Mano Menezes tem um bom currículo, mas não combinou com o Flamengo

[Especial] Perfil do treinador é tão importante quanto o currículo para o casamento com o clube dar certo

Colaboração de Leandro Stein e Pedro Venancio

Mano Menezes é um bom técnico, que vinha de trabalhos convincentes por 15 de Campo Bom, Grêmio, Corinthians e até na Seleção. Mas travou no Flamengo. Depois de um começo promissor, perdeu o rumo e deixou a Gávea sem conseguir passar aos jogadores o que pensa sobre futebol. A personalidade mais fria do gaúcho não casou com um clube que tem um histórico de se dar melhor com treinadores mais emotivos, próximos dos atletas, como Jayme de Almeida, Joel Santana e Andrade, por exemplo. Desmérito de nenhum dos lados porque, além da competência, a combinação dos perfis do treinador e do clube é muito importante.

Não adianta contratar um professor que se destacou na carreira, mesmo que vencedora, por montar equipes defensivas se os jogadores do elenco são especialistas no toque de bola. Do mesmo jeito, se o clube tem um histórico de times aguerridos e vibrantes, um treinador que gosta de montar times mais fluidos pode ter dificuldades para ganhar a confiança da torcida.

Ter um elenco com características que se encaixassem com o sistema de jogo preferido do técnico teria sido um dos grandes acertos do Cruzeiro para conquistar o Brasileirão no ano passado. É a opinião do diretor de futebol Alexandre Mattos. “Esse era o perfil que buscávamos por entender que era o futebol que gostamos de ver, as raízes do Cruzeiro, de montar equipes agressivas e ofensivas em sua essência, e conseguimos colocar isso em prática”, diz.

O Figueirense seguiu a mesma linha na Série B. Vinícius Eutrópio havia trabalhado no Fluminense e em Portugal, mas não foi isso que chamou a atenção do clube catarinense. O diretor de futebol Rodrigo Pastana, que assumiu o cargo cerca de 20 dias depois da contratação de Eutrópio, acha o perfil do treinador importantíssimo e disse que a experiência do mineiro de 47 anos como coordenador das categorias de base do Atlético Paranaense agradou a diretoria. “Ele tem experiência para lidar com vários atletas, desde os que estão subindo dos juniores, fazendo a transição, até os mais experientes, que precisam sempr e estar motivados”, explica.

Paulo Angioni viveu duas realidades diferentes como dirigente. Administrou um rico departamento de futebol no Corinthians e no Palmeiras e um mais modesto no Bahia. Descobriu que nem todos os técnicos são adequados para todos os clubes e busca aqueles que se adequem à situação financeira disponível.

“Acho que o futuro do futebol brasileiro é os times entenderem que cada técnico tem um perfil que se encaixa melhor em algumas equipes”, afirmou Vágner Mancini, ex-técnico do Atlético Paranaense.

E vice-versa
Falcão conseguiu um título estadual para o Bahia depois de 11 anos

Falcão conseguiu um título estadual para o Bahia depois de 11 anos

A responsabilidade não pode ser apenas dos clubes. Antes de aceitar uma proposta, os treinadores deveriam avaliar se as suas ideias encaixam com as do futuro empregador. E se a resposta for negativa, ter jogo de cintura para adaptá-las ao que vai encontrar.

Antes de assumir o Atlético, Vágner Mancini analisou o elenco que teria à disposição para descobrir se havia condições para fazer um bom trabalho. “Sabia que tínhamos jogadores que poderiam atuar de uma forma que fizesse juz aos torcedores e à história do Atlético” disse. “Eu entendi como o Atlético jogava como a torcida queria vê-lo em campo. Quando um técnico chega a um clube, tem que ter a capacidade de analisar o perfil daquele clube”.

Paulo Roberto Falcão conseguiu levar o Bahia ao título estadual pela primeira vez em 11 anos e saiu de Salvador com o reconhecimento da torcida. A relação, que a princípio parecia estranha, terminou bem. O segredo? Adaptar-se aos jogadores que teve à disposição e à ideia de time que o clube esperava que ele fosse montar. “Você tem que conhecer a história do clube, como que essa história foi criada, a característica desse time”, disse.

O outro lado também precisa compreender que às vezes as condições fornecidas não permitem que isso seja feito. “Se os jogadores contratados forem para um time de posse de bola, e o time se destacou pela raça, marcação, você vai ter dificuldades. Vai precisar adaptar o time a jogar com as características dos jogadores que tem na mão”, explicou.

Por isso, Geninho acredita que o treinador precisa ser “um pouco maleável”. A combinação de perfis ajuda, mas não é fundamental, porque o profissional nunca vai conviver com dois clubes iguais, seja em questão de estrutura ou de expectativa. É necessário se adaptar às diferentes situações.

“Você vai conviver com clubes de massa, com a presença forte da torcida, clubes mais elitizados, clubes de colônia, que são sempre difíceis e têm torcedores muito exigentes. O Corinthians é um clube de raça, de pegada, e você tem que montar um time dentro desse perfil. Tem gente que não consegue”, disse o ex-técnico do Corinthians, que em 2003 gritou “pega, pega, pega” para que o lateral Roger Guerreiro marcasse D’Alessandro, do River Plate.

Em dezembro de 2005, o Fluminense conduziu um processo seletivo para contratar um novo treinador. Entre os entrevistados, estavam Nelsinho Baptista, Oswaldo Alvarez, Oswaldo de Oliveira, Tite e Levir Culpi e quem ganhou foi Ivo Wortmann. A experiência dele nas Laranjeiras durou seis jogos e dois meses porque a ideia foi muito mal executada, mas fazer uma seleção que vá além de uma rápida batida de olho no currículo é um jeito interessante de descobrir se o casamento vai dar certo. No entanto, na maioria das vezes, os clubes querem apenas um nome forte para segurar a bronca nos períodos mais difíceis, o que resulta em divórcios previsíveis.