Pelé e o Argentino

Bonzinho, Pelé tira foto com argentino e elogia torcida rival. Mas alfineta Messi

Logo depois que o Brasil bateu a Itália nos pênaltis e conquistou a Copa do Mundo de 1994, nos EUA, a câmera focou em Pelé. Tentou, na verdade. Ao lado de Galvão Bueno, Pelé pulava, mexia os braços, se emocionava. Pelé estava descontrolado, tão ensandecido que desafiou qualquer tentativa de enquadramento. Os gritos de “É Tetra!!! É Tetra!!!” se tornaram um clássico, repetidos ao longo dos anos como o ápice da felicidade futebolística. Não sei como foi ver Pelé jogar, mas ouvi-lo comentar o Mundial de 1994 foi maravilhoso. Pelé era o GIF animado antes da popularização do GIF animado.

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Por isso, quando a Emirates, a companhia aérea que patrocina o Mundial, me convidou para ver o jogo entre Argentina e Suíça ao lado de Pelé, a resposta só poderia ser um “mas é claro que sim”. A partida das oitavas-de-final foi a única que ele viu nos estádios até agora (ele tem preferido ver o jogo na Casa Pelé, um espaço VIP no estádio do Morumbi). Seria um jogo da Argentina, num estádio cheio de argentinos cantando que Maradona é muito maior do que ele. Eu esperava um Pelé empolgado, torcendo pela Suíça, secando Messi, provocando os argentinos. Acabei encontrando um Pelé (ou o Edson) numa versão paz e amor, tranquila.

“Viu como eu sou bonzinho? Não sou mau. Duvido que o Maradona faria isso com um brasileiro”, comentou Pelé, rindo, logo depois de ter tirado foto ao lado de um argentino – e a pedido do argentino. Foi lá, tirou a foto, apertou a mão do homem. Em seguida, posou para mais uma sessão de fotos com ingleses, japoneses, espanhóis, americanos e brasileiros. Quando a partida começou, pediu às pessoas, com calma, rindo. “Agora eu vou ver o jogo e namorar um pouquinho. Falamos no intervalo.”

Argentinos em Itaquera

Estreia na Copa: o primeiro jogo de Pelé no estádio, nesta Copa, foi justamente na partida da Argentina (Foto: Leandro Beguoci)

Apaixonadão, ele mostrava jogador a jogador para a namorada, a empresária Marcia Aoki. Explicava por que cada um deles era importante, analisava o papel deles na partida e o movimento que cada um fazia no gramado. “O Messi é o número 10, o baixinho. É muito difícil tirar a bola do pé dele, a bola está sempre juntinho do pé, juntinho. Entende?”. Quando Messi emendou uma sequência de dribles, levantando a torcida argentina, Pelé se rendeu.

- A torcida da Argentina é realmente impressionante.
Ficou uns minutos em silêncio. Depois, emendou, reflexivo.
- A torcida brasileira está muito mal acostumada. Se não faz um gol logo, fica impaciente e começa a vaiar.

Hulk pode ser o novo Jairzinho?

Pelé olha para o futebol com os olhos da sua geração. Quando analisa a seleção, compara os atletas de hoje a Rivelino, a Tostão e a Jairzinho, seus companheiros na conquista do tricampeonato mundial, em 1970. Os esquemas táticos que ele usa para ver o jogo lembram muito mais os dos anos 70 e 80 do que os de hoje. Pelé quer ver pontas na seleção – um modelo que os times costumavam adotar nas décadas passadas.

Isso talvez explique porque ele continua insistindo em Robinho, que lembra um ponta à moda antiga e pelo qual Pelé nutre um carinho enorme pela relação que os dois têm desde as categorias de base do Santos. Ou por que acredita que Hulk pode fazer, em 2014, o que Jairzinho fez em 1970. Apesar disso, as suas conclusões são bem atuais, razoáveis. Por outros caminhos, Pelé chega às mesmas conclusões de quem nasceu em 1994: falta meio campo e ataque à seleção, justamente porque a safra não é lá essas coisas. “O grande problema do Brasil sempre foi arrumar o ataque”, disse ele. “Sempre teve muita gente, e era difícil tirar. Hoje, nós estamos com dificuldades de repor jogadores do meio de campo para a frente. Antes tínhamos dois ou três para cada posição.” E tinha opção? “Eu acho que Felipão deveria levar o Kaká, o Ronaldinho Gaúcho ou o Robinho. Entre os 23, um deles deveria estar lá.”


Veja a entrevista inteira de Pelé no vídeo

Apesar da sugestão, ele tem a preocupação constante de poupar a atual comissão técnica dos problemas da seleção. “Conversei com o Parreira por telefone. Em 1970, eu disse para ele, você não sabia onde colocar os atacantes. Agora, você procura um e não acha. O Parreira riu…” A antiga comissão técnica é a única que merece mais pancadas de Pelé. Ele acha que boa parte dos problemas da seleção se deve ao atual técnico do Corinthians, Mano Menezes.

“Os bons times da Copa estão juntos faz muito tempo. O nosso, não. Nós tivemos dois anos de Mano Menezes, e ele nunca fez um time. Cada excursão, por força dos empresários, cada excursão era um time. Eu falei isso. O time do Brasil não tem padrão. Só ficou o mesmo time, essa consistência, desde o Felipão. No torneio de um mês, na Copa, é muito difícil acertar.”

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Mas ele mantém as esperanças. Ele acha que, mesmo dentro do atual elenco, há algumas alternativas. “Nós temos hoje, na seleção, o Hulk. Ele não é muito diferente do Jairzinho na seleção de 1970. O Jairzinho ficava na frente e eu e o Rivelino voltávamos para fazer a jogada. O Hulk poderia fazer esse papel de centroavante. Ele arranca. O Fred, depois da contusão, está muito parado ali na frente. Você precisa de caras mais rápidos lá”, comentou. Já sobre o meio-campo, ele segue a linha de que é preciso povoa-lo.“O Hernanes é um jogador que seria opção no meio campo. O William também. O Neymar, agora, começou a vir mais para o meio. O Neymar precisa vir mais para o meio, não pode ficar só na ponta.”

Já sobre o (des)preparo psicológico, ele se limita a dizer que a pressão não era nenhuma novidade – nem para os jogadores nem para ninguém. “Ia ter essa pressão. É normal. É a pressão de ter de ganhar de qualquer jeito, em casa.”

Jogadores consolam Hulk após perder o pênalti (AP Photo/Frank Augstein)

Jogadores consolam Hulk após perder o pênalti (AP Photo/Frank Augstein)

A Copa
Depois de ter falado sobre a partida e sobre a seleção, Pelé ficou olhando para o novo estádio do Corinthians. Era a primeira vez dele na arena. O camarote, onde ele estava, tinha capacidade para 12 pessoas, cheiro de novo e uma vista perfeita para o gramado. Aprovado – com uma exceção.

- É muito bonito. Gostei. Mas acho que as pessoas lá de cima, da arquibancada provisória, não veem muito o jogo, não…

A avaliação dele sobre o estádio lembra a avaliação dele sobre a Copa: aprovação sem muita convicção. Ele resiste em definir o torneio no Brasil como a Copa das Copas, o slogan defendido pelo governo federal – e que vem, de certa forma, sendo chancelado nas avaliações de torcedores. “Pelos números, essa Copa está sendo maravilhosa. Mas, até a hoje, a Copa mais maravilhosa que eu vi foi a de 1998, que o Brasil perdeu, infelizmente.”

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Ele também evitou se render às estrelas do torneio de 2014. Parece pouco impressionado com a Colômbia, por exemplo: “A única surpresa, para mim, foi a Holanda. Na América do Sul, o Chile e a Argentina estavam muito bem. Na Europa, a Alemanha e a Espanha. A única surpresa negativa foi a Espanha”. A mesma cautela ele usa ao falar dos jogadores. “James Rodriguez [meio campo da Colômbia e atual artilheiro da Copa] ainda não se pode citar entre os melhores… É uma revelação. A surpresa para mim é o Robben. Eu achei que ele estava mais tranquilo…”

“Maradona és mas grande que Pelé”

A obsessão argentina na partida contra a Suíça – em qualquer uma, na verdade – é dizer que Maradona foi maior do que Pelé. O brasileiro ficou na dele no estádio. Ele poderia ter ido até a ponta do camarote e ter feito uma saudação para os torcedores que estavam logo abaixo dele. Porém, preferiu a tranquilidade da poltrona e os comentários para Marcia. Melhor tirar fotos com argentinos do que ser ofendido por eles, no final das contas…

Pelé só abandonou a diplomacia quando a eterna comparação veio à tona. E ai sobrou uma alfinetada para Messi. “Desde o começo da minha carreira foi assim. Os argentinos são assim. Di Stéfano, Maradona, Messi… Vamos ver quem são os próximos. Ah, e o Messi não faz gol de cabeça. Ele não fez nenhum, né?”

Pelé autografa camisetas no camarote da Emirates

Pelé autografa camisetas no camarote da Emirates: ele é garoto-propaganda da empresa aérea que patrocina a Copa (Foto: Leandro Beguoci)

Pelé teve de ir embora pouco antes do final do segundo tempo. Ele não viu a prorrogação e, portanto, não estava no estádio para testemunhar a assistência de Messi para o gol de Di Maria – que lembrou um tanto a que o próprio Pelé deu para Carlos Alberto Torres na final da Copa de 1970. Parecia cansado, precavido. Faz sentido. Afinal, Pelé é um senhor de 73 anos. Não é mais o menino ingênuo de 17 anos que encantou o mundo em 1958. No final de 2012, passou por uma cirurgia complicada no quadril. Teve de usar andador, mas hoje caminha sem dificuldades. Ele não é o Pelé vigoroso que encantou meus pais e meus avós, mas também não é o velho gagá que sai empilhando bobagens. É uma pessoa que, tal como tantas outras neste mundo, tem fases boas, fases ruins – e às vezes elas duram muito tempo e fazem estragos terríveis na imagem dele (não é preciso citar todas as bobagens que Pelé já fez e já disse…).

Nesta terça, em Itaquera, ele me lembrou o personagem Jep Gambardella, no maravilhoso filme italiano “A Grande Beleza”, que venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano. Gambardella entra em crise logo depois da sua enorme festa de aniversário, na qual celebrou seus 65 anos. O filme é uma grande reflexão sobre a passagem do tempo e sobre a melancolia – o que resta a fazer, afinal, depois que tudo parece já ter sido visto e bem vivido?

Pelé parecia viver uma mistura de sentimentos contraditórios enquanto via Argentina e Suíça: era Copa, era Argentina, tudo em casa. Era o rei do futebol assistindo a um jogo de Copa do Mundo em sua casa. Não deve ser fácil conciliar essas preocupações com trocentos mil compromissos comerciais e a eterna cobrança para ser o rei do futebol em tempo integral. Não sei o que se passa pela cabeça de Pelé – mas talvez ele tenha entrado numa fase em que tem preferido a cautela à fanfarronice. A conferir…

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