e Neymar são jogadores similares porque não são. Neymar é atacante, Oscar é meia-atacante. Não é pela similaridade de posição que Oscar pode ser Neymar. É pela similaridade de talento. Nenhum outro jogador do grupo convocado por seleção tem o talento da dupla.

Ninguém duvida de que Oscar tem o talento. Há quem desconfie, este que aqui escreve entre eles, que pode não ter o espírito, a atitude necessária para ser Neymar. É a hora, porém, de vermos, e se alguém fez por merecer a chance de mostrar se aguenta o tranco ou não, é Oscar.

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Em 2011, é bom lembrar, Oscar também teve que ser Neymar, no Mundial Sub-20 da Turquia. Sem Neymar e Lucas, coube a Oscar ser o gauche do time. E ele foi, fez três gols na final e o Brasil foi campeão.

Na Copa até aqui, Oscar jogou bem contra a Croácia. Depois, pode-se argumentar que se tornou o melhor marcador do time, ou que sumiu da armação e da criação. Ambas as afirmações são verdadeiras. Oscar parece um sósia do antigo Oscar, um que marca como ninguém, provavelmente efeito do aprendizado com José Mourinho, mas que esqueceu o que fazer com a bola quando a tem.

“O homem atrás do bigode é serio, simples e forte. Quase não conversa,” diz o poema de Drummond um pouco mais adiante. O homem de bigode é mesmo sério, simples e forte. Fechou o time atrás e esperou que Neymar fosse resolver. Oscar, que deveria fazer parte do pedaço do time que resolve, virou parte do pedaço do time que fecha. Mas agora não há Neymar, nem há quem o substitua. O Brasil precisa de talento, Fred e Jô não dispõem de talento, Bernard dispõe de algum, mas não parece saber usá-lo sem cair no chão, William, Ramires, Paulinho ou Hernanes dispõem dele em quantidades moderadas.

Só quem dispõe de talento para ser Neymar na seleção brasileira é Oscar. Desde que possa ser gauche. Desde que o homem de bigode o deixe ser gauche.

Vai, Oscar, ser gauche na vida. Vai ser Neymar na vida.

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