O Grêmio é um time com certa tradição de grandes goleiros. No entanto, pode-se dizer que apenas dois guarda-metas eram indiscutíveis na lista de ídolos eternos da história do clube da Azenha – Lara, tão antológico que até entrou na letra do hino de Lupicínio Rodrigues, e Danrlei, presença certa no coração de quem torceu pelo Tricolor nos últimos 30 anos (mesmo com o fim abrupto de sua passagem). Nem mesmo Mazarópi, a tranquilidade em pessoa que começava a escalação campeoníssima dos anos 1980, tem seu nome indiscutível em galeria tão seleta. Com o título da Libertadores, contudo, é possível dizer: Marcelo Grohe conseguiu. Com paciência, pediu licença a Lara e Danrlei para também virar um herói gremista, para sempre.

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E demorou demais para que isso acontecesse. Precisamente doze anos – afinal, foi em 2005 que Marcelo subiu para o grupo principal de jogadores do Grêmio. E junto com o cidadão de Campo Bom, vinha outro goleiro a quem a torcida será eternamente grata: Galatto, que subira em 2004, mas já estava definitivamente entronizado por um certo pênalti, em 26 de novembro de 2005. Ambos ganharam espaço durante a campanha na Série B, com a saída do titular Eduardo, mais experiente. E vindos da base, com o clube mais estabelecido após a passagem pela Série B, prometiam fazer uma disputa notável para ver qual seria a promessa que viraria realidade no gol – disputa que ficou ainda mais forte em 2006, quando subiu outro arqueiro altamente promissor: Cássio.

Mas o tempo passou. Nenhum dos três conseguiu obter êxito ou a plena confiança da torcida em 2006. E começou a roda-viva. Em 2007, chegou Sebastián Saja, que ofereceu mais segurança e mais experiência, virando titular na campanha do vice-campeonato na Copa Libertadores da América. A partir dali, cada um daqueles três goleiros cuidou da própria carreira. Valorizado pelas passagens por Seleção Brasileira (fosse na Sub-20, pela qual disputou o Mundial daquele ano, fosse na convocação única para a principal, feita por Dunga), Cássio preferiu aceitar a oferta do PSV. E Galatto, mesmo deixando a mais honrosa das lembranças (sempre será aplaudido pela torcida, no Olímpico ou na Arena do Grêmio), também precisou achar outro espaço para jogar – no caso, o Atlético Paranaense. Só Grohe avaliou que ainda tinha espaço para ele. Seguiu no clube – e até ganhou uma sequência de resultados no final do Campeonato Brasileiro de 2007, por causa de uma séria lesão de Saja no cotovelo.

O argentino deixou o clube em 2008. Era hora de Marcelo? Não para a direção, que trouxe gente de fora: Victor chegava do Paulista, para dar fim à inconstância na posição. E conseguiu: o goleiro paulista foi titular absoluto do Grêmio por três anos, participando de ótimas campanhas – por exemplo, indo à semifinal da Libertadores, em 2009. E Grohe lá, no banco, à espera da chance que um dia viria. Pelo menos por enquanto, veio em 2012. Mesmo respeitado e até querido pela torcida, Victor preferiu deixar a história elogiável que fizera na Azenha – para fazer outra história, maior e definitiva, no Atlético Mineiro. E enfim, Marcelo Grohe teve uma sequência digna para poder mostrar o que podia fazer. Não fez nada de ruim em 2012, mas também não provou definitivamente que era o nome.

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E o tempo não perdoou: em 2013, Dida trazia suas inquestionáveis experiência e calma. Satisfez, e mesmo aos 40 anos completos naquele ano, foi titular. Aumentou a pressão sobre Grohe: não só não conseguia decolar definitivamente, já chegando aos 30 anos, mas também impedia a ascensão de outros goleiros que vinham da base gremista, sempre frutífera – goleiros como Gustavo Busatto, promovido desde 2010, terceira opção da posição. Mas Dida também ficou pouco tempo no tricolor gaúcho. E até por falta de opção, Grohe ganhou nova chance para ser titular em 2014. A princípio, ninguém sabia, mas era a oportunidade definitiva. Após tanto tempo vendo tantos outros goleiros ganharem destaque, era a vez dele.

O reserva Tiago até ameaçou em poucos momentos, mas aos poucos aquele fruto já maduro da base começava a provar que merecia a confiança anteriormente. Premiado em vários lugares como o melhor goleiro do Campeonato Brasileiro de 2014, ele começava a afastar o persistente fantasma da irregularidade, que sempre o tirava do time. Sem contar convocações intermitentes para a Seleção Brasileira – começaram com o Superclássico das Américas, ainda em 2014, e seguiram sob Dunga, com a Copa América de 2015 e a Copa América Centenário de 2016.

A relação com a torcida era a de um namoro longo: regular, com algumas escaramuças aqui e ali, mas sustentada por uma profunda confiança. E 2015 foi o “anúncio do noivado” nesse namoro: outra sequência de grandes performances no Campeonato Brasileiro, e o importante marco de 300 partidas vestindo a camisa 1 (quase sempre, toda em azul, num tom mais escuro que o tricolor). As dúvidas sobre a capacidade daquele persistente fruto da base gremista já tinham acabado. Era hora de colher os frutos.

Começaram a vir em 2016: Grohe já era figura certa e estável na defesa do clube. E foi importante na campanha que, enfim, continuou o vitorioso arco da história gremista: a Copa do Brasil. Em tal campanha, já fez grandes defesas – por exemplo, num chute à queima-roupa de Júnior Urso, no jogo de ida da final. Mas, pensando bem, tais “grandes defesas” ficaram até pequenas, diante do que se viu nesta Libertadores – e se você já leu mil vezes sobre a ionosférica (“ionosférica” porque acima de “estratosférica”) defesa no jogo de ida das semifinais, contra o Barcelona, lerá mil e uma, porque é impossível não citá-la.

Assim como o título sul-americano, enfim, tornou impossível não premiar Grohe. Após tanto tempo de dedicação a uma camisa (335 jogos oficiais, em 12 anos no grupo principal), vindo desde a base, ele conseguiu mais do que o título sul-americano. Conseguiu o que outros guarda-valas oriundos da base gremista – Murilo, Fernando Prass, Eduardo Martini, Galatto, Cássio – não conseguiram, ou só conseguiram em outros lugares: serem ídolos, ídolos eternos. Enfim: Grohe conseguiu o prêmio maior, para um goleiro criado e crescido no Grêmio. Chegar à mesa onde estavam Lara e Danrlei, e pedir um espaço a mais, porque também tem lugar nela.