A preocupação da torcida começou no hino. A tensão era palpável. Messi colocou a mão no rosto e abaixou a cabeça, coçando a testa. Jorge Sampaoli estava tenso. Como se ambos antecipassem o desastre que estava prestes a acontecer. A seleção argentina não fez um bom primeiro tempo, mas enfrentou a Croácia de igual para igual. Depois do primeiro gol europeu, marcado por Ante Rebic, em falha grotesca de Caballero, a equipe simplesmente desmoronou. Foi vazada mais duas vezes, o que pode fazer diferença em uma vaga com toda probabilidade de ser decidida no saldo de gols. Erros técnicos e táticos ajudam a explicar a derrota por 3 a 0, nesta quinta-feira. Mas um aspecto muito importante foi o psicológico.

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Nada está certo na Argentina. Não é uma hipérbole. Começa lá em cima, com a federação. Sem dinheiro, armou um amistoso caça-níquel com Israel que precisou ser cancelado quando os jogadores, após protestos pró-Palestina (e não apenas por isso), se recusaram a fazer escala no Oriente Médio antes de ir para a Rússia. Para devolver os U$ 2 milhões que havia recebido do governo israelense, vendeu acesso aos bastidores da Copa do Mundo para uma emissora de televisão. No final das contas, houve apenas um amistoso de preparação, contra o fraco Haiti. O time de Sampaoli viajou sem ser devidamente testado.

O que explica, mas não desculpa, as incertezas do treinador. Começou a Copa do Mundo com uma formação com linha de quatro, dois volantes e três meias, como vinha trabalhando. Sofreu para furar a retranca da Islândia, como a maioria dos times do Mundial sofreram nessas primeiras partidas contra várias equipes. Mas pelo menos pressionou, teve oportunidades, chegou a perder um pênalti. Para a segunda rodada contra a Croácia, tudo mudou. Sampaoli, com bom bielsista, retornou ao seus dogmas: três zagueiros, alas bem abertos, dois volantes e um trio de ataque na frente, com Messi, Agüero e Meza. Não funcionou.

Alguns jogadores chegaram ao torneio russo longe da sua melhor forma. Mascherano já não vinha bem no Barcelona e está há seis meses na China. Lucas Biglia não se recuperou totalmente da lesão nas costas que sofreu em abril. Banega sentiu dores durante a preparação. Manuel Lanzini foi cortado, e Sampaoli decidiu convocar Enzo Pérez, titular contra a Croácia. Sergio Romero também teve problemas físicos e acabou excluído da convocação. Caballero foi discutivelmente promovido a titular, em detrimento de Franco Armani, em fase muito melhor.

Com todos esses problemas, os jogadores entraram em campo sem uma rede de segurança. A pressão está toda em suas costas para evitar a tragédia que seria uma eliminação precoce na Copa do Mundo, estendendo a fila de títulos que dura desde 1993. Isso ficou visível na partida de Nizhny, na quantidade de passes errados e de decisões equivocadas, de jogadas aceleradas e sem propósito. Principalmente depois de a Croácia abrir o placar. No primeiro tempo, a Argentina ainda criou duas oportunidades claras de gol. No segundo, nem isso, com exceção de uma bola presa, após jogada de Meza.

O tento de Rebic desorganizou completamente a equipe argentina, que já havia entrado em campo toda bagunçada. Ficou fácil demais para a Croácia atacar. Modric recebeu a bola completamente livre, na entrada da área adversária. Onde estavam Mascherano e Enzo Pérez? Nem Modric sabia. O craque até olhou para trás antes de dominar e, como não viu ninguém, teve toda a tranquilidade para decidir o que fazer. Otamendi quebrou a linha defensiva para tentar pressioná-lo, mas Modric mostrou sua qualidade, gingando de um lado para o outro antes de achar o canto de Caballero.

O gol de Rakitic nos acréscimos foi ainda pior. O jogador do Barcelona puxou o contra-ataque sem nenhuma preocupação. Bateu de fora da área, para defesa de Caballero. Ninguém parece ter notado que Kovacic acompanhava o lance pela esquerda. E, enquanto o meia do Real Madrid dominava o rebote e tocava para Rakitic, Mascherano parou e levantou o braço para pedir impedimento. Quando os argentinos perceberam que a jogada era legal, era tarde demais. Postura inaceitável em uma partida decisiva de Copa do Mundo. E Messi ficou olhando. Não apenas neste lance: a partida inteira.

Aconteceu mais de uma vez. Diante da bagunça que é a seleção argentina coletivamente, Messi pegava a bola, colocava debaixo do braço e tentava resolver sozinho. Arrancava, driblava, chutava. Fez isso, por exemplo, nas finais da Copa América contra o Chile. E na estreia da Copa do Mundo contra a Islândia. Longe do ideal, longe de ser a situação que melhor potencializa suas qualidades. Mas é mais aceitável do que o que ele fez hoje.

Messi mal tocou na bola. E, novamente, isso não é uma hipérbole. Tocou 49 vezes na bola. Mais apenas do que o goleiro Caballero (e não muito: 43), o centroavante Agüero e Salvio, com exceção dos jogadores que entraram no segundo tempo. Tentou 32 passes. Contra a Islândia, tocou 116 vezes na bola e tentou 70 passes. Claro que as complicações que as partidas apresentaram foram diferentes. Mas esses números estão muitos distantes: no primeiro jogo, a bola passou pelos seus pés até demais; no segundo, ele a esperou chegar – e levou um chá de cadeira. Deu apenas um chute a gol, bloqueado, contra 11 diante dos islandeses.

A estratégia de Sampaoli pode ter sido tirar Messi da origem das jogadas e colocá-lo mais próximo das zonas de decisão. Mas, se foi, claramente não funcionou. E Messi, como líder, como capitão, deveria ter assumido uma postura diferente quando ficou claro que a bola não chegaria de jeito nenhum, entre a pressão incessante da Croácia e a inabilidade no passe dos seus zagueiros e dos seus volantes. Ao contrário, várias vezes andou em campo, o que pode funcionar no Barcelona, com coletivo forte e responsabilidades claras, mas definitivamente não funciona na seleção. Em outras, pareceu ter desistido. Quando seu time sofreu o primeiro gol, limitou-se a passar a mão no cabelo. Ao apito final, foi direto para os vestiários, sem animar ou motivar os companheiros.

Nesta Copa do Mundo, e ao longo de boa parte da sua carreira pela seleção argentina, Messi foi vítima da desorganização da federação, de técnicos ultrapassados ou incompetentes, e de companheiros que, embora talentosos, nem sempre oferecem o apoio que ele precisa em compromissos internacionais. Nem sempre, como fez contra o Equador, na partida decisiva das Eliminatórias Sul-Americanas, por mais craque que seja, ele consegue resolver sozinho. Nesta quinta-feira, contra a Croácia, no entanto, Messi nem tentou.