O fracasso dos Estados Unidos nas Eliminatórias para a Copa 2018 deixaram muitas perguntas sem respostas. Como uma seleção como a americana conseguiu ficar atrás não apenas do México, mas também da Costa Rica, Panamá e Honduras? As críticas foram intensas, inclusive ao técnico, Bruce Arena, que assumiu o comando depois da demissão de Jürgen Klinsmann depois de duas derrotas nos dois primeiros jogos da fase final. Ele também foi contratado para escrever um livro sobre a trajetória até a Rússia. Só que o fracasso mudou o livro, que agora pretende expor os problemas que levam o futebol dos Estados Unidos ao momento atual.

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“O livro era para ser que nós nos classificamos para a Copa do Mundo e nos preparando para a Copa do Mundo”, afirmou Arena. Só que a derrota no último jogo por 2 a 1 para Trinidad e Tobago deixou os americanos fora do Mundial. Foi a primeira vez em 32 anos que os Estados Unidos ficaram fora do torneio. Arena também se demitiu três dias depois do fracasso. “Não há absolutamente nenhuma desculpa”, afirmou Arena na época e continua dizendo.

O livro sobre a classificação para a Copa foi pelo ralo, mas pode ter se tornado algo ainda mais importante. O caminho triunfante para a Rússia nunca aconteceu, mas os percalços vividos podem dar um diagnóstico sobre a situação do futebol nos Estados Unidos e, assim, dar um novo rumo. Ou ao menos servir para olhar com atenção para isso.

O agora ex-técnico da seleção afirmou que sem mudanças substanciais, esta pode não ser a última vez que os americanos ficam fora de uma Copa. “Eles simplesmente não entendem, as pessoas que dirigem o esporte no nosso país. E a US Soccer tem a obrigação de entender”, afirmou Arena, em entrevista ao Los Angeles Times. “É preciso ter mudança na liderança”.

O nome do livro é enorme: “O que há de errado conosco: o embate de um treinador leva em conta o estado do futebol americano depois de uma vida na linha lateral”, escrito com o jornalista Steve Kettmann. O lançamento está previsto para o dia 12 de junho, não por acaso dois dias antes da abertura da Copa do Mundo, no dia 14 de junho, na primeira Copa do Mundo sem os Estados Unidos desde 1986.

Arena identifica alguns problemas do futebol no país que seriam possivelmente varridos para debaixo do tapete pela classificação à Rússia. Por isso, o técnico tem algumas respostas. Um dos problemas, segundo ele, é que os mais altos dirigentes do futebol nos Estados Unidos são como uma ilha, com as mesmas pessoas falando umas com as outras ao invés de procurar por ideias novas e perspectivas de fora.

Além do isolamento dos principais dirigentes de futebol do país, Arena diz que há um vácuo de liderança, especialmente no que diz respeito ao lado técnico. As duas principais organizações de futebol do país, US Soccer e a MLS, são dirigidas por pessoas que Arena afirma terem pouco conhecimento técnico do esporte. Ainda que os dois grupos tenham conseguido melhorar muito a situação financeira das duas entidades, tornando-as comercialmente um sucesso, há uma falta de visão, segundo o técnico.

A US Soccer teve um faturamento de US$ 152 milhões em 2017, um número altíssimo. A CBF, por exemplo, teve faturamento de R$ 544,472 milhões, aproximadamente os mesmos US$ 152 milhões, na cotação atual (US$ 1 = R$ 3,57). Isso já demonstra o tamanho do sucesso comercial da entidade, que consegue um faturamento similar à da confederação do Brasil, maior campeão do mundo.

“Não é como se você tivesse que limpar tudo e fazer mudanças radicais. Você só precisa da liderança certa com as ideias certas e seguir em frente”, afirmou Arena. O problema é que não parece haver um grande caminho para mudanças. Em fevereiro, a eleição na US Soccer para substituir o atual presidente da entidade, Sunil Gulati, escolheu Carlos Cordeiro, ex-vice do antecessor. Assim como seus pares, sua experiência com futebol se limita a ter jogado durante o Ensino Médio, já que a sua carreira foi feita em Wall Street. Isso se reflete nos líderes da MLS também. O comissionário Don Garber, o vice-comissionário Mark Abbott e o vice-presidente sênior Todd Durbin têm histórico no marketing e em direito, não em futebol.

A falta de uma liderança, porém, não pode ser vista como uma falta de talento. Segundo o Los Angeles Times, mais crianças estão envolvidas com futebol do país do que jamais antes. De acordo com uma estimativa, são 17 milhões de pessoas acima de seis anos de idade que praticam futebol nos Estados Unidos. É o dobro do número de praticantes de Alemanha e Inglaterra somados. O problema passa a ser depois. Na profissionalização desses talentos, falta oportunidade.

A MLS, criada em 1996, tem mais da metade dos jogadores com origem fora do país. Menos de 46% dos jogadores inscritos nos elencos dos times da MLS nasceram nos Estados Unidos. Já foi pior, é verdade: em 1996, ano inaugural da liga, eram só 16% de americanos nativos entre os jogadores. De lá para cá, mais que dobrou o número de times, mas os americanos seguem tendo dificuldade em aparecerem. Só um terço dos titulares dos times que foram aos playoffs na temporada 2017 eram elegíveis pelos Estados Unidos.

Para Arena, a MLS precisa encontrar uma forma de dar mais minutos para os jogadores nascidos no país. Um dos exemplos citados foi o México, o vizinho que também sentiu que sua liga local estava priorizando estrangeiros. A solução por lá foi aprovar uma medida que obriga a ter um mínimo de jogadores do país, além de obrigar que jogadores jovens mexicanos tenham minutos em campo nos times. Há regras similares nos campeonatos mais importantes do mundo, como a Inglaterra – que dos 25 inscritos pelos times da Premier League, ao menos oito devem ser formados no futebol inglês.

Os problemas que o futebol dos Estados Unidos vive são grandes, mas Bruce Arena acredita que o país ainda tem um potencial grande no esporte. Só que o potencial será perdido, segundo o técnico, se as mudanças não forem feitas. “Se nós não fizermos mudanças, não iremos a lugar nenhum”, disse Arena.

O trabalho de Bruce Arena na seleção americana acabou não sendo bom nesta última passagem, sem conseguir vaga na Copa, mas o técnico conta com grande prestígio local. Era ele o técnico do time na melhor campanha dos Estados Unidos na história das Copas, as quartas de final de 2002.

No livro, Arena ainda revela outro ponto curioso: a US Soccer planejou demitir o antigo treinador, Jürgen Klinsmann, e contratar Arena já em abril de 2016, antes do início da fase final das Eliminatórias da Copa. O contrato estava pronto e quando estava prestes a ser formalizado, Dan Flynn, executivo-chefe da US Soccer, foi levado ao hospital com urgência para um transplante de coração. A negociação acabou não acontecendo. “Estava tudo acertado até que Dan saiu”, afirmou Arena. O treinador terminou a temporada pelo Los Angeles Galaxy e Klinsmann continuou no cargo.

O início da campanha nas Eliminatórias da Copa foi muito ruim, com duas derrotas. Klinsmann, então, foi demitido e o contato com Arena retomado para, desta vez, acertar a sua volta à seleção nacional. Foram oito jogos restantes da campanha para classificar o time e havia o temor de não chegar à Copa. “Com toda honestidade, eu acho que se eu tivesse chegado em abril, seria muito mais fácil para nós classificarmos para a Copa do Mundo”, disse Arena.

Sem a Copa, Arena então transformou o seu livro em uma revelação de problemas. Resta saber se os dirigentes irão ouvir o que está sendo falado.