O Peñarol atravessou um primeiro semestre frustrante. A principal marca negativa aconteceu no torneio que tanto significa ao passado carbonero, a Copa Libertadores. Os aurinegros terminaram na lanterna de seu grupo, em campanha manchada pela vergonhosa confusão contra o Palmeiras. No Apertura do Campeonato Uruguaio, os manyas também estiveram distantes de ser competitivos, sem alcançar o Defensor. Já o fundo do poço foi atingido nos primeiros dias de julho, no Torneio Intermédio, que ocupa o calendário uruguaio durante o inverno. No duelo que poderia levá-lo à final, o Peñarol perdeu em casa para o Defensor, com requintes de crueldade. Tomou a virada quando tinha um jogador a mais e, mesmo com dois a mais durante a meia hora final, não conseguiu recobrar o prejuízo. Ficava difícil imaginar algo pior.

O baque, no entanto, acabou sendo um ótimo remédio ao clube. Pressionado, o técnico Leonardo Ramos seguiu em frente. Já a diretoria investiu em contratações para que o comandante proporcionasse a reviravolta. E ela realmente aconteceu no segundo semestre. Primeiro, o Peñarol sobrou no Clausura. Depois, venceu o jogo extra contra o Defensor. E, neste domingo, na definição do campeonato, se sagrou campeão uruguaio de 2017. Conquista que traz novos ares ao Estádio Campeón del Siglo.

Desde agosto, com o início do Clausura, o Peñarol teve um desempenho verdadeiramente irrepreensível. Os aurinegros venceram 14 das 15 partidas do torneio. A única derrota aconteceu para o River Plate de Montevidéu, em novembro, mas pouco atrapalhou a caminhada soberana. Os carboneros não deixaram pedra sobre pedra, passando por cima inclusive do Nacional, com vitória por 2 a 0 no clássico. Já o Defensor, que poderia sonhar com a conquista antecipada, caso unificasse as duas coroas, teve que se contentar com a segunda posição no Clausura, nove pontos atrás dos manyas.

O regulamento do Campeonato Uruguaio, entretanto, proporcionou uma série de embates entre os dois clubes. A princípio, o vencedor do Clausura e o vencedor do Apertura se enfrentariam na semifinal de uma liguilla, antes de pegarem na decisão o melhor time da tabela anual. O problema é que Defensor e Peñarol terminaram igualados com 86 pontos na tabela anual, forçando um jogo extra para se decidir o melhor. No meio de semana, os dois se digladiaram e carboneros se deram bem. O gol tardio de Cristian Rodríguez, definindo a vitória por 1 a 0 aos 48 do segundo tempo, os confirmou no topo anual.

Assim, neste domingo, Peñarol e Defensor disputaram a semifinal da liguilla. E por terem se afirmado como os melhores da tabela anual, os manyas ficariam com a taça em definitivo caso batessem seus adversários no Estadio Centenario. Foi um jogo tenso, com poucos lances de perigo. O placar zerado se manteve mesmo na prorrogação. A decisão ficaria para os pênaltis, que consagrariam os aurinegros ou dariam uma sobrevida aos violetas. Porém, Joaquín Piquerez e Héctor Acuña desperdiçaram duas cobranças para o Defensor. Com a vitória por 4 a 2, o Peñarol voltou a colocar a faixa no peito.

Este é o 51° título nacional do Peñarol, se forem considerados também os tempos como Central Uruguay Railway Cricket Club, que deu origem aos carboneros. Depois de anos pouco férteis na virada do século, os manyas voltaram a se recuperar nesta década, enfileirando sua quarta taça desde 2010. O troféu anterior tinha vindo em 2015, com o rival Nacional rindo mais alto em 2016.

Campeão com o Danubio em 2014, Leonardo Ramos retribui a confiança depositada pela diretoria nos momentos mais difíceis. E também faz reluzir o investimento realizado nos últimos meses. O elenco do Peñarol é caro para os padrões do país, especialmente pela quantidade de jogadores rodados no grupo atual. Cebolla Rodríguez aparece como uma das principais lideranças desde o primeiro semestre, recuperando uma boa sequência que não tinha desde os tempos de Atlético de Madrid. Anotou 15 gols em 28 jogos. Mas também recebeu companhias para dividir as responsabilidades à frente dos carboneros.

Um nome que merece os aplausos é o de Maxi Rodríguez. O craque argentino fez muito em seu retorno ao Newell’s Old Boys, mas convivia com as desmedidas críticas nos últimos meses, o que o levou a buscar novos ares em Montevidéu. Precisou de pouco tempo para cair nas graças da torcida, com sete gols em 14 partidas. Além dele, outro argentino que deixou sua marca foi o atacante Lucas Viatri. E o Peñarol ainda apostou na repatriação de diversos atletas com passagens pela seleção, a exemplo de Matías Corujo, Guillermo Varela e Walter Gargano. Fabián Estoyanoff e Cristian Palacios, que estavam amontoando gols em outros clubes locais, também voltaram.

Embora não tenha se consumado lá, este é o primeiro título da era ‘Campeón del Siglo’. E o Peñarol realmente confia que seu novo estádio fará a diferença para restabelecer o clube nos próximos anos. O passo seguinte, agora, é reconstruir a imagem manchada além das fronteiras. Os carboneros podem não figurar entre os favoritos, mas provavelmente aprenderam bastante sobre o que ocorreu na Libertadores 2017. Se as renovações no atual elenco acontecerem, há uma tarimba muito maior para encarar os desafios internacionais. Como disse Leonardo Ramos depois do título, o desejo é disputar objetivos maiores no torneio continental. Por aquilo que se apresentou no Clausura, dá para esperar ao menos um pouco mais de competitividade.