O Japão chegou à sua sexta Copa do Mundo sabendo que, na Rússia, poderia não ter perspectivas tão boas quanto em outras ocasiões. Em alguns dos Mundiais passados, os Samurais Azuis contaram com jogadores mais talentosos, ou times mais embalados, ou mais estabilidade. Os nipônicos vinham de um ciclo um tanto quanto conturbado, com mudança de técnico meses antes do torneio, queda de rendimento de protagonistas e uma grande interrogação quanto ao estilo de jogo. Problemas que, quatro jogos depois, servem agora apenas para exaltar a campanha imensa feita pela seleção japonesa na Copa de 2018. De quem não se esperava tanto, o time de Akira Nishino fez demais. Protagonizou três ótimas atuações e apresentou um estilo de jogo mais leve, como se pedia. Não é a derrota no último instante para a Bélgica que apaga o desempenho excelente. Afinal, este time merece ser considerado entre os melhores que o Japão já teve, e com virtudes que outros badalados não exibiram.

Quando desembarcou na Rússia, o Japão era visto como um azarão no Grupo H, o mais equilibrado da Copa. Não tinha jogadores renomados ou bons resultados recentes que servissem de referência, se comparados aos oponentes. Quando a bola rolou, porém, os nipônicos se provaram. A partida contra a Colômbia acabou condicionada pela expulsão de Carlos Sánchez, é verdade, mas os japoneses mantiveram sob seu controle o duelo contra um dos favoritos. Dominaram o meio-campo com autoridade, criaram oportunidades de gol, souberam abafar a resposta dos cafeteros. O triunfo por 2 a 1 era condizente com a superioridade dos Samurais Azuis, e dava um belo impulso à sequência do Mundial.

Diante de Senegal, dificuldades, mas outra partida boa do Japão. O time teve problemas principalmente durante o primeiro tempo, quando os senegaleses investiam pelas pontas. No entanto, souberam escapar da desvantagem física e fazer um segundo tempo maiúsculo, buscando o resultado e criando oportunidades até mesmo para vencer. Não fosse a falta de precisão do ataque em alguns momentos, a sorte dos nipônicos seria maior. Por fim, no último compromisso, Akira Nishino arriscou. Poupou mais da metade de seu time, quase todos do meio para frente, ao pegar a Polônia. Os nipônicos tiveram uma boa postura até os 25 minutos do segundo tempo, criando também as suas chances e jogando de igual. O problema veio depois, quando ficaram a um gol da eliminação, e preferiram abdicar do ataque, sobretudo no fim. Contudo, 20 minutos de passividade não poderiam negar 250 de superação. E o duelo contra a Bélgica serviu para os Samurais Azuis mostrarem os seus méritos novamente.

Durante o primeiro tempo, o Japão não se acuou. Encarou os Diabos Vermelhos sem se retrancar, teve o controle da partida em bons momentos, deu suas escapadas ao ataque. Exibia um bom toque de bola, cadência e movimentação, algo que se viu também na fase de grupos. Tirando um certo período de pressão da Bélgica, mas sem oportunidades tão claras assim, os nipônicos não ficaram devendo aos seus oponentes e até exibiam certo conforto com a situação. Isso até que viessem os sete minutos mais fantásticos do futebol japonês em Copas, logo na volta para a etapa complementar.

O contra-ataque que resultou no primeiro gol foi perfeito e, mais do que isso, deixou em evidência jogadores importantes na campanha. Takashi Inui roubou a bola e passou a Gaku Shibasaki. O volante percebeu o avanço de Genki Haraguchi e lançou. Contou com a complacência de Jan Vertonghen, mas também a inteligência e a categoria do ponta, que mudou a passada para enganar o zagueiro e chutou no cantinho. Já no segundo tento, que se pese a passividade dos belgas, sobrou qualidade. Primeiro, a Shinji Kagawa na preparação da jogada, com excelente controle de bola para aproveitar a sobra. Depois, a Inui, acertando um chute fantástico de fora da área, sem chances de defesa a Thibaut Courtois. Diante do baque, os Diabos Vermelhos passaram bons minutos perdidos em campo, com os asiáticos jogando com uma facilidade impressionante.

O sonho japonês ruiu contra um adversário realmente superior por suas peças. Mas que precisou se valer da força física e da altura de seus jogadores para arrancar o empate. E que a Bélgica fosse para o abafa, as respostas dos nipônicos eram menos numerosas, mas sempre perigosas, com Courtois salvando. Já no final, os Samurais Azuis foram com mais sede ao pote do que deveriam no último escanteio. Em vez de segurarem a prorrogação, preferiram apostar no lance definitivo e viram ele se reverter em contra-ataque mortal. Apesar destes deslizes, coletivamente o Japão fez uma atuação grandiosa. Não se retrancou contra o favorito e a vitória esteve ao seu alcance durante todo o tempo. Cai em pé.

