Não havia muito segredo. A imprensa europeia já dava como certo o que foi confirmado nesta segunda-feira. Thomas Tuchel será o novo treinador do Paris Saint-Germain, no lugar de Unai Emery, cujo contrato não foi renovado. O treinador de 44 anos talvez não imaginasse que sua carreira daria um salto tão pouco tempo depois da saída conturbada do Borussia Dortmund, quando Tuchel pecou justamente em um aspecto em que ele precisa ser impecável em Paris: relacionamento. 

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Thomas Tuchel é um técnico de qualidade, métodos modernos e muito promissor. Fez a mesma trajetória de Jurgen Klopp, substituindo o atual comandante do Liverpool um ano depois da sua saída do Mainz e imediatamente depois de ele deixar o Borussia Dortmund. Pegou um time fragmentado no Westfallenstadion e conseguiu reconstrui-lo, com bons resultados e um futebol atraente. Pep Guardiola até sugeriu seu nome para sucedê-lo no Bayern de Munique. 

A última temporada de Klopp no Borussia Dortmund foi muito ruim. Chegou a ocupar a lanterna da Bundesliga e terminou apenas em sétimo, com uma arrancada final que valeu vaga na Liga Europa. Com Tuchel, o Dortmund foi vice-campeão na campanha seguinte, com um ataque melhor que o do Bayern de Munique, e emendou um terceiro lugar. No meio do projeto, perdeu três peças essenciais – Mkhitaryan, Gundogan e Hummels – e Tuchel conseguiu manter um bom nível. Derrotou a o Eintracht Frankfurt na final da Copa da Alemanha e conquistou o primeiro título do Dortmund desde 2012. 

Os resultados foram bons. Mesmo assim, três dias depois da decisão contra o Frankfurt, a diretoria do Borussia Dortmund anunciou a demissão do treinador. O motivo foram problemas de relacionamento entre Tuchel e a cúpula do clube, especialmente o executivo-chefe Hans-Joachim Watzke. A primeira rixa foi em janeiro de 2016, seis meses depois da sua chegada, com o chefe dos olheiros do Dortmund, Sven Mislintat, que trabalhava no clube há dez anos. O pivô foi Óliver Torres, meia do Atlético de Madrid que acabou não sendo contratado. Quando foi banido do centro de treinamentos por Tuchel, Mislintat transferiu-se para o Arsenal. Além de ser próximo de Watzke, o profissional havia participado do garimpo de talento que reconstruiu o Dortmund, descobrindo, por exemplo, Robert Lewandowski. 

No mercado de verão, ao fim daquela temporada, Tuchel não ficou especialmente contente com as saídas de Mkhitaryan, Gundogan e Hummels, por um total de € 104 milhões. Na ocasião, o treinador disse, em público, que a decisão de permitir uma reformulação tão grande no elenco – o Dortmund estava acostumado a perder seus principais jogadores, mas no máximo um por vez – era “arriscada”. Em janeiro, declarou que não foi envolvido na contratação do jovem sueco Alexander Isak e também nas chegadas de Ousmane Dembélé e Emre Mor. 

Chegou a afirmar que era um procedimento normal, mas ficou clara a distância em relação à diretoria. A confiança de fato quebrou na repercussão do atentado contra o ônibus do Dortmund antes de um jogo de Champions League contra o Monaco. Tuchel, com o apoio dos jogadores, não queria que a partida fosse remarcada para o dia seguinte e não encontrou respaldo em Watzke. Em seu depoimento à Justiça, durante o julgamento do responsável pela bomba, disse que provavelmente continuaria sendo técnico do clube, não fosse por esse episódio. “Ele já disse publicamente que houve uma discordância muito grande. Isso é verdade. A essência da discordância é que eu estava dentro do ônibus e ele não”, afirmou. 

A última partida de Tuchel no comando do Dortmund foi a final contra o Frankfurt. Na ocasião, rusgas com o elenco também vieram a público. Com Julian Weigl machucado, o técnico decidiu deixar Nuri Sahin fora da partida e escalou Ginter de volante. “Eu fiquei chocado”, afirmou o capitão da equipe, Marcel Schmelzer, depois do jogo. “Não entendi. Se estamos sem Weigl, Sahin é o único que também pode fazer (a função)”. E Reus acrescentou: “Ficamos todos surpresos”. Três dias depois, o Dortmund anunciou a saída de Tuchel. “Quando estamos falando sobre as responsabilidades de liderança, o resultado sozinho não importa. O que também importam são valores fundamentais como confiança, respeito, habilidade de se comunicar e trabalho em grupo, autenticidade e identidade. Qualidades como lealdade. Infelizmente, não acreditávamos mais que a atual comissão técnica oferecia uma fundação para uma colaboração de sucesso no futuro baseada em confiança”, disse Watzke. 

Esse histórico é relevante para o novo trabalho de Tuchel porque o relacionamento, com direção e jogadores, será essencial para o seu sucesso no Paris Saint-Germain. Tanto com o lado de cima, para manejar uma política de reforços que nem sempre faz muito sentido, quanto com o vestiário, onde Unai Emery encontrou inúmeros problemas com a chegada de Neymar. Ao sair, o espanhol admitiu que a “sua prioridade era fazer Neymar feliz”, depois de uma temporada em que o grupo parisiense pareceu qualquer coisa menos unido. 

Mais uma vez, como com Emery, o Paris Saint-Germain aposta em um treinador jovem e promissor para transferir o sucesso doméstico a campos europeus. Um treinador de qualidade, mas ainda sem tamanho para bater de frente com as grandes estrelas que ambiciona ter, com o agravante de já ser alguém com o histórico de não ser flor que se cheire. Em questões táticas e de treinamento, Tuchel tem as ferramentas para alcançar grandes feitos no Parque dos Príncipes. Resta saber se, em outros aspectos, evoluiu.