Pela primeira vez, um dérbi municipal na decisão da Champions: o maior da história de Madri

Apenas quatro finais da Liga dos Campeões em toda a história tiveram confrontos nacionais. Real Madrid x Valencia, Milan x Juventus, Manchester United x Chelsea, Bayern de Munique x Borussia Dortmund. Duelos de grande significado em seus países, clássicos por conta do peso das camisas envolvidas. No entanto, nunca a Champions teve um dérbi regional em sua decisão. Até Atlético de Madrid e Real Madrid atropelarem quem aparecesse pela frente nesta edição. Pela primeira vez, a taça será disputada por inimigos locais, rivalidades que se separam por apenas alguns quilômetros. Um detalhe que engrandece ainda mais o jogo do Estádio da Luz.

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Sem sombra de dúvidas, será o maior clássico da história de Madri. A disputa entre os grandes da capital espanhola acontece desde 1906. Porém, naqueles tempos, o Atleti era apenas uma filial do Athletic Bilbao. Os ânimos só passaram a ficar mais acirrados à medida em que os colchoneros se emancipavam de seus fundadores e enfrentavam o Madrid nos torneios regionais. Já a partir da década de 1920, a rivalidade chegou a outro patamar. O Atlético passou a desafiar o Real nos torneios madrilenos, enquanto a dupla logo se firmou entre os grandes nos primeiros anos de La Liga, criada em 1929.

Ainda que a história recente aponte para Barcelona e Real Madrid como as duas forças hegemônicas na Espanha, essa visão era bastante diferente até meados do século passado. Entre as décadas de 1930 e 1960, por exemplo, o Real só conquistou dois títulos de La Liga e um da Copa do Rei a mais que seus rivais. Uma época em que ambos os clubes tinham suas doses de ligação com o regime franquista, inclusive.

Neste período de força dos dois clubes, houve mesmo um encontro pela Copa dos Campeões, nas semifinais de 1958/59. O Real Madrid vinha de três títulos continentais, mas o dono da taça na Espanha era o Atlético. A tarimba internacional, no entanto, pesou aos merengues. Em tempos no qual os gols fora de casa não eram critério de desempate e não havia pênaltis, os dois foram obrigados a fazer uma terceira partida, após uma vitória para cada lado. Em La Romareda, estádio do Zaragoza, os craques do Real decidiram. Di Stéfano e Puskás anotaram os tentos no triunfo por 2 a 1, que encaminhou o time ao tetra. Também aconteceram dois dérbis seguidos na final da Copa do Rei, em 1960 e 1961, ambas para o Atleti se vingar.

Entretanto, as taças pilhadas pelo esquadrão montado por Santiago Bernabéu a partir da década de 1950 aumentou a diferença entre os clubes. Assim como a derrota do Atleti na final da Copa dos Campeões de 1974, para o Bayern de Munique, é até hoje considerada um marco do declínio de seus períodos mais competitivos. Em 1975, a derrota para o Real na final da Copa do Rei ratificava isso. Os rojiblancos passaram a viver de glórias ocasionais a partir da década de 1980 e foram mesmo rebaixados em La Liga. A Liga Europa parecia o limite para um grande time espanhol, mas não bom o suficiente para sonhar com a glória da Liga dos Campeões. Para piorar, os colchoneros se tornaram tão fregueses dos merengues quanto nos primeiros anos da história do clássico. Atualmente, são 143 vitórias do Real e apenas 64 do Atleti, somando 264 jogos por competições oficiais.

Depois de ano de sofrimento, contudo, o Atlético voltou a alcançar o Real Madrid no topo. Aturou 16 anos de jejum para ir à desforra na final da Copa do Rei do ano passado, dentro do Santiago Bernabéu. Venceu novamente o Real Madrid no reencontro em La Liga, a qual disputa cabeça a cabeça com os merengues e também com o Barcelona. Agora, ambos farão uma decisão enorme da Champions, por todos os elementos que a cercam, sobretudo a rivalidade.

O Real Madrid quer La Decima a todo custo, a taça que é tão cobiçada por todos que passam pelo Santiago Bernabéu. Ao mesmo tempo, o Atlético nutre no Vicente Calderón a vontade de quebrar a maldição iniciada com o vice-campeonato em 1974, mostrar que também é um gigante. Prevalecerá o favoritismo dos merengues, a freguesia que durou por tanto tempo, ou a vontade dos colchoneros, o ímpeto de mostrar que podem derrubar os rivais poderosos? A resposta será dada em Lisboa, no dia 24 de maio. E todos estarão ansiosos para descobri-la, especialmente em Madri.