O Real Madrid pode receber a crítica que for. Quando chega a Liga dos Campeões, porém, os merengues mostram que a história é outra. E quase sempre, protagonizada pelo lado branco em campo. Não, o time de Zinedine Zidane não fez a partida perfeita no Estádio Santiago Bernabéu. Dependeu de um pênalti bobo para arrancar o empate e parecia muito mais suscetível a tomar o segundo gol. A badalação ou o potencial ofensivo do Paris Saint-Germain, ainda assim, não conseguiram fazer a diferença no jogo de ida das oitavas de final da Champions. Pesou muito mais a ferocidade dos madridistas nos minutos finais, impulsionados pelas alterações tardias e extremamente funcionais de Zizou. Marco Asensio incendiou o duelo, Cristiano Ronaldo demonstrou seu oportunismo e Marcelo destruiu pelo lado esquerdo. Ao final, a vitória por 3 a 1 talvez não resuma da melhor maneira o que aconteceu ao longo dos 90 minutos. Mas representa muito bem a grandeza e o poder de destruição do clube que possui 12 títulos na principal competição continental.

Entre as formações possíveis, mesmo tendo Gareth Bale à disposição, Zinedine Zidane repetiu o 4-3-1-2 que valeu demais na temporada passada. Isco era o armador centralizado, municiando Cristiano Ronaldo e Karim Benzema. Já na lateral direita, diante da suspensão de Dani Carvajal, os merengues confiaram em Nacho Fernández para marcar Neymar. Unai Emery, por sua vez, deu créditos à juventude. A zaga entrou com Presnel Kimpembe (este, barrando Thiago Silva no miolo) e Yuri Berchiche. No meio, a despeito das expectativas sobre Lassana Diarra, Giovani Lo Celso ganhou o respaldo na cabeça de área. E a linha de frente contou com o trio principal. Apesar da ótima fase de Ángel Di María, o argentino começou no banco, com Neymar, Edinson Cavani e Kylian Mbappé comandando o ataque.

Durante os primeiros minutos, o Real Madrid tomou a iniciativa. Pressionava o PSG, com e sem a bola, impondo dificuldades aos visitantes para avançar ao campo de ataque. Assim, surgiram as primeiras oportunidades dos merengues, em chute para fora de Cristiano Ronaldo e de Toni Kroos que Alphonse Aréola espalmou. Os parisienses apenas começaram a responder quando acertaram os contra-ataques, partindo em velocidade. Neymar, sobretudo, era muito acionado por seus companheiros, chamando a responsabilidade na esquerda. Além disso, as investidas dos visitantes dependiam dos laterais e dos pontas.

À medida que o tempo foi passando, por mais que a rotação de ambos os times fosse alta, as chances de gol não apareciam tanto. O Real Madrid não conseguia abrir brechas na linha de zaga francesa, muito bem postada. Seu jogo se concentrava na intermediária. Isco penteava a bola e distribuía pelo meio, mas sem acionar Benzema e Ronaldo. Da mesma forma, por mais que Marcelo aparecesse bastante, não era tão agudo. O PSG, por sua vez, causava mais incômodo. Os contragolpes eram uma ameaça constante. A zaga merengue se safava no limite.

O jogo voltou a pegar fogo depois dos 25. Cristiano Ronaldo ia exibindo a potência de seu chute, mas sem concluir com precisão. Cobrou uma falta perigosa por cima do gol, antes de desperdiçar uma oportunidade claríssima. Marcelo lançou o camisa 7 com açúcar e ele tentou bater por cima do goleiro, mas Aréola defendeu com o rosto. Na sequência, seria a vez de Sergio Ramos cabecear firme nas mãos do arqueiro parisiense. E em um momento no qual o Real Madrid buscava retomar o espaço no canto ofensivo, a verticalidade do PSG valeu o primeiro gol.

A aceleração máxima do time de Unai Emery continuava sendo o melhor caminho. Pouco antes da cabeçada de Sergio Ramos, Neymar já tinha feito boa jogada individual, até ser travado. Todavia, a qualidade de Mbappé abriria o caminho aos 33 minutos. O garoto fez grande jogada pela direita, deixando Marcelo no chão, mesmo marcado por dois. Cruzou em direção à área. Cavani deixou passar e Neymar, dividindo com Nacho, tentou passar de calcanhar. A sobra ficou com Adrien Rabiot, livre na área. O meio-campista chutou firme e não deu chances a Navas.

A cobrança sobre o Real Madrid aumentava. Qualquer exposição maior ao PSG era uma temeridade, e Cavani quase anotou o segundo, travado na hora exata por Casemiro. No entanto, a postura atenta e combativa dos merengues no campo ofensivo valeu o empate. Cristiano Ronaldo quase igualou em uma roubada de bola, errando o alvo por pouco. Depois, Benzema exigiu grande defesa de Aréola, em chute colocado de fora da área. E a sequência da jogada rendeu um escanteio, no qual Toni Kroos invadiu a área e foi puxado por Lo Celso. Pênalti claro, que Ronaldo cobrou com força. Mesmo acertando o canto, Aréola não pôde salvar. Aos 45, era o que os madridistas precisavam para seguir mais tranquilos ao intervalo.

O segundo tempo caiu de ritmo. O PSG se mostrava mais confortável rumo ao ataque e passou a martelar. Mbappé poderia ter feito o segundo, em chute rasteiro ao completar cruzamento de Neymar, mas Keylor Navas operou um milagre. Além disso, houve um arremate que explodiu em Sergio Ramos e, apesar do braço colado no corpo, os franceses pediram pênalti. Nada feito. Faltava um pouco mais de clareza ao Real Madrid na construção de suas jogadas, dependendo exclusivamente das bolas paradas.

Aos 21, Unai Emery realizou uma alteração surpreendente. Tirou Cavani para a entrada de Thomas Meunier. Centralizou Mbappé no ataque e avançou Daniel Alves na ponta. Zidane tentou responder, com Gareth Bale na vaga de Benzema, mas o momento era do PSG. A posse de bola ficava com os parisienses, mais uma vez incomodando pelos lados, acuando o Real Madrid. O gol não se concretizou por detalhes. Em um bate-rebate na área, Sergio Ramos travou Kimpembe na pequena área. Já aos 29, a melhor oportunidade veio em cruzamento de Berchiche pela esquerda. Daniel Alves se esticou, mas ficou a centímetros de escorar para dentro.

O susto, enfim, pareceu acordar o Real Madrid. O ataque voltou a aparecer, mesmo sem ser tão contundente. Já aos 34 minutos, Zidane mudou os rumos do jogo. Mandou para campo Lucas Vázquez e Marco Asensio, botando no banco Casemiro e Isco. Alterações ousadas, que deixavam os merengues praticamente em um 4-2-4, apostando tudo em buscar a vitória em casa. E o risco, no fim das contas, se transformou em comemoração. Os madridistas passaram a mandar em campo, com o PSG sem se resguardar da melhor maneira na defesa. A virada seria fulminante.

O segundo gol saiu aos 38, a partir de um avanço pela direita. Asensio tentou a primeira vez, mas a zaga afastou parcialmente. Modric ficou com a sobra e abriu de nov com o garoto, que cruzou rasteiro. Aréola espalmou e Cristiano Ronaldo estava no lugar certo para completar de joelho. Já aos 41, Marcelo sacramentou o triunfo. O terceiro tento nasceu em uma belíssima troca de passes, envolvendo o lado direito da defesa parisiense. Mais uma vez Asensio apareceu e rolou para o lateral concluir, estufando as redes. Nos instantes finais, o PSG ainda tentou diminuir o prejuízo. Navas parou Mbappé e Neymar bateu com perigo para fora. Nada feito. Com os dois tentos de desvantagem, os franceses terão trabalho para arrancar a classificação no Parc des Princes, em 7 de março.

Até lá, a sequência promete ser mais tranquila ao Real Madrid. Os merengues não fazem boa campanha no Campeonato Espanhol e correm o risco de aumentar as cobranças, mas apenas o Betis aparece na metade de cima da tabela. Já o PSG encara dois clássicos contra o Olympique de Marseille, um deles pela Copa da França. Momento de tentar acertar os ponteiros e reverter o resultado no reencontro. Não é uma virada impossível, longe disso. De qualquer forma, por aquilo que apresentaram no Bernabéu, os merengues deixaram claro que não desistirão tão facilmente do terceiro título na Champions. Por aquilo que conseguiu, o time de Zidane exige respeito.

Ficha técnica

Real Madrid 3×1 Paris Saint-Germain

Local: Estádio Santiago Bernabéu, em Madri
Árbitro: Gianluca Rocchi (ITA)
Gols: Adrien Rabiot, aos 33’/1T; Cristiano Ronaldo, aos 45’/1T e aos 38’/2T; Marcelo, aos 41’/2T
Cartões amarelos: Isco, Nacho Fernández (Real Madrid); Neymar, Giovani Lo Celso, Adrien Rabiot, Thomas Meunier (Paris Saint-Germain)
Cartões vermelhos: Nenhum

Real Madrid
Keylor Navas, Nacho Fernández, Raphaël Varane, Sergio Ramos e Marcelo; Casemiro (Marco Asensio, aos 34’/2T), Toni Kroos e Luka Modric; Isco (Lucas Vázquez, aos 34’/2T); Cristiano Ronaldo e Karim Benzema (Gareth Bale, aos 23’/2T). Técnico: Zinedine Zidane.

Paris Saint-Germain
Alphonse Aréola, Daniel Alves, Marquinhos, Presnel Kimpembe e Yuri Berchiche; Giovani Lo Celso (Julian Draxler, aos 39’/2T), Marco Verratti e Adrien Rabiot; Kylian Mbappé, Edinson Cavani (Thomas Meunier, aos 21’/2T) e Neymar. Técnico: Unai Emery.