Paulinho decidiu abandonar o futebol de alto nível pela segunda vez. Aos 29 anos, o volante brasileiro sai do Barcelona e volta ao Guangzhou Evergrande, da China. O acordo anunciado pelo Barcelona é de empréstimo com opção de compra dos chineses. Depois de uma Copa do Mundo ruim, o volante tinha a chance de tentar, na Europa, recuperar os momentos de bom futebol. Preferiu voltar à China e encerrar, pela segunda vez, a chance que tinha de permanecer em uma das principais ligas do mundo.

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Em julho de 2015, Paulinho decidiu deixar o Tottenham, onde já tinha perdido espaço e virado reserva, para ir para o Guangzhou Evergrande, da China. Pareceu abrir mão da carreira de alto nível, pensando em grandes clubes da Europa e seleção brasileira, aos 26 anos. Isso só não aconteceu por causa de Tite. O treinador da Seleção acreditou no seu ex-comandado, o convocou e ele, surpreendendo quase todo mundo, foi muito bem. Jogou demais, se tornou destaque do time nas Eliminatórias.

Também por isso, ganhou uma chance de voltar ao futebol europeu do mais alto nível e foi contratado pelo Barcelona por uma boa grana, €40 milhões. Em meio à desconfiança de um jogador que já tinha aberto mão do futebol europeu uma vez, depois de não conseguir ir muito bem no Tottenham. Venceu os questionamentos com um início excelente, se tornando uma peça importante no time de Ernesto Valverde. Merecidamente, ganhou o seu lugar nos 23 que foram à Rússia pela seleção brasileira. Virou até garoto propaganda de casa de apostas que traça a sua trajetória como uma história de superação.

Paulinho realmente tem uma história de superação. Formado pelo antigo Pão de Açúcar, atual Audax, saiu de lá, ainda com 18 anos, para jogar na Lituânia, pelo Vilnius. Foram dois bons anos de boas atuações, mas perseguido por racismo. Ele conta que só conseguiu permanecer porque havia outros brasileiros, suas famílias. Quando o Vilnius foi rebaixado, Paulinho foi negociado para o Lodz, da Polônia. Por lá, Paulinho teve dificuldades em jogar. Pouco entrava em campo e acabou saindo.

“A Lituânia foi difícil por causa do preconceito, racismo. Eu ainda permaneci porque tinha outros jogadores brasileiros, minha mulher, as mulheres deles… Na Polônia eu não jogava, quando comecei a jogar foi de lateral-direito, só que toda hora alguém falava que eu seria negociado, que ia sair. Minha mulher estava grávida e daí tivemos problemas nas questões financeiras que eu nem gosto de falar. Ficamos vivendo ali apertado e essa série de fatores me levou a voltar”, contou Paulinho à ESPN, em 2013.

“A gente saía para ir ao centro e as pessoas instigavam a gente para agredir ou falavam alguma coisa racista. Começavam a imitar macacos. Foi passando o tempo e aquilo foi incomodando. Era muito triste. Chegou uma hora que, em 2008, eu falei: não vou mais. Vou parar de jogar futebol, porque eu não aguento mais”, contou Paulinho ao Globoesporte.com, em 2013.

“Na Polônia eu passei dificuldades financeiras. Não era um clube grande, era intermediário, e a gente não ganhava muito. Era um salário baixo e a gente tinha que se virar. Segurava um pouquinho o dinheiro, porque a gente sabia que no mês seguinte poderia não receber. E eu cheguei e não joguei. Fiquei no banco praticamente a metade do ano. Toda hora saía matéria de que o treinador não me queria, queria que eu fosse embora. Aquilo foi mais um motivo para eu pegar minha malinha e voltar ao Brasil”, explicou o jogador, também em 2013.

Paulinho voltou ao Brasil para jogar a Segunda Divisão do Campeonato Paulista pelo Audax, equivalente à quarta divisão. De lá, conseguiu se destacar e ser contratado pelo Bragantino. Foi jogando pelo time de Bragança Paulista que ele ganhou projeção e foi contratado pelo Corinthians, em 2010, após o Campeonato Paulista daquele ano.

Daí em diante, todo mundo conhece a história. Campeonato Brasileiro em 2011, Libertadores e Mundial em 2012 e da Copa das Confederações pelo Brasil em 2013. Foi para o Tottenham, começou bem, mas acabou mal aproveitado, atuando mal quando teve chance e passou a ser uma mera opção no banco. Às vezes nem isso. E aí voltamos a 2015. Mesmo com proposta do Watford, outro time inglês que estava na Premier League, preferiu ir para o Guangzhou Evergrande, da China.

Uma declaração da sua mãe ao Globoesporte.com, em 2013, quando o jogador ainda estava no Corinthians, é ao menos curiosa. Ela conta que aos 14 anos, jogando pelo Audax, as dificuldades eram enormes. A família se sacrificava para que ele pudesse treinar, ter equipamento esportivo, ajudar o transporte. Tinha que acordar muito cedo para ir treinar e pensava em desistir.

“Ele não gostava. O Paulinho não queria ser jogador. Nós o obrigamos a ser jogador. Não era o sonho dele”, contou a mãe, Erika Lima Nascimento, sobre o filho. “Não queria ir treinar… ia, voltava. No outro dia a mesma coisa. Eu falei: acho que não vai dar para mim esse negócio, não. Acordar cinco e quarenta todo dia e chegar em casa sete da noite, não dá para mim, não”, contou Paulinho.

Paulinho se tornou um grande jogador, de um nível alto. A sua participação na Copa do Mundo de 2014 foi ruim e jogar outra Copa pelo Brasil depois de já ter feito uma sob críticas, é raro. Ele teve a chance, mas não aproveitou. Em 2018, merecia perder a posição, como aconteceu quatro anos antes, no Brasil. Agora, infelizmente para quem gosta de vê-lo jogar, mais uma vez decidiu deixar o alto nível.

Vai para a China, onde, mais uma vez, deve ser destaque. Ele tem futebol para isso. Como tinha futebol para continuar no Barcelona, buscar o seu espaço. Ou, se o Barcelona não o quisesse por lá, certamente poderia seguir a outro time europeu em uma grande liga, buscando a sua afirmação, mostrando a perseverança que ele teve na vida. Ele fez uma opção de não seguir. Preferiu voltar à China, onde certamente o seu salário será bastante alto, mas onde ele encerra a carreira de ponta.

A qualidade de vida que tinha na China, aliás, certamente pesou. Algo que ficou evidente em relato recente ao Players’ Tribune: “Honestamente, eu estava curtindo meu tempo lá na China. Minha esposa e eu tínhamos uma vida incrível por lá, e eu estava jogando um bom futebol. Antes dos rumores do Barcelona, eu estava completamente em paz na China”. Abre a mão dos holofotes para retomar essa tranquilidade.

Cada um faz as suas escolhas e arca com elas. Quando encerrar a carreira, Paulinho certamente terá glórias para se lembrar. Aos milhões que veem futebol, que é o que torna esse esporte tão badalado ao redor do mundo, o questionamento que ficará é se foram escolhas esportivas acertadas. Restará, ao menos, uma lamentação por um jogador que parece, mais uma vez, abrir mão de estar entre os melhores. Uma opção que ele tem todo o direito de tomar, mas que ainda assim parece ficar aquém de sua qualidade.