A aparição de Gustavo Borges, com a prata nos 100m da natação. A surpreendente medalha de ouro de Rogério Sampaio, no judô (até 65kg). A escalada empolgante da seleção masculina de vôlei, rumo ao primeiro ouro brasileiro em esportes coletivos. Pois é: o Brasil não tem muitas memórias do futebol nos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992. Até havia uma geração promissora (Cafu, Márcio Santos, Roberto Carlos, Dener, Elivélton, Bismarck), mas ela se perdera nos desacertos táticos e disciplinares, protagonizando decepção gigante no Pré-Olímpico do Paraguai – ficaram com as vagas sul-americanas o Paraguai (com defesa contendo Francisco Arce, Celso Ayala e Carlos Gamarra) e a Colômbia (de Miguel Calero, Victor Aristizábal e Faustino Asprilla – fora Faryd Mondragón, reserva de Calero no gol).

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Com o Brasil ausente, ninguém ligou muito para aquele torneio olímpico de futebol, o primeiro onde valia a regra de apenas três convocados acima de 23 anos. Pois a Espanha, dona da casa, não ganhou só a medalha de ouro que completa exatos 25 anos neste 8 de agosto. Ganhou nomes que ficariam muito conhecidos no futebol adulto, nos anos que se seguiram àqueles dias de competição. Basta dizer que a defesa da seleção anfitriã contava com Albert Ferrer, já titular absoluto do Barcelona (como torcedores do São Paulo bem se lembram – Muller, muito mais, tendo dado drible belíssimo em Ferrer no gol de empate da final do Mundial Interclubes, dali a alguns meses).

No meio-campo, estava outro titular absoluto dos Culés – que era meio-campista até elogiável, já com algum sucesso, mas que seria muito mais notado no banco de reservas: um tal Josep Guardiola, que cuidava da parte mais defensiva no meio. Armando as jogadas, outra figura a se tornar conhecida na seleção espanhola dos anos 1990: Abelardo Fernández. Como ponta-de-lança espanhol, outro meio-campista hoje também conhecido pelo que faz comandando equipes: Luis Enrique Martínez. No ataque, mais dois nomes que não demorariam muito para entrarem na “Fúria” em anos futuros: Francisco “Kiko” Narváez e Alfonso Pérez. Isso sem contar Santiago Cañizares, goleiro reserva de Toni naquela equipe espanhola – mas que iria a três Copas do Mundo depois daqueles Jogos Olímpicos.

Na primeira fase, os espanhóis não tiveram muitos sustos. Três vitórias num grupo fácil: 4 a 0 na Colômbia, 2 a 0 no Egito e 2 a 0 no Catar, com a dupla Kiko-Alfonso despontando como protagonista – tendo atrás o zagueiro Roberto Solozábal como coadjuvante. Somente as quartas de final revelariam dificuldades para a equipe treinada por Vicente Meira – e além de dificuldades, os principais adversários no caminho do ouro.

Os obstáculos da Espanha vieram numa seleção também tradicional, na qual muitos reencontrariam os protagonistas anfitriões: a Itália, campeã europeia sub-21 em 1992, que tinha no meio-campo Dino Baggio e Demetrio Albertini (mas cujo destaque era uma futura decepção: o atacante Renato Buso). Num jogo equilibrado no estádio Luis Casanova (que logo voltaria ao seu nome antigo, o Mestalla), em Valência, a Espanha deu sorte. Porque, aos 37 minutos do primeiro tempo, o trio de arbitragem comandado pelo brasileiro Márcio Rezende de Freitas errou decisivamente: Kiko foi lançado em posição duvidosa pelo meio-campista Paco Soler, entrando livre na grande área para tocar na saída do goleiro Francesco Antonioli e fazer o único gol da partida. Para completar, a Itália ainda foi prejudicada: Buso marcou gol legal, anulado por Márcio Rezende, e ainda foi expulso, por reclamação.

Os adversários que despontaram nas quartas se revelaram numa equipe africana muito promissora e numa seleção tradicional em Jogos Olímpicos. Em Zaragoza, embora o Paraguai tenha feito jogo duro e forçado a prorrogação, Gana chegou à vitória nos 120 minutos, indo às semifinais empurrada pelos gols de Kwame Ayew (irmão de Abedi Pelé e primo de André Ayew) e pela habilidade de Nii Odartey Lamptey – além de Samuel Kuffour na zaga. Mais facilidade teve a Polônia: despachou o Catar (2 a 0), trazendo a tradição de um ouro (1972) e uma prata (1976) olímpicas – e tendo esperanças no futuro, com os gols de Andrej Juskowiak, futuro goleador daquele torneio olímpico. Além de Juskowiak, outros também seriam presenças frequentes na seleção de cima, como o meio-campista Marek Kozminski e o zagueiro Tomasz Waldoch.

Juskowiak brilhou ainda mais nas semifinais: em pleno Camp Nou, marcou três gols numa goleada polonesa (6 a 1 na Austrália, com Mark Bosnich no gol). E a Espanha foi menos exuberante, mas nem por isso menos eficiente: no Mestalla, conteve Gana com 2 a 0 e garantiu pelo menos uma medalha de prata. O que era insuficiente também em idade olímpica: a única medalha da Espanha no futebol fora uma prata, no já distante 1920, nos Jogos de Antuérpia. O Camp Nou deu a medida da espera: ficou repleto, no penúltimo dia de competições olímpicas, esperando o ouro.

E ele não veio facilmente. Até porque quem saiu na frente do placar foi a Polônia: aos 39 minutos do primeiro tempo, um tiro de meta cobrado pelo goleiro Aleksander Klak virou “lançamento”, no qual Wojciech Kowalczyk se livrou da marcação e tocou na saída de Toni para o 1 a 0. No segundo tempo, o empate veio só aos 20 minutos: cobrança de falta da esquerda, e a bola encontrou a cabeça de Abelardo na segunda trave para o 1 a 1, já com a presença do Rei Juan Carlos nas tribunas do Camp Nou. Mais seis minutos, e a Espanha virou: Kiko Narváez aproveitou desatenção de Tomasz Lapinski, passou à frente com a bola e fez 2 a 1 com toque na saída de Klak. Parecia a confirmação do ouro.

O ouro veio, mas com drama adicional. Porque aos 31 minutos, a Polônia retornou ao jogo: um belo lançamento de Jerzy Brzeczek encontrou Ryszard Staniek entrando livre na área, para escorar no canto esquerdo de Toni, empatando o jogo. Ficou o temor de uma prorrogação, ampliando o nervosismo da torcida. Que só acabou como se sonha, numa final: no último minuto. Ferrer cobrou escanteio, Luis Enrique pegou a bola fora da área, arrematou, a bola bateu na defesa, e sobrou para Kiko marcar seu segundo gol. Não era bem um título na categoria adulta, mas era, ora bolas, uma conquista para a Espanha no futebol.

Além do ouro, a equipe campeã deixava frutos para a seleção principal. Cañizares, Ferrer, Abelardo, Guardiola e Luis Enrique já estariam na Copa de 1994; Kiko e Alfonso foram à Euro 1996 e à Copa de 1998. Fizeram parte de novas decepções – uma das quais, na Copa de 1994, para a Itália que também tinha na equipe principal Dino Baggio e Albertini (mas contando com outro Baggio, o Roberto, como destaque). Mas, bem ou mal, aquela medalha de ouro em Barcelona indicou certa tradição espanhola em torneios de base – comprovada com o título mundial sub-20 em 1999 e a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de 2000. E revelou uma equipe que manteve a Espanha relativamente conhecida, até a geração posterior enfim dar os títulos que o país queria.