Em novembro de 1953, a Inglaterra recebeu a Hungria para um amistoso em Wembley. Apesar da derrota para os Estados Unidos na Copa de 1950, o English Team ainda se sentia dono do esporte. Até ali, nunca tinha sido derrotado dentro de casa por uma equipe não britânica. Naquele dia, porém, os húngaros massacraram o English Team impiedosamente, vencendo por 6 a 3.

Mais de cinquenta anos depois, a Alemanha vice-campeã mundial estreou na Eurocopa de Portugal com um empate com a Holanda. No jogo seguinte, porém, o Nationalelf conseguiu a façanha de empatar em 0 a 0com a Letônia, e acabou eliminado do torneio depois de perder da República Tcheca na última rodada – teve gol de Milan Baros, o que amplifica a humilhação.

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Resultados diferentes, situações diferentes, mas que têm uma coisa em comum: ambos serviram para que os times derrotados passassem por uma profunda reformulação. A da Inglaterra foi tática, sobretudo, e resultou no título de 1966. A da Alemanha foi principalmente de pessoal, mas também de técnico – e de filosofia – e resultou no atual time.

Os 7 a 1 sofridos pelo Brasil nesta terça-feira em Belo Horizonte poderiam pelo menos ter este efeito. Todos sabem que muito precisa mudar na seleção brasileira e não é de hoje. Todos sabem que mesmo nossas duas últimas conquistas vieram muito mais pelo talento dos jogadores disponíveis temperados com uma dose cavalar de sorte e de respeito dos adversários. Não é difícil enxergar o começo do caminho para a renovação. Mas é difícil imaginar que alguém vá ter coragem para mudar.

Se há pontos em que cada um pode ter uma opinião, porém – um eventual técnico estrangeiro, por exemplo -, há pontos dos quais não podemos fugir:

1- Seleção brasileira precisa parar de ser um joguete político

Mano Menezes foi contratado porque era o homem de Andres Sanchez, e demitido porque era o homem de Sanchez; Felipão, vindo de campanha ridícula com o Palmeiras, porque o Neanderthal que dirige nosso futebol “gosta dele”. Nunca houve qualquer preocupação em montar um time, em pensar também no futuro. O importante era ganhar, fosse como fosse, para garantir a permanência do atual grupo no poder. Na CBF, seleção nunca foi nada além de máquina de fazer dinheiro e joguete político. Sem mudar isso, nada mais vai mudar.

2- Brasil precisa aposentar o zagalismo-parreirismo, o discurso triunfalista do “já ganhou”.

Em 1994, Parreira e Zagallo eram alvo de ridículo quando diziam que o tetra seria nosso. Não era à toa, o time era torto, mal montado e só engrenou quando Romário, que ambos detestavam, chegou para salvar a pele de todo mundo. Como o time ganhou, a dupla passou de um par de fanfarrões a “conhecedores do futebol e da alma brasileira”. Isso rendeu ao Brasil um vice-campeonato em 98, o fracasso de 2006, sob Parreira, e a perpetuação da arrogância nacional.

Pouco antes da Copa, como lembra Martín Fernandez em seu blog no Globo.com, Parreira dizia que o título já era nosso. Motivação para o elenco? Balela. Arrogância pura, e descolada da realidade. Um time mediano foi convencido de que era seu destino ficar com o troféu, e não conseguiu perceber a tempo que não seria bem assim. O Brasil precisa descer do salto e entender que, embora seja uma nação do primeiro mundo do futebol, não é a única, e isso por si só não é garantia de troféus.

3- Brasil precisa formar técnicos

Felipão ganhou 2002, e passamos a achar que tínhamos um mago. Felipão levou Portugal à final da Euro, e pareceu que o mago tinha talentos internacionais. Felipão perdeu a final PARA A GRÉCIA EM CASA, mas apagamos isso da memória. Felipão fracassou estrondosamente no Chelsea por seus próprios defeitos, assim como Vanderlei Luxemburgo fracassou estrondosamente no Real Madrid por seus defeitos. Ainda assim, continuamos achando que temos bons técnicos. Nesta Copa, havia quatro técnicos alemães, três argentinos, italianos e até colombianos, mas Felipão era o único brasileiro. Nossos técnicos usam a desculpa da simplicidade mental do jogador brasileiro para não se reciclarem. Mas esses mesmo jogadores vão para a Europa e se encaixam em qualquer esquema que lhes é proposto.

Nossos técnicos, sem nenhuma exceção, são ruins, apostam em dois ou três truques táticos e trabalham exclusivamente na formação de grupo e motivação. Mais pela qualidade dos jogadores do que por outro motivo, às vezes dá certo, mas basta comparar o dinheiro que há no futebol brasileiro com o resto da América do Sul para ver que deveríamos ganhar a Libertadores muito mais do que ganhamos. O Brasil precisa entender que técnico de futebol não é só um líder de torcida, e precisa reciclar seus profissionais.

4 – Brasil precisa entender que só habilidade não basta, é necessário um sistema de jogo

A Alemanha massacrou o Brasil com ótimos jogadores, mas nenhum deles é Lionel Messi. Da mesma forma, um time muito pior do que o brasileiro, a Argélia, esteve a ponto de eliminar a equipe de Joachim Löw da Copa. O melhor jogador argelino, Feghouli, talvez não entrasse no terceiro time brasileiro em termos de habilidade, mas teve, assim como toda a equipe de seu país – e da Nigéria, da Costa Rica e de quase todos os times que chegaram longe – uma disciplina tática que o Brasil nunca teve. Se dá para criticar David Luiz por “sair na louca” depois do segundo gol alemão, é bom lembrar que o pobre não sabia o que mais devia fazer. O Brasil não tem, como nunca teve, um sistema de jogo que permita aos jogadores saber o que fazer em situações extremas. A Argélia levou 2 a 0 da Alemanha na prorrogação, e mesmo assim partiu para cima dos alemães, fez um gol e quase fez o segundo. Não há como argumentar que os jogadores argelinos são melhores que os nossos, mas é evidente que o time sabia como devia jogar.

O esquema de jogo do Brasil desde 94 é “fecha atrás e joga a bola para o craque”. Os problemas disso são tão óbvios que gritam, a começar pelo fato de que o “fecha atrás” só funciona se houver treino, e fracassará sempre que algum titular fracassar se não houver um sistema de proteção à zaga. Na seleção argentina, Messi era um pobre coitado num catadão até se montar um time para suas características – que mesmo assim ainda é cheio de falhas. Nem o melhor do mundo pode jogar se não há um sistema de jogo. Jogadores bons, até ótimos, mas não necessariamente excepcionais, como muitos alemães, podem ser mortais porque jogam num sistema competente, e que conhecem bem.

5 – Brasil precisa trabalhar com mais seriedade as categorias de base

Não foi outra a principal característica da renovação alemã pós-2009 – e do surgimento da dominante Espanha de 2008 a 2012. As categorias de base no Brasil são um avacalho, servem para todo tipo de politicagem e sacanagem, esquemas de empresários e dirigentes e acomodações clubísticas. Não só isso como, assim como já dissemos acima, não tem uma filosofia de jogo. Não se identifica potencialidades nem vulnerabilidades, e deixa-se para os clubes a tarefa de desenvolver os jogadores. O problema é que os clubes não se preocupam em formar, só em resolver problemas imediatos e em fazer dinheiro.

Assim, jogadores que deveriam comer grama na base são alçados ao time principal sem estarem prontos, ou então são vendidos por trocados para fechar o balanço do time. Alguns, como Hulk, Diego Costa ou Deco, acabam concluindo sua formação na Europa, com degraus bastante variados de sucesso, e há os que acabam optando por outras seleções. Os laterais Rafael e Fábio, por exemplo, poderiam estar se desenvolvendo no Fluminense ao invés de terem sido atirados aos leões em Manchester. E, na cabeça do United, se vingar, vingou, se não, vem outro. Para o Brasil, porém, eram dois jogadores para os lugares dos velhos Daniel Alves e Maicon e do inexplicável Maxwell.

6 – Propostas modernizadoras de toda a estrutura do futebol nacional precisam ser colocadas em prática

Não é só dentro de campo e não é só na seleção. O futebol brasileiro está podre há tempos, o que é mascarado pelo sucesso que obtemos exclusivamente por causa da qualidade técnica de nossos jogadores. Há pouquíssimos exemplos de trabalhos de médio e longo prazo, tão poucos – o São Paulo de 2005 a 2008, o Corinthians campeão do mundo, o Inter de 2006 a 2009 – que, quando eles surgem, chamam a atenção. Há quem tente imitar, mas sempre sem mexer na estrutura. Além disso, os poucos bons trabalhos não resistem à bagunça e à ganância de dirigentes dos clubes e federações. Jogadores e clubes são obrigados a jogar partidas demais, em estádios ruins, e em horários ridículos. Quando surge um movimento como o Bom Senso FC, não faltam críticas estúpidas, quase sempre clubísticas e ressentidas. O Brasil precisa reter seus jogadores, não os neymares, mas pelo menos os luis gustavos.

O Brasil precisa matar os ridículos campeonatos estaduais, ou pelo menos reduzi-los a menos datas. É necessário um calendário que movimente os clubes pequenos e do interior, e um campeonato que seja economicamente viável para todos. É necessário profissionalismo para vender nosso campeonato como produto, e nossos times como produtos. Não é normal que Boca e River sejam conhecidos no mundo todo, mas Flamengo e Corinthians não sejam. Mas, principalmente, é necessário voltar ao começo dessa conversa: o futebol brasileiro precisa se livrar das pessoas que só têm interesse nele como máquina de dinheiro ou de prestígio político. E só há um caminho para fazer isso: por meio dos clubes, da pressão que os torcedores podem fazer em seus clubes, não com violência, não meramente com “queremos jogador”, mas com “queremos profissionalismo”. Hoje, um dirigente que tente mudar tem 99% de chance de fracassar porque a estrutura o boicotará.

Enquanto não houver uma maioria de clubes comprometidos com as mudanças, nada vai mudar. E haverá torcedores comemorando um título, mas sem pensar que vai durar pouco, e que não é um caminho para nada, porque no ano que vem os craques vão para a Europa, o presidente brigará com o técnico e dali a 12 meses é provável que tido volte à estaca zero. É necessário mudar a mentalidade, e só o torcedor pode levar a isso.