Fábio Carille fez um ótimo trabalho, aproveitando o conhecimento que tinha de boa parte do grupo – com o qual já vinha trabalhando desde a época de auxiliar -, montou um time com um estilo de jogo definido e soube extrair o máximo possível de um elenco limitado. Esse comentário tem sido muito comum para resumir a participação do técnico no título brasileiro conquistado pelo Corinthians, mas o que significa isso?

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A primeira coisa que o treinador fez foi recuperar a filosofia de jogo que segue, de uma forma ou outra, pautando o Corinthians desde que Mano Menezes assumiu o clube em 2008. Salvo nas passagens de Adílson Batista (2010), Cristóvão Borges (2016) e Oswaldo de Oliveira (também 2016), o clube preserva alguns elementos no seu jogo, como defesa forte e triangulações para trocas de passes. Para ter uma noção mais clara do que isso significa, vejam esse vídeo espetacular de Renato Rodrigues na ESPN.

Recuperar essa filosofia era o movimento óbvio de um técnico que já participava de todo esse projeto e precisava reconstruir um time que ficou sem personalidade na reta final da temporada anterior. A torcida, a diretoria, a imprensa e, principalmente, o elenco entendem esse futebol. Mas isso não se faz da noite para o dia, é algo que foi se construindo ao longo do ano, e que teve seus momentos altos e baixos, de acertos e erros, evolução e involução.

O início sonolento

Os jogos do Corinthians do início da temporada, contando até a Florida Cup e o amistoso contra a Ferroviária na Arena, eram um monumento ao nada. A equipe marcava bem, mas tinha enorme dificuldade de produzir. Até por seguir a ideia de não desperdiçar ataques com finalizações sabidamente infrutíferas, o meio-campo procurava trabalhar a bola, ao ponto de muitas vezes perder completamente a objetividade. Os gols saíam quase por milagre e o diagnóstico mais geral era fácil: um time que só sabe se defender, é pragmático e não tem talento.

Mas era preciso entender o momento da temporada. O time não conseguia trocar passes e criar jogadas ofensivas, isso era nítido, mas o importante ali era observar quais as estratégias usadas. A movimentação dos jogadores buscava criar as triangulações, elas não aconteciam por falta de sintonia (o treino, mecanização dos movimentos, entrosamento) ou precisão (falha de execução). Não era a busca do chuveirinho ou de um momento de individualidade (como um chutão de fora da área ou uma série de dribles de um atacante inspirado) como recurso simples para a falta de algo mais elaborado.

Um jogo que serve de exemplo do que se buscava foi contra o Vasco na Florida Cup. Até pelo fato de não haver a intensidade de um jogo oficial, mesmo um time ainda em formação conseguia executar as jogadas de triangulação e penetração tocando bola pelo meio que vinha treinando.


Nesses lances, sobretudo os do primeiro tempo estava a planta do que poderia virar o time, mas, claro, bastou a defesa adversária se fechar mais que o cenário mudou. E aí se vê como o Corinthians caminhou em cima de um gelo muito fino, podendo se afogar em qualquer movimento em falso.

Com um elenco sem confiança e um técnico sem respaldo, a paciência era claramente menor. E jogar um futebol tão pouco atrativo e produtivo por alguns meses dava margem para torcedores, dirigentes e imprensa acharem que tudo estava mal. Estar sempre na margem do 1 a 0 torna qualquer deslize em um empate indesculpável ou em uma derrota vergonhosa. Foi o que ocorreu na queda em casa para o Santo André no Paulista, quando a defesa sofreu um gol e a equipe não soube como lidar com a desvantagem (e ainda tomou o segundo em um contra-ataque). Duas semanas e meia depois, o ataque é que sumiu e o Corinthians não saiu do 0 a 0 com o Brusque. Se caísse na disputa de pênaltis (ficou muito perto disso), talvez Carille tivesse caído ou ficado em uma situação tão delicada que sua queda seria inevitável no tropeço seguinte.

O jogo do ano

Aliás, o técnico poderia ter caído contra o Brusque mesmo com a classificação, de tão ruim que foi a atuação alvinegra. A diferença é que, uma semana antes, ocorrera o jogo que mudou a forma de se ver o Corinthians de 2017: a vitória sobre o Palmeiras.

Uma pessoa de dentro do clube me disse dias após o jogo que todos sabiam que o clássico seria um divisor de águas. “Era impossível o Corinthians perder aquele jogo. O time não vinha bem, mas os jogadores só falavam do clássico havia duas semanas. Era o jogo do ano.”

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A vitória em si veio por um contra-ataque inesperado no final, com Maycon se antecipando a Guerra e Jô concluindo. Mas a não-derrota veio por esse ambiente pré-jogo. O Corinthians foi melhor que o Palmeiras no primeiro tempo sobretudo pela intensidade que teve em campo. Após a expulsão equivocada de Gabriel, o time se retraiu, mas manteve a determinação de não ceder espaço algum.

O 1 a 0 mudou o rumo. Não apenas por dar a Carille crédito para sobreviver a tropeços como o de Brusque, mas por marcar uma adesão da torcida a esse grupo. O corintiano estava desconfiado do elenco, e seguiu por muito tempo, mas não duvidava mais que aquele grupo estaria disposto a se matar em campo.

A queda programada e a retomada

Os resultados eram bons ou satisfatórios, mas o futebol mesmo só começou a aparecer em março, com vitórias convincentes sobre o Santos em Itaquera e o Luverdense em Cuiabá. Nessas partidas, o Corinthians conseguiu tocar a bola, acuar a defesa adversária, triangular, criar espaço pelas pontas e pelo meio. Ainda era um embrião de time, mas os resultados enfim apareciam.

