Paolo Guerrero disputará a Copa do Mundo. A frase que a maioria esmagadora da torcida peruana – e dos aficionados por futebol em geral – gostaria de escutar, enfim, ganhou as manchetes quando realmente parecia impossível torná-la afirmativa. O fio de esperança do atacante estava na justiça comum da Suíça, para que pudesse reverter a determinação do Tribunal Arbitral do Esporte, instância máxima em casos como este. Pois a brecha jurídica acabou sendo a salvação do veterano. Nesta quinta-feira, veio a boa notícia. A corte suíça concedeu o efeito suspensivo nos 14 meses de punição aplicados pelo TAS, que permitirão ao peruano se juntar à sua seleção e disputar o Mundial. Vitória da esperança alimentada pelo capitão e por seus compatriotas.

“O efeito suspensivo, requerido por Paolo Guerrero e garantido pelo presidente da I Divisão Civil da Corte Federal, assegura um efeito suspensivo superprovisório à apelação do futebolista peruano Paolo Guerrero contra a decisão ainda não resolvida do Tribunal Arbitral do Esporte (TAS). O aumento da punição do TAS de seis para 14 meses por quebrar o regulamento anti-doping da Fifa, por ora, não tem efeito”, diz o comunicado oficial do Tribunal Federal da Suíça. “Como consequência, Paolo Guerrero estará presente na próxima Copa do Mundo da Fifa, que será na Rússia, de 14 de junho a 15 de julho de 2018”.

Diante da notícia, o próprio TAS declarou oficialmente que não tentará impugnar o recurso de Guerrero na justiça comum da suíça. Resta saber qual a postura da WADA, a Agência Mundial Anti-Doping. Quando o TAS aumentou a pena do peruano, dos seis meses iniciais para os 14 meses recentes, ele julgava não apenas o recurso do atacante para reduzir sua pena, mas também um pedido da WADA para que ela fosse ampliada. O Tribunal Arbitral do Esporte, então, resolveu agir conforme a regulamentação da Fifa, que determina uma suspensão de 12 a 24 meses para atletas pegos no doping mesmo sem haver provas sobre o uso consensual da substância. Dentro disso, o TAS avaliou que 14 meses seriam cabíveis ao caso de Guerrero. Com a ação da corte suíça, é possível que isso abra uma jurisprudência para se discutir o real peso da regra determinada pela Fifa. De fato, analisando o que ocorreu com Guerrero, os 12 meses mínimos estabelecidos parecem um tanto quanto exagerados – o que o próprio presidente da entidade, Gianni Infantino, indicou em seus encontros com o veterano.

Obviamente, em um caso no qual tanta gente se envolveu diretamente pela absolvição, ela foi comemorada por diferentes personagens. Guerrero, que sempre defendeu sua falta de conhecimento sobre o uso da substância, alegadamente presente em um chá com a folha de coca, e sem provas que rebatam sua posição, publicou uma carta falando sobre a absolvição. Diz que o efeito suspensivo “faz justiça ao menos parcialmente” e agradece o julgamento feito pelo tribunal comum da Suíça. Também demonstra sua gratidão à federação peruana, aos companheiros de seleção e aos compatriotas, assim como ao presidente Gianni Infantino, aos capitães das três seleções adversárias na fase de grupos e à FifPRO.

“Minha gratidão eterna ao meu país, aos milhões de compatriotas que se uniram a mim, de milhares de maneiras diferentes, com um comum denominador: o carinho transbordado. Eu convido vocês a seguirem unidos e a entenderem, além de qualquer opinião diferente, que os peruanos unidos podemos conquistar qualquer coisa que pareça impossível”, escreve. “Minha batalha segue e meus advogados seguirão encarregados dela, a quem também agradeço. Eu me uno à minha seleção e aos meus companheiros, me comprometo a dar o maior de meus esforços para oferecer novas e maiores alegrias ao meu país. Já não há limites. Já não há sonhos impossíveis, porque está demonstrado que, quando nós peruanos nos unimos, tudo é possível”.

A federação peruana, por sua vez, também deu as boas vindas à decisão do tribunal suíço. O técnico Ricardo Gareca havia anunciado inicialmente uma convocação com 24 jogadores sem Guerrero e, nesta quarta-feira, fechara os 23 nomes que deveriam ir à Rússia – após o corte de Luis Abram. No entanto, realizar a alteração, caso a lista ainda não tenha seguido à Fifa, não parece o maior dos problemas. Pelo tom da entidade nacional, o veterano estará junto ao elenco na Rússia. Resta saber qual será a postura com o atleta excluído de última hora.

“Primeiro, queria compartilhar minha imensa alegria que Paolo tenha direito de disputar a Copa do Mundo. Esta alegria não é apenas pela federação peruana, mas por todo o povo peruano”, escreveu Edwin Oviedo, presidente da federação. “A federação e o Peru inteiro está muito contente. E que melhor maneira de unir a todo o país, através de uma notícia que nos alegra a todos os peruanos”.

Um ponto que resta de dúvida sobre o futuro de Guerrero, de qualquer forma, é o Flamengo. O atacante não cita o clube em nenhum momento de seu comunicado e, diante do “caráter superprovisório” do efeito suspensivo, a luta judicial deverá se seguir depois da Copa do Mundo. Vale lembrar que seu contrato com o clube vai até agosto de 2018. Não é de se descartar que, com a aparição no Mundial, assim como por toda a repercussão de seu caso, o peruano de 34 anos ganhe mercado em outros centros do futebol e opte por sua saída.

O pensamento agora, de qualquer forma, se volta à Copa do Mundo. Guerrero deverá se juntar ao elenco que já se prepara ao Mundial. O time de Ricardo Gareca, principalmente na repescagem e nos amistosos de março, havia demonstrado recursos para encarar o desafio na Copa do Mundo sem Paolo Guerrero. O acréscimo do capitão e artilheiro, ainda assim, não deixa de ser uma boa nova. A Albirroja ganha um jogador experiente para chamar a responsabilidade em momentos decisivos e resolver na base de sua capacidade individual. Entretanto, também fica claro que a equipe não precisa mais se condicionar ao jogo de seu centroavante, pelas outras capacidades que apresentou. Neste momento, o capitão surge como algo a mais. E também como uma enorme injeção de ânimo, por tudo aquilo que a absolvição provisória representa. Sem dúvidas, os peruanos se fortalecem.

O assunto esportivo, todavia, é o de menos neste momento. Há duas semanas de preparação até a estreia na Copa do Mundo, contra a Dinamarca. Neste momento, o principal está mesmo no lado humano, deixando questões de campo como um mero detalhe. O empenho e a vitória de Guerrero são o cumprimento de um sonho, de quem manteve as esperanças de disputar a Copa do Mundo de sua vida quando, atuando, talvez o Catar fosse uma missão ainda mais impossível (e incerta) ao centroavante. O Mundial da Rússia revigora uma de suas grandes histórias e, por ora, de uma maneira realmente feliz. Ter  o camisa 9 na Copa valoriza aquela parte que não se conta por placares ou por resultados. É a importância que apenas se sente, e não se limita a apenas um jogador, demonstrada várias e várias vezes nas últimas semanas por milhares de seus conterrâneos. A melhor parte da Copa do Mundo certamente ganhará com a presença de Guerrero, mesmo que ele não cause os efeitos esperados nas partidas. O Peru, como um todