Gato escaldado tem medo de água fria. Neste caso, porco escaldado. Ano passado, o Palmeiras precisava substituir Cuca e queria Roger Machado. No meio da transição de presidentes, de Paulo Nobre para Mauricio Gagliotte, com a renovação de Alexandre Mattos incerta, o ex-treinador do Grêmio escapou para o Atlético Mineiro. Agora, com ele novamente no mercado, e diante da hesitação de Abel Braga, a diretoria alviverde não perdeu tempo. Fechou contrato de um ano com Roger.

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O medo era mais uma vez ter que se contentar com uma escolha de pouca convicção, como foi Eduardo Baptista. Não que convicção seja item abundante em diretores de futebol do Brasil. Basta observar a diferença de perfis dos procurados. O primeiro nome era Mano Menezes, que ficou no Cruzeiro. O segundo era Abel Braga, mas as primeiras conversas não foram animadoras.

Roger é uma aposta, como seriam quase todos os nomes possíveis. Em termos de tamanho, há profundas diferenças entre Roger, Jair Ventura, Alberto Valentim ou mesmo Eduardo Baptista? Até Abel Braga, mais gestor de elenco que mestre tático, não seria certeza de sucesso, depois de um trabalho apenas razoável no Fluminense e lidando com problemas pessoais difíceis. Diante disso, a escolha acaba sendo mais pessoal do que qualquer outra coisa e Roger tem, de fato, potencial para se tornar um grande técnico.

Mas ele terá a missão de provar que o trabalho no Grêmio não foi uma exceção, depois de ter a sua imagem riscada pela passagem pelo Atlético Mineiro, além de administrar um elenco vasto, em que a reserva e a insatisfação são consequências naturais do empilhamento de jogadores do diretor de futebol, com algumas figurinhas complicadas, como Felipe Melo e Michel Bastos – e talvez Lucas Lima-, no meio de um ambiente político sempre efervescente, pressão avassaladora por resultados e em ano de eleição presidencial.

Por mais que seja um pensamento arcaico, era justificável que a diretoria palmeirense tenha tentado buscar um treinador mais experiente para lidar com um cenário que tem todo o potencial de se tornar apocalíptico. Na ausência de alguém com este perfil, este sim, item raro, contratou Roger Machado, desejo antigo pelas ideias e pelo belo futebol que conseguiu desenvolver no Grêmio. Recai sobre a diretoria de futebol a responsabilidade de ser o escudo para o elenco e para a comissão técnica. Alexandre Mattos tem tamanho para isso, se conseguir direcionar a sua atenção da agenda de telefones de empresários para outras funções que precisa exercer.

Roger tem os predicados para fazer sucesso. Suas entrevistas carregam sempre muito conteúdo e são claras, o que indica que ele tem uma cabeça que pensa direitinho e que consegue se expressar relativamente bem. O estilo de futebol combina com um elenco que terá a responsabilidade de propor o jogo na maioria das partidas, com muito toque de bola e sem precipitar as jogadas ofensivas, um dos defeitos mais evidentes do Palmeiras nesta temporada – e na anterior. Se quiser marcar alto, pode beber do que Valentim já começou a implementar nesta reta final.

Os jogadores à disposição parecem combinar mais com as suas ideias do que no Atlético. Há meias de passe apurado, volantes que saem para o jogo e, no geral, um grupo mais jovem para fazer a recomposição defensiva com rapidez. Em Belo Horizonte, Roger não entregou o que prometia, mas não foi um desastre completo. Teve boas partidas, ganhou o Campeonato Mineiro, venceu clássicos contra o Cruzeiro e foi muito bem na fase de grupos da Libertadores. Tinha um elenco desequilibrado e envelhecido que, como o tempo serviu para mostrar, não deslanchou com nenhum treinador que apareceu depois dele.

Mas, sem dúvida, seu trabalho no Galo coloca mais dúvidas em relação ao seu potencial do que havia quando ele deixou o Grêmio. O Palmeiras, pelo menos, contratou um profissional dedicado, estudioso e inteligente, que precisará se provar, como, convenhamos, com exceção de um ou dois nomes – Tite e mais qual? – todos os treinadores do Brasil precisam semana a semana.