Na entrevista coletiva após o jogo, o técnico Akira Nishino falou em perspectiva: “Quatro anos atrás, no Brasil, não nos classificamos para as oitavas de final e todo o futebol japonês lembrava a maneira como perdemos para a Colômbia na terceira partida. Por quatro anos treinamos duro e encaramos a Colômbia na estreia. Estávamos determinados para ter a vingança. Há oito anos, fomos à prorrogação e aos pênaltis, então estávamos determinados a ir além agora. Queríamos que nosso time tivesse uma mentalidade diferente à do passado e acho que fomos bem sucedidos. Mas talvez alguma coisa esteja faltando, então temos mais quatro anos para tentar dar a volta por cima”.

“Todos nós queríamos vencer. Nosso time é forte o suficiente e pudemos jogar de igual com a Bélgica. Eu tinha planos diferentes e jogamos bem, mas no instante final tomamos um gol que não esperávamos. Quando abrimos vantagem e não mudei a postura dos meus jogadores, realmente queria marcar o terceiro gol e tivemos oportunidades para isso. Controlávamos a bola e o jogo, mas a Bélgica se recuperou quando precisava. Ao final, queríamos decidir e acabar com o jogo. Logicamente, pensei que poderíamos ir à prorrogação, mas eu e meus jogadores não imaginávamos esse tipo de contra-ataque. Decidiu o jogo”, finalizou o treinador.

Individualmente, há vários jogadores que merecem elogios. Dois deles, em especial, provavelmente estariam em um “elenco ideal” da Copa até o momento. Shibasaki jogou uma enormidade na cabeça de área. O volante foi um dos principais responsáveis por oferecer o dinamismo ao time e fazer com que o meio-campo tivesse tanto controle sobre as situações. Não ficou todo o tempo em campo contra a Bélgica, mas foi um dos melhores da partida, pela assistência e pela organização. O Getafe deve ficar pequeno ao camisa 7 na próxima temporada. Mais à frente, Inui merece ser lembrado como um dos jogadores mais decisivos desta geração. O ponta fez um pouco de tudo neste Mundial e concentrou boa parte das chances de gol dos nipônicos. Era a bola de confiança no ataque. A pintura contra os belgas é o complemento perfeito ao desempenho brilhante. Se já era adorado antes da competição, com três jornalistas o seguindo no futebol espanhol e dezenas de compatriotas o visitando nas arquibancadas do Eibar, a peregrinação deverá aumentar rumo ao Betis.

Além deles, outros tantos tiveram desempenhos importantes no torneio. Haraguchi voou e foi muito voluntarioso pela direita. Kagawa não foi o craque de outrora, mas contribuiu com sua visão. Keisuke Honda participou bem a partir do segundo tempo, sem estrelismos pelo banco. Yuya Osako abriu espaços e se movimentou demais no ataque, embora não seja um definidor nato. Makoto Hasebe deu estabilidade ao meio com sua segurança e experiência. Hiroki Sakai foi um lateral constante, apesar do erro contra Senegal. E principalmente nesta segunda, Maya Yoshida se agigantou no miolo de zaga. A sobrevida dos japoneses na noite agônica contra a Bélgica se deve demais ao camisa 22. Não deixou Romelu Lukaku se criar, fez um punhado de intervenções decisivas dentro da área, travou chutes perigosos. Mandou no retângulo fazendo o simples, com muita precisão. O melhor dentre todos os que estiveram em campo, apesar da derrota.

Esta é uma geração japonesa que chega próxima ao seu limite. A base titular gira por volta dos 30 anos de idade, com o zagueiro Gen Shoji sendo o mais jovem do 11 inicial, aos 25 anos. Ainda assim, a trajetória na Rússia, que poderia providenciar a última chance a muitos, merece ser lembrada. Este Japão igualou o seu melhor desempenho na história das Copas, com a terceira aparição nas oitavas de final. Diferentemente do que aconteceu em 2002 e em 2010, não se esperava tanto quanto se tornou. Os antecessores talvez contassem com mais talento à sua disposição. A competitividade do time atual, todavia, é espantosa. A mentalidade de não temer e encarar qualquer adversário nos olhos, jogando quase sempre para frente. Não é a exceção contra a Polônia que rompe isso.

Uma pena que, ao Japão, as oitavas de final sempre signifiquem um drama. Em 2002, um gol no início decretou a frustração contra a Turquia, diante da própria torcida. Em 2010, a tristeza veio nos pênaltis contra o Paraguai. Agora, os 30 segundos que custaram 30 minutos a mais de luta. Os Samurais Azuis despedem-se como a melhor seleção asiática da Copa do Mundo de 2018, fazendo valer tal rótulo pelos resultados. E ainda oferecem um motivo de digno orgulho aos torcedores japoneses.