No entanto, o elenco vinha em ritmo acelerado, quase sempre com os principais jogadores. Carille aproveitou para dar descanso a alguns titulares e explorar um pouco o elenco. Foram cinco jogos sem vitória: quatro empates por 1 a 1 (incluindo clássico contra o São Paulo e dois tropeços em casa, contra Red Bull Brasil e Luverdense) e uma derrota por 1 a 0 para a Ferroviária em Araraquara.

Torcedores e boa parte da imprensa reclamavam da falta de futebol, da crise técnica, mas Carille tentava mostrar tranquilidade ao dizer que estava aproveitando para fazer testes. Isso tinha dois lados. Era bom como forma de absolver o time de alguns dos tropeços, mas era ruim por expor o quanto o elenco sofria se alguns titulares ficassem de fora.

De qualquer modo, essa folga — e esse teste com alguns dos reservas — ajudou a dar um gás para o time encerrar bem o Paulista e iniciar bem o Brasileiro. Caiu contra o Internacional na Copa do Brasil, mas a eliminação já foi mais bem digerida porque o momento do time era outro. A evolução era quase linear, com um futebol que começou a se tornar mais fluido na frente e sólido atrás.

Por mais que o Corinthians tenha carregado a fama de time defensivo que vive de contra-ataque (algo real em situações pontuais, como no 1 a 0 sobre o Palmeiras no Paulista, os 2 a 0 sobre o São Paulo na semifinal do estadual e no 1 a 0 sobre o Grêmio no Brasileiro), em várias partidas a equipe venceu porque dominou as ações, como nos 3 a 0 sobre a Ponte Preta na final do Paulista e nos 2 a 0 sobre o Santos no Brasileiro. Os 3 a 1 sobre o Sport na última rodada do primeiro turno foram o ápice alvinegro: o jogo de domínio completo, em que fez mais gols que faltas.

A queda e o grande erro

Era natural que o time perdesse o embalo e entrasse em má fase. Por isso, os tropeços de início de segundo turno foram tratados como algo natural. Talvez essa banalização da queda tenha atrapalhado no trabalho de recuperação.

Mesmo nos momentos ruins, o Corinthians continuava com a mesma característica de jogo da boa fase. O ataque variava jogadas pelo meio e pelas pontas, buscando espaço por meio de inversões e infiltrações. Mas a questão é que tudo isso passou a ser mal executado. A velocidade caiu, enquanto que a quantidade de erros de passe cresceu muito e a criação morria. Isso criou dois fenômenos: a queda brutal nas finalizações e a posse de bola cada vez mais improdutiva. A equipe ficou previsível.

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Vários fatores podem explicar essa queda. Provavelmente todos tenham algum peso. Jadson e Guilherme Arana se contundiram e não voltaram no mesmo ritmo de antes. Sobrecarregado no meio, Rodriguinho também caiu de rendimento. Maycon não aparecia mais na frente com perigo. A isso se soma uma possível queda de concentração, dificuldade em manter a mesma intensidade física e até a novidade de ter de lidar com a pressão crescente pelos resultados ruins que se acumulavam.

A situação só não foi mais grave por causa da defesa. A zaga se tornou muito vulnerável no jogo aéreo no segundo turno. Ainda assim, o balanço final não é dos piores: quarta menos vazada do returno, com apenas três gols a mais (15 a 12) que a líder no quesito (Grêmio) após a 35ª rodada. O sistema defensivo (contando Cássio) foi fundamental em jogos contra Cruzeiro, São Paulo e Coritiba, partidas em que o Corinthians somou 5 pontos.

Esse foi o momento mais crítico do trabalho de Carille. Era evidente que o Corinthians precisava mudar, mas ele resistia a isso. Clayson vinha pedindo espaço, a defesa precisava de mais proteção devido aos contra-ataques que tomava após erros de passe. As opções ofensivas murchavam a ponto de só sobrar Jô. Talvez pela folga na tabela, era mais conservador esperar uma recuperação natural do que arriscar algo novo e afundar de vez. Talvez tenha sido a lembrança dos maus resultados de quando rodou o elenco no Paulista.

Bem, é fácil ficar de fora dizendo que o técnico deve ou não ser mais ousado, mas era nítido que Carille precisava trabalhar opções. A derrota para a Ponte Preta foi o estopim. A atuação no geral nem foi horrível, tanto que Aranha foi o melhor jogador em campo. Mas claramente o time estava descaracterizado. Muitas das finalizações surgiram após cruzamentos desesperados na área, algo que o Corinthians evitava fazer. A defesa também deu muito espaço no primeiro tempo, tomando um sufoco até sair o gol.

O crescimento no momento crítico

Como havia sido no começo do ano, receber o Palmeiras na Arena foi o momento de recuperação de Carille e de sua credibilidade com a torcida. Ele fez as mudanças, com Clayson e Camacho entrando no time titular. Além disso, desenhou uma estratégia específica para explorar as fraquezas do adversário e viu o elenco se inflar para ter a intensidade correta.

O Corinthians voltou a jogar bem, venceu e, ainda que tenha apresentado problemas de criação contra Atlético Paranaense, Avaí e no primeiro tempo contra o Fluminense, já recuperara a confiança para decidir quando a oportunidade aparecesse. O título, no final das contas, veio com mais naturalidade do que se imaginava após a derrota para a Ponte Preta. Tudo porque o time manteve um conceito, sem variações gritantes na estrutura (o que mudou era mais a capacidade de executar a proposta).

Por isso, entender o Corinthians do Brasileirão, do primeiro turno histórico à crise do segundo turno, passa muito por relembrar os altos e baixos do período de consolidação do trabalho nos primeiros meses do ano. Muitas das respostas estavam lá.