Foi um negócio de ocasião: em julho de 2015, o West Ham pagou apenas € 15 milhões – valor relativamente baixo no atual mercado de transferências insano e inflacionado da Europa – por um jogador que seria um dos melhores da Premier League que estava prestes a começar. Um talentoso meia francês que elevaria os Hammers de patamar e ficaria um ano e meio na Inglaterra. Dimitri Payet voltou ao Olympique Marseille depois de uma passagem pelo leste de Londres que foi breve, intensa e, apesar dos problemas disciplinares das últimas semanas, brilhante.

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Esses últimos 18 meses da carreira de Payet são o melhor exemplo de como o futebol é cíclico e dinâmico. Ele deixou a França no momento em que o Olympique Marseille, em dificuldades financeiras, passava por um desmanche. Perdeu seus principais jogadores e, junto com eles, o técnico Marcelo Bielsa. Depois de um ótimo quarto lugar, o clube francês teve uma temporada ruim, que terminou com a 13ª colocação. Enquanto isso, o West Ham estava pronto para brilhar: comandado por Payet, foi sétimo colocado na Premier League, enfrentou os grandes de igual para igual e se classificou para a Liga Europa.

Agora, a situação é completamente diferente. O West Ham não consegue repetir os desempenhos da temporada passada e teve um começo muito ruim de Premier League, embora esteja esboçando uma reação, com cinco vitórias nas últimas sete partidas. O Olympique Marseille, por sua vez, foi comprado por um americano e tem estado ativo no mercado. Além de Payet, cujo retorno custou € 10 milhões a mais do que o valor desembolsado pelos Hammers para comprá-lo um ano e meio atrás, trouxe o promissor Morgan Sanson, do Montpellier e o veterano Patrice Evra. Curiosamente, também ganhou cinco das suas sete últimas rodadas e já é o sexto da Ligue 1.

O West Ham não queria vender seu melhor jogador. Isso ficou bastante claro nas declarações de Slaven Bilic, que acusou Payet de falta de comprometimento e o colocou para treinar sozinho enquanto a novela era resolvida, e na nota oficial emitida pelo West Ham para anunciar a venda. “O meia francês foi vendido depois de afirmar que não queria mais jogar pelos Hammers”, escreveu. O presidente David Sullivan foi mais duro: “O clube gostaria de deixar registrado sua sincera decepção com o fato de Dimitri Payet não ter mostrado o mesmo comprometimento e respeito com o West Ham que os torcedores mostraram com ele. Eu quero deixar claro que não temos a necessidade financeira de vender nossos melhores jogadores e que a decisão de deixar Payet sair foi de acordo com os desejos do treinador e os interesses da união da equipe. Para ser franco, eu e meu Conselho gostaríamos que ele tivesse ficado para fazer dele um exemplo de que nenhum jogador é maior que o clube”.

Em fevereiro do ano passado, ainda no meio da temporada, o West Ham deu a Payet um novo contrato de cinco anos e meio. A intenção do clube inglês era construir uma equipe em torno do craque francês, um plano totalmente justificável. Ele foi a principal mola propulsora que elevou os Hammers do meio da tabela às primeiras posições e, passada a atual tempestade, tinha tudo para continuar sendo essencial em um clube que anseia evoluir.

Ele comeu a bola na sua primeira temporada: 15 gols e 17 assistências em 44 partidas. Excelentes números. Era o homem mais perigoso da ilha em jogadas de bola parada, cruzando ou batendo direto para o gol, com cobranças cheias de curvas, inesperadas e plásticas. Deu duas assistências, para Antonio e Reid, no último jogo do West Ham em Upton Park, a épica vitória por 3 a 2 sobre o Manchester United.

Seu desempenho foi reconhecido pelo técnico da seleção francesa, Didier Deschamps, que o levou para a Eurocopa e só não foi titular no último jogo da fase de grupos, quando o treinador poupou seus principais jogadores. Payet retribuiu a confiança com dois gols nos dois primeiros jogos, contra Romênia e Albânia, mas depois caiu de rendimento e não conseguiu ajudar a França a ser campeã, em casa. Mesmo assim, mostrou capacidade para atuar nos grandes palcos.

No entanto, a primeira metade da temporada do West Ham foi horrorosa, com uma epidemia de lesões e uma equipe sem coesão. A chance de disputar competições europeias desapareceu com a eliminação para o Astra Giurgiu, ainda na fase preliminar da Liga Europa. Cinco derrotas nas seis primeiras rodadas já prejudicaram a campanha do clube ainda em setembro e qualquer coisa parecida com uma reação demorou para aparecer. Em meio a tudo isso, Payet também caiu de rendimento e deixa o West Ham depois de apenas dois gols e seis assistências em 22 partidas nesta temporada. No geral, ainda tem números respeitáveis: 17 tentos e 23 passes para gol em 66 jogos com a camisa do time do leste de Londres.

Payet tuitou a foto de um avião com a legenda “voltando para casa”, e tudo que indica que, mais que fugir da fase do West Ham, seu principal desejo era voltar para a França. Na janela de inverno de 2011, quando ainda era jogador do Saint-Étienne, o jogador tentou o mesmo expediente para forçar uma transferência para o PSG, que dava início ao seu projeto milionário. Chegou a dizer publicamente que havia “um abismo” entre ele e os líderes do elenco. No entanto, o Saint-Étienne bateu o pé e recusou uma proposta de € 8 milhões do PSG. A janela fechou, e Payet ficou até o fim da temporada. Em junho de 2011, acabou saindo, pelo mesmo valor oferecido pelo PSG em janeiro, mas para o Lille.

O West Ham, no entanto, preferiu não arriscar um racha de vestiário e, depois de contratar Robert Snodgrass, do Hull City, conseguiu um bom dinheiro por um jogador de 29 anos. Payet, por sua vez, deu as costas à chance de fazer história na Premier League, mas deixou a sua marca no campeonato durante o curto tempo em que foi jogador dos Hammers.