Os jogadores da Alemanha festejam a conquista do Mundial

Pela Bahia é que a Alemanha também descobriu o Brasil

Santa Cruz Cabrália faz parte da história do Brasil. Foi por ali que o país começou a ser contado, ao menos oficialmente. Por onde Cabral iniciou o descobrimento e os conquistadores celebraram a primeira missa nas novas terras. A partir deste domingo, a cidade no litoral baiano também passa a fazer parte da história das Copas. Porque foi a partir de lá que a Alemanha começou a descobrir o Brasil. Um primeiro contato fundamental para que os alemães passassem a entender o país. Diferente do que aconteceu há 514 anos, para a conquista não apenas do novo mundo que desvendavam, e sim de todo o planeta.

GALERIA: 25 momentos (carisma) em que a Alemanha foi o Brasil na Copa

Assim como ocorreu com Cabral, os alemães foram recepcionados pelos nativos. Os índios pataxós que escrevem o passado da região há mais tempo que os portugueses e que deram um banho de cultura aos novos moradores de Santa Cruz Cabrália. Primeiro passo para que os visitantes sentissem o que é o povo brasileiro. Para muita gente, até parecia loucura a ideia de construir uma superestrutura só para a Copa na Bahia. Um investimento pelo qual a federação não se arrependeu nem um pouco, e que ainda fica de presente à população local. Porque lá é que Joachim Löw e seus comandados começaram a se sentir em casa. Aproveitaram a Copa do Mundo como a grande festa que o torneio é. E ninguém soube curtir mais o momento do que eles.

A Alemanha tinha a sua disposição um paraíso natural, mas também um local onde poderia trabalhar. A praia ficava a poucos metros dos campos de treinamento. E, afinal, não há quem resista ao sol da Bahia. As famílias estavam todas ali, no novo lar dos alemães. Que, apesar das distrações, não deixaram de se preparar para a jornada. Mas, mesmo assim, puderam curtir tudo o que o Brasil lhes oferecia. Na mesma semana do desembarque, os alemães já estavam passeando à beira do mar, navegando em pequenas embarcações, sentindo a natureza. Adaptação imediata e fundamental para tudo o que a seleção passou no país.

Porque eles gravaram até um vídeo ao som de Tieta para homenagear o Brasil

Ironia do destino, a conquista do mundo pelos alemães começou justamente contra Portugal, e em Salvador, a primeira capital do Brasil. No entanto, só Cristiano Ronaldo não era tão poderoso quanto a esquadra de Cabral e Pepe teve entregou a coroa aos rivais. De lá, o Nationalelf partiu para descobrir Fortaleza, Recife, Porto Alegre, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Venceram africanos, que tanta parte têm na história nacional. Americanos, de forte influência cultural. Franceses, que também um dia acharam que poderiam conquistar o país. Até chegar o próprio Brasil.

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O povo que havia recebido tão bem a Alemanha ficou submisso àqueles sete gols. Que também fez os alemães também sentirem. Porque se dizem que a frieza é uma característica dos germânicos, o calor de Santa Cruz Cabrália e do povo brasileiro já havia os aquecido. Os novos conquistadores tiveram a nobreza de consolar os conquistados, diante da tristeza que viam nos rostos daquela gente que tinham aprendido a amar. Para se fortalecerem ainda mais diante da Argentina, que já se achava dona do país ao ver a queda de seus rivais. No Rio de Janeiro, onde o Brasil se constituiu como país ao longo de séculos, a Alemanha terminou sua trajetória. Para ser a nova campeã do mundo no monumento que mais caracteriza o “país do futebol”, sob os braços do Cristo Redentor.

Ter disputado a Copa de 2006 em casa certamente pesou para o sucesso alemão. Na época, não havia uma pressão tão grande quanto a suportada pelo Brasil desta vez – até pelo título de 1974, diferentemente do fantasma de 1950. Apesar da derrota para a Itália nas semifinais, a Alemanha sentiu orgulho de seu time. Era a própria redescoberta do país, satisfeito pela maneira que se uniu para realizar aquela grande festa. Algo que moldou essa geração. E que, depois de errar o caminho das Índias na passagem pela África do Sul em 2010, também tinha a experiência para triunfar no Brasil em 2014. Para se sentirem anfitriões também aqui, até mais em casa do que a própria seleção brasileira.

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Hans Staden foi um aventureiro alemão importante para contar a história do Brasil. Os relatos de suas expedições se tornaram essenciais para que o país fosse conhecido com mais detalhes no Século XVI. Mas se as impressões de Staden ficaram marcadas por índios canibais, a da seleção alemã vai pelo caminho contrário. A relação de amizade que os jogadores estabeleceram no país era visível a cada momento, e ressalta aquele que foi o principal legado do torneio: a forma como o povo brasileiro abraçou quem chegava e deu um clima aconchegante ao espetáculo tão esterelizado pela Fifa. Certamente os alemães não se esquecerão disso – e sentirão saudades rapidamente, com os campeões declarando amor ao país que conheceram tão de perto. Ao contrário do que o título da obra de Hans Staden possa sugerir, a “História verdadeira de uma terra” foi mesmo escrita pela Alemanha nesta Copa.

Abaixo, 25 momentos (carisma) em que a Alemanha foi o Brasil na Copa:


Nada contra a Argentina. A gente gosta bastante de Messi e companhia. Entende perfeitamente quem leva em conta a rivalidade para escolher sua torcida na final da Copa, mas também respeita (e muito) quem nem toma isso em conta. Porque futebol é liberdade. E se nem o Brasil é uma unanimidade dentro do Brasil, não seria pelo lado negativo que a Argentina conseguiria ser, não é mesmo?

O fato é que está difícil de ser impassível à Alemanha nesta Copa, mesmo com os 7 a 1. Ok, tem um trabalho de assessoria muito bom por aí. Mas, você sabe, não é só isso. É tanta picardia e boa vontade que você duvida muito que tudo aquilo não está sendo espontâneo. A forma como eles têm demonstrado esse gosto por estar no Brasil e o carinho com o povo – e algo que não fica só em palavras que podem ser pasteurizadas, mas também fotos e vídeos. Se os alemães estiverem armando tudo, são ótimos atores. E o filme também é muito bom de ver. Na galeria acima, confira as principais cenas dessa “Loucademia” de Futebol.