Não se esperava muito dos quatro representantes da confederação asiática no Mundial 2014. Havia poucas esperanças de classificação às oitavas de final para Austrália, Japão, Irã e Coreia do Sul. E, após a primeira fase, o que se viu é que a situação é ainda pior.

Sem nenhuma vitória asiática na Copa do Mundo 2014 – Irã e Austrália foram além dos prognósticos, mas ainda assim estiveram muito mal –, os quatro representantes da confederação saíram bastante cabisbaixos do torneio. Entretanto, outra seleção da Ásia vive momento totalmente oposto e começa a colher os frutos do desenvolvimento. Justamente em uma época em que seu povo volta a viver momentos delicados devido a um conflito que dura décadas, e tem novo momento de tensão.

Futebol ganha espaço

A estreia oficial da atual seleção da Palestina ocorreu em 26 de julho de 1953, com derrota de 8 a 1 para o Egito. Entretanto, os palestinos já participaram de uma seleção nos anos 1930, que era comandada por britânicos que ocuparam o território durante a 1ª Guerra Mundial – eram seis jogadores judeus e apenas um árabe.

Este time jogou as duas primeiras eliminatórias para a Copa do Mundo (1934 e 1938), sendo derrotado por egípcios (11 a 2) e gregos (4 a 1). Diante dos constantes conflitos entre israelenses e palestinos, que culminou na criação do Estado de Israel em 1948, a liga nacional foi abandonada e o nome da federação mudou para Associação de Futebol de Israel.

A Palestina, portanto, ficou fora da tutela da Fifa durante cinco décadas, disputando apenas torneios regionais sem o reconhecimento da entidade. Até que, em 1998, organizou-se a federação local, que acabou sendo aceita na Fifa. Dois anos depois, a Palestina estreou no qualificatório para a Copa da Ásia 2002 – após quatro jogos, teve apenas uma vitória, diante do Paquistão.

A primeira vez que os palestinos disputaram vaga na Copa do Mundo foi na edição asiática, em 2002. Evidentemente, o futebol local era totalmente amador e a seleção foi até bem para seu tamanho na época: sete pontos em seis jogos, atrás do Catar (16), mas melhor que Malásia (sete) e Hong Kong (quatro).

A cada ciclo, a Palestina mostrava evolução, como nos sete pontos somados nas eliminatórias para a Alemanha 2006, atrás de Uzbequistão (16) e Iraque (11), mas acima de Taiwan (zero). Mas um problema impedia que a seleção crescesse mais…

Por razões de segurança, a Fifa impedia que a Palestina sediasse partidas em Gaza, sem contar os problemas envolvendo passaportes dos jogadores. Nas eliminatórias para a África do Sul 2010, os palestinos não puderam deixar Gaza rumo à Cingapura, local do jogo contra a seleção da casa, perdendo por WO. Tudo porque Israel não emitiu os vistos de trabalho, alegando que só poderia fazê-lo em missões humanitárias – na ida, atuaram no Catar.

Somente em 26 de outubro de 2008, a seleção da Palestina pôde jogar diante de sua torcida, num amistoso contra a Jordânia (1 a 1) – primeira vez desde que se filiou novamente à Fifa. A entidade reformou o estádio Faisal Al Husseini, na Faixa de Gaza, que também foi palco do jogo entre palestinos e afegãos, pelas eliminatórias 2014. Com 9  mil torcedores in loco, a Palestina selou a classificação para a fase seguinte da competição, superando o Afeganistão por 3 a 1 no placar agregado – na segunda fase, eliminação diante da Tailândia por apenas 3 a 2, com 11.500 torcedores no estádio. Superar os afegãos já foi histórico para os palestinos, mas o futebol do país viveu em maio último a maior festa de sua história…

Entre os grandes

Ainda em março de 2013, a Palestina participou do qualificatório para a AFC Challenge Cup 2014, torneio que reúne as seleções asiáticas do terceiro escalão. No Grupo D, a equipe não teve muitos problemas para superar Bangladesh, Nepal e Ilhas Marianas do Norte (esta última não filiada à Fifa), somando sete pontos em três rodadas.

A fase final do torneio foi disputada em maio de 2014 e a Palestina surpreendeu… No Grupo A, que tinha a anfitriã Ilhas Maldivas, Quirguistão e Mianmar, os palestinos ficaram com a primeira posição, só não vencendo os donos da casa. Nas semifinais, houve a chance de revanche do Afeganistão, mas a Palestina venceu por 2 a 0 e foi à decisão do título.

Contra Filipinas, o atacante Ashraf Nu’man, 27 anos, que joga na liga local, marcou o gol do título histórico – ele ainda foi o artilheiro do torneio, enquanto o meia palestino Murad Ismail Said, do Al Wehdat (Jordânia), eleito o atleta mais valioso.

Este é o primeiro troféu oficial da Palestina, mas isso nem é o mais importante. O título da AFC Challenge Cup permitirá aos 4,5 milhões de palestinos acompanhar sua seleção na Copa da Ásia 2015. Em 12 de janeiro, a Faixa de Gaza estará em festa e torcendo para a Palestina aprontar diante do Japão – ainda enfrenta Jordânia e Iraque.

A princípio, é de se esperar que a Palestina seja eliminada na primeira fase. Os próprios palestinos têm ciência de que não se pode esperar muito da seleção. Mas é evidente que o momento da Palestina é histórico e que o futuro reserva esperança a um povo que vem conseguindo deixar de lado as dificuldades diárias e jogar futebol… E com qualidade!

Curtas

- A campanha da Palestina na AFC Challenge Cup 2014 (4v, 1e, 0d) rendeu recorde à seleção nacional no Ranking Fifa de junho. Os palestinos subiram incríveis 71 posições, saindo do 165º para o 94º lugar. Atualmente, a Palestina é a décima melhor seleção da Ásia, logo atrás da outrora poderosa Arábia Saudita.

- A seleção convocada para o torneio regional tem maioria de jogadores nascidos na Palestina. Porém, há um israelense, um kuwaitiano, um egípcio e um sueco, o meia Imad Zatara, que joga no Atvidabergs, da elite local. Ainda há jogadores no futebol do Canadá, no Iraque, no Egito e na Jordânia (um cada).

- A temporada 2013/14 do Campeonato Palestino teve 12 times, que jogaram em ida e volta. O título ficou com o Taraji Wadi Al-Nes. O torneio é disputado sem interrupções desde 2006 e ainda há outras duas divisões nacionais.

- A Palestina teve um time na AFC Cup 2014, espécie de segunda divisão dos torneios asiáticos. O Shabab Al Dhahiriya encarou o Alay Osh (Quirguistão) na fase preliminar, perdendo a vaga na fase de grupos nos pênaltis (8 a 7), após empate de 1 a 1.