O presidente do Everton, Bill Kenwright, conta que as primeiras palavras que ouviu de Roberto Martínez, quando o estava entrevistando para ser sucessor de David Moyes, foram: “Eu vou levá-lo à Liga dos Campeões”. Era arrogância, loucura ou confiança cega? Pelas últimas rodadas do Campeonato Inglês, a resposta correta parece ser a terceira. Com seis jogos pela frente, o lado azul de Merseyside está muito bem posicionado para voltar à competição europeia pela primeira vez desde 2004/05 e deve muito ao treinador espanhol.

Isso não significa que Moyes era um incompetente. Em 2002, ele assumiu um Everton que estava começando a se acostumar a brigar contra o rebaixamento e reverteu esse hábito, apesar do deslize na temporada 2003/04, quando ficou a apenas uma posição da Championship. Ele próprio, no ano seguinte, levou o clube à Liga dos Campeões. Pragmático, o escocês montou uma forte defesa e um esquema tático rígido. Suficiente para o Everton estabilizar-se na parte de cima da tabela.

Martínez aproveitou essa base. A espinha dorsal da defesa, com Tim Howard, Phil Jagielka, Leighton Baines e Seamus Coleman, continua a mesma. O meio-campo perdeu Marouane Fellaini, mas ganhou Gareth Barry e James McCarthy. O ataque também foi reforçado, com Romelu Lukaku. No geral, o elenco ficou melhor. Mas as principais mudanças do técnico espanhol são a postura e a mentalidade de jogo.

Digamos que Martínez é um pouco mais animado que seu antecessor, um escocês taciturno. Em dezembro, o espanhol participou de um vídeo muito bem-humorado para comemorar o natal. Todos respeitavam Moyes, mas alguns funcionários acham impossível que essa brincadeira acontecesse sob o comando dele. Segundo o The Telegraph, há mais alegria em Goodison Park.

E junto com a alegria, vem a ousadia, certo? Na Copa do Mundo de 2010, Martínez foi para a África do Sul acompanhar a seleção chilena de Marcelo Bielsa e ficou encantado. O Wigan, clube com o qual venceu a Copa da Inglaterra e que ele manteve na primeira divisão por tanto tempo, era considerado um pouco suicída. Agora, ele tem mais material humano para ser ofensivo e as estatísticas comprovam algumas mudanças significativas de estilo de jogo.

O Everton de Martínez tem mais posse de bola e acerta mais passes que o de Moyes, mas o que mais chama a atenção é que os jogadores ganharam muita liberdade para tentar driblar. Na temporada 2012/13, o elenco tinha média de 5,3 fintas por partida, apenas a 15ª mais alta da Premier League. Na atual edição, são 12,6 dribles por jogo, a melhor marca da liga. Evidência de um time mais solto, provocativo e criativo.

A média de cruzamentos caiu de 26 para 22, e o clube também está chutando menos (14,9 contra 16,7), mas pelo menos ainda acerta 5,4 por partida. Defensivamente, concede mais finalizações. Por outro lado, comete menos faltas e desarma mais. Em resumo: o ataque e a defesa estão melhores. A média de gols marcados subiu de 1,4 para 1,6 em relação ao ano passado, e a de sofridos caiu de 1,05 para 0,97.

Isso tudo resulta em uma consistência impressionante. Das cinco derrotas no Campeonato Inglês, apenas uma pode ser considerada um vacilo: perder em casa do lanterna Sunderland. O Everton foi superado apenas pelo City nos primeiros 17 jogos do torneio e vai tentar a vingança contra o Sunderland, no Stadium of Light, no próximo final de semana, depois de seis vitórias consecutivas. O único momento realmente ruim foi entre o final de janeiro e começo de fevereiro, quando a tabela não ajudou muito. Em quatro partidas, perdeu de Liverpool, Tottenham e Chelsea, os outros revezes no torneio, todos longe de Goodison Park.

Por isso, naquela história de copo meio cheio ou meio vazio, se o Everton ainda tem os dois grandes de Manchester pela frente, pelo menos as partidas são em casa, onde foi derrotado pela última vez em 26 de dezembro. Com um ponto e um jogo a menos que o Arsenal, a promessa de Martínez a Kenwright pode não ser concretizada tão cedo. A sua tabela é mais difícil que a de Arsène Wenger, mas a alegria da torcida na vitória por 3 a 0 sobre os Gunners no último domingo faz valer a pena esperar mais um pouco para voltar à elite da Europa, se for necessário. E talvez nem seja.