A cada jogo do Eibar pelo Campeonato Espanhol, o acanhado estádio de Ipurúa abria seus portões a dezenas de japoneses. A cidadezinha de 27 mil habitantes no País Basco virou ponto turístico aos fanáticos por futebol no Extremo Oriente, e por uma razão bem clara: Takashi Inui. Parceiro de Shinji Kagawa nos tempos de Cerezo Osaka, o ponta tomou o mesmo rumo do camisa 10 e partiu ao futebol alemão, defendendo Bochum e Eintracht Frankfurt. Mas nada comparado à idolatria que recebeu na Espanha ao longo das últimas três temporadas. Foi fundamental nas dignas campanhas dos nanicos a partir de sua chegada à elite. De tão aclamado, acompanhou até a realeza espanhola em uma homenagem organizada pelo governo japonês. Um embaixador do futebol nipônico, que se sobressai na Copa do Mundo. Se os Samurais Azuis extrapolam os prognósticos, precisam agradecer bastante ao camisa 14.

Embora faça parte da geração de Shinji Kagawa, Shinji Okazaki e Keisuke Honda, Inui está longe do renome de seus companheiros. Sua própria trajetória na seleção japonesa é bem mais modesta. Convocado a partir de 2009, o ponta não teve grandes sequências na equipe nacional e ficou de fora das duas últimas Copas do Mundo. Até disputou a Copa das Confederações em 2013 e a Copa da Ásia em 2015, em chances esparsas. Só se afirmou ao longo dos últimos meses, mesmo sem ser um novato. A fase do Eibar, afinal, auxiliava nesta exposição. E o rodado jogador de 30 anos confirmaria seu lugar entre os titulares para o Mundial de 2018 durante os amistosos preparatórios.

Inui já tinha sido um dos melhores do time na estreia contra a Colômbia. Apareceu bastante durante a partida, ajudando na criação e na conclusão das jogadas. Que não tenha participado diretamente com gol ou com assistências, o ataque nipônico pendia à ponta esquerda. Já neste domingo, o camisa 14 foi ainda melhor. Comandou a pressão dos Samurais Azuis durante parte do duelo contra o Senegal e permitiu que seu time buscasse o empate por 2 a 2. No primeiro tempo, aproveitou o passe de Yuto Nagatomo para finalizar com categoria, anotando o primeiro gol de sua equipe. Já na etapa complementar, se o travessão impediu a virada em chute caprichoso do atacante, ele daria o passe para Honda fechar o placar.

Nestas duas primeiras rodadas, Inui acaba como um retrato desta seleção japonesa. Um jogador sem badalação, mas participativo e eficiente. É o que se viu nestes jogos dos Samurais Azuis, sem sentir grandes responsabilidades na competição, com boa cadência no meio-campo e capacidade na criação. Não fossem algumas chances perdidas contra Senegal ou as falhas da defesa, a sorte poderia ser melhor. Além de Inui, aliás, outros nomes se destacam. Yuya Osako perdeu um gol feito neste domingo, mas abriu espaços e fez o setor ofensivo funcionar. Já no meio, muito equilíbrio com Gaku Shibasaki e Makoto Hasebe.

O sucesso de Inui, por fim, representa uma grande superação. O ponta chegou ao Eibar sem falar uma palavra sequer em espanhol ou inglês, com sua esposa e seu filho vivendo em Tóquio. Três anos bastaram para que a ‘Takashimania’ se instaurasse na cidade basca. O pequeno clube passou a ter a terceira maior audiência de um time espanhol na televisão japonesa (atrás apenas de Real Madrid e Barcelona), bem como três setoristas dos principais jornais nipônicos passaram a acompanhar todas as partidas da equipe. Fundou-se até mesmo uma torcida do Eibar em Tóquio e o clube se aproveitou da exposição, com acordos comerciais e experiências no Extremo Oriente.

O futuro de Inui após a Copa, porém, não se dará em Ipurúa. O ponta já acertou sua transferência ao Betis. A peña basca em Tóquio prometeu que não abandonará o Eibar, mas é de se imaginar que o fluxo de turistas se redirecione à Andaluzia. O japonês terá a chance de atuar em um time com melhores perspectivas e classificado à próxima edição da Liga Europa. Pelo que tem feito nesta Copa do Mundo, deverá ser ainda mais adorado pelos compatriotas e colocar o Estádio Benito Villamarín nas rotas de turismo boleiro pela Europa.