Pedernera

Pedernera, engrenagem da Argentina que poderia ter dominado o mundo nos anos 40

A alma do futebol argentino como é hoje começou a tomar forma nas primeiras décadas do século 20. Foi a época em que houve uma conversão: o esporte apropriado pela elite se tornou algo do povo, praticado pelo povo, dominado pelo povo e protagonizado pelo povo. Nesse processo, subverteu-se o jogo físico e áspero dos ingleses em algo baseado na habilidade. A sobreposição do improviso e do talento nato em detrimento do sistema, do treinamento, da tática. A tudo isso, deu-se o nome de La Nuestra, quase que um movimento antropofágico futebolístico argentino. Dessa vertente, não há dúvidas: seu principal expoente foi La Máquina do River Plate. Um time que encantou durante os anos 1940 e era a base da fortíssima seleção argentina que é considera por muitos a grande favorita às Copas canceladas pela Segunda Guerra Mundial.

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O quinteto formado por Juan Carlos Muñoz, Félix Loustau, José Moreno, Ángel Labruna e Adolfo Pedernera aterrorizava as zagas adversárias e ganhou a alcunha La Máquina pela maneira engrenada como jogava, visto pelos mais exaltados até como um antecedente do Futebol Total da Holanda de 1974. O talento dos cinco e a supremacia a que levaram o River Plate em âmbito nacional os levaram também a ser a base da Albiceleste, em um momento em que a seleção venceu quase tudo que disputou na América do Sul.

Como se posicionava o quinteto ofensivo da Máquina do River

Como se posicionava o quinteto ofensivo da Máquina do River

Esse River Plate dos anos 1940 ainda hoje é visto por muitos argentinos como a maior equipe da história do país. O “nascimento” da parceria que seria conhecida como La Máquina aconteceu em 1942, com a chegada de Lostau. A equipe, que já era a campeã argentina, continuava demonstrando o melhor futebol do país, e após o atropelamento por 6 a 2 sobre o Chacarita Juniors naquele ano, o jornalista uruguaio Borocotó, da revista El Gráfico, criou o apelido daquele esquadrão. Entre 1942 e 1946, o quinteto não atuou tantas vezes junto: foram ao todo 18 encontros. Mas as alternâncias não eram tão profundas a ponto de descaracterizar completamente o setor ofensivo millonario.

Jogador do Boca Juniors entre 1934 e 1947, Ernesto Lazzatti enfrentou muitas vezes a equipe mais lembrada da história do rival. Apesar da força do River e de sua representatividade no futebol nacional da época, a disputa entre os dois maiores times argentinos era bastante equilibrada. Entre 1941 e 1945, os Millonarios conquistaram três títulos nacionais, enquanto os outros dois foram para os xeneizes. Mesmo com esse equilíbrio, era claro quem era a melhor equipe, como é possível atestar na descrição feita pelo ídolo do Boca: “Você joga contra La Máquina com a intenção de vencer, mas, como um admirador do futebol, eu preferiria ficar nas arquibancadas e assisti-los jogar”.

O River não tinha a urgência de ir sempre atrás do gol. Antes disso, havia sobretudo a preocupação de não deixar o adversário com a bola. Até mesmo Pedernera, um dos mais avançados no 2-3-5 da equipe, voltava para auxiliar na marcação. Sem a bola, todos do time precisavam fazer sua parte para retomar a posse. Com ela, a calma para definir as jogadas rendeu àquele time outro apelido: “Caballeros de la Angustia”. Descreve Muñoz: “Eles nos chamavam assim porque não buscávamos o gol. Nunca pensávamos que não poderíamos marcar um gol contra nossos rivais. Íamos para o jogo e jogávamos da nossa maneira. Geralmente, levava um bom tempo para que o gol viesse, e a angústia era porque os jogos não eram definidos rapidamente. Dentro da área, é claro, queríamos fazer o gol, mas no meio de campo nos divertíamos. Não havia pressa, era instintivo.” Apesar da tal angústia para se chegar ao gol, ele vinha. E como vinha. Até hoje, três dos seis maiores goleadores da história do River Plate faziam parte de La Máquina: Labruna (293), Moreno (180) e Pedernera (131).

A formação ofensiva de La Máquina do River Plate: Muñoz, Moreno, Pedernera, Labruna e Loustau

A formação ofensiva de La Máquina do River Plate: Muñoz, Moreno, Pedernera, Labruna e Loustau

Nascido em 1918, Pedernera começou no futebol nas categorias de base do Cruceros del Plata, passando depois também pelo Huracán. Antes mesmo de começar no profissional, em 1933, transferiu-se para o River, equipe que seu pai defendera entre 1910 e 1912. Nos Millonarios, El Maestro, como era conhecido, estreou com 16 anos, em 1935. Além de seu desempenho coletivo em La Máquina, teve uma trajetória fantástica individualmente. Os 131 gols que fez entre 1935 e 1946 contribuíram com cinco títulos argentinos do River no período: 1936, 1937, 1941, 1942, 1945. Mais tarde, foi peça fundamental para uma revolução no futebol do país e para controvérsias na seleção nacional.

Assim como muitos de seus companheiros, Pedernera também estava a serviço da Albiceleste. Era a resposta sul-americana ao Torino daquela época, que encantava e dava aos italianos a certeza de que seriam favoritos nos Mundiais que deveriam ter acontecido em 1942 e 1946. O sentimento argentino era igual, mas reforçado pelo sucesso da seleção em torneios sul-americanos – na Europa, palco de maior parte dos conflitos da Segunda Guerra Mundial, não houve competições para que a Itália comprovasse com títulos sua supremacia. “Essa geração aliava técnica e habilidade com um futebol de força e marcação. Todos atacavam e todos defendiam, coisa incomum na época. Com os jogadores que tínhamos, dava para fazer até três seleções”, descreveu Carlos Rodrigues Duval, especialista em história do futebol do Diário Olé.

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A Albiceleste dominou o cenário sul-americano do futebol nos anos 1940. No período, foram disputadas seis Copas Américas. Mesmo com a concorrência de Brasil, que contava com jogadores como Heleno de Freitas e Leônidas da Silva, e Uruguai, que passava por um período de entressafra, mas ainda era forte, a Argentina foi capaz de vencer quatro edições (1941, 1945, 1946 e 1947), ficando também com o vice-campeonato em 1942. Dessas campanhas, Pedernera participou de quase todas, com exceção das de 1945 e da última, em 1947.

Não só o número de conquistas indica o domínio da Argentina na América do Sul na época. O resultado de várias das partidas evidenciavam isso também. Em 1941, com cinco seleções na disputa, a Albiceleste venceu todos seus quatro jogos para ficar com o título. Em 1942, o fator casa pesou a favor do Uruguai, que, por uma diferença de dois pontos, definida apenas na rodada final, com o jogo entre os dois, ficou com a conquista em Montevidéu.

Três anos depois, em um torneio que contava com o Brasil de Zizinho, Jair Rosa Pinto e Heleno, entre outros, a Argentina mais uma vez se destacou para ficar com a taça. É bom lembrar que a disputa teria sido um ano antes do Mundial de 1946, caso esse tivesse acontecido, o que levaria os hermanos em grandíssima fase e ótimo espírito para a competição. A Copa América de 1945 foi realizada no Chile, e apenas os anfitriões conseguiram evitar uma derrota para a Argentina. O Brasil fez grande campanha, Heleno terminou como o artilheiro, mas, no confronto entre os dois maiores rivais do futebol sul-americano, a Albiceleste dominou, vencendo por 3 a 1. Foi esse resultado que ajudou a definir o título, já que os brasileiros venceram todos seus outros cinco jogos.

No ano seguinte, a Copa América foi sediada pela própria Argentina, e o favoritismo, aliado ao fato de a Albiceleste ser a sede, foi confirmado com uma campanha de 100% de aproveitamento. Pedernera contribuiu com dois gols durante o torneio. Titular nos cinco jogos e com o bom desempenho, El Maestro definitivamente estaria no Mundial de 1946 se não fosse a destruição que a Segunda Guerra Mundial havia deixado. No ano seguinte, sem Pedernera, a Argentina mais uma vez levou o torneio sul-americano, vencendo seis e empatando um jogo dos sete que disputou. Dessas seis campanhas descritas aqui, a seleção argentina teve o melhor ataque em cada uma delas, com destaque para a de 1947, em que teve uma média de quatro gols por partidas.

Jogando como um dos mais avançados em uma seleção que atuava de maneira tão vistosa e efetiva, que levava para a equipe aquele estilo consagrado do River Plate, de toque de bola, com todos marcando e de bastante movimentação no ataque e troca de posições, Pedernera tinha tudo para ter sido um dos protagonistas das Copas do Mundo de 1942 e 1946. Dentro da própria Argentina, Moreno era o mais provável a brilhar, mas ainda assim, se seguisse o padrão visto no River e na Albiceleste naquela década, Pedernera também tinha potencial para ter seu nome lembrado na história dos Mundiais.

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Isso poderia muito bem ter acontecido em 1950. El Maestro tinha 32 anos, idade ainda adequada para disputar a competição. No entanto, dois motivos foram preponderantes para que isso não acontecesse, e um deles foi indiretamente induzido pelo próprio Pedernera. Primeiro, o descontentamento da Argentina por ter sido preterida em favor do Brasil na eleição da sede de 1950. A AFA decidiu boicotar os primeiros dois Mundiais após o fim da Segunda Guerra Mundial. Mas, mesmo que a Albiceleste viesse ao Brasil, Pedernera dificilmente estaria no elenco.

A Argentina vivia um momento social conturbado, e as lutas trabalhistas chegaram ao futebol. Em 1948 e 1949, uma greve foi organizada pelos atletas, que exigiam o fim do passe e a instauração de planos de assistência médica a seus familiares e um salário mínimo para a classe. Como as exigências não foram atendidas, a emigração começou. Moreno foi para o Chile, Pedernera, que atuava então no Huracán e era um dos líderes da greve, dirigiu-se para o Millonarios, na liga colombiana não reconhecida pela Fifa, mesmo caminho seguido por Di Stéfano. Uma vez lá, o atacante não poderia participar da Copa, assim como aconteceu com Heleno de Freitas, que não era elegível por jogar no Junior de Barranquilla.

A revolução iniciada por Pedernera não apenas o tirou da Copa, mas também enfraqueceu tecnicamente o futebol argentino, a seleção e acabou sendo um motivo a mais para que a Albiceleste ficasse de fora dos Mundiais de 1950 e 1954. Descontentes com a postura dos dirigentes, muitos jogadores chegaram a atuar por outras seleções, como, mais uma vez, Di Stéfano, que defendeu a Colômbia e, após ir para o Real Madrid, a Espanha.

O retorno dos argentinos à competição, em 1958, mostrou um time que não lembrava nem um pouco aquele que brilhara nos anos 1940. Foram eliminados na primeira fase, com uma despedida bastante simbólica: derrota por 6 a 1 para a Tchecoslováquia. Definitivamente, essa ausência por desacordos com a Fifa e a volta com uma campanha tão fraca contribuíram para que no imaginário coletivo dos argentinos ficasse a quase certeza de que os primeiros títulos mundiais poderiam muito bem ter acontecido nos anos 1940, e não apenas quando o país foi sede da competição. Talvez não só para os próprios argentinos; o mundo sabe que pelo menos candidata ao título a Albiceleste seria. Contando, sem dúvida, com o talento de Pedernera lá na frente.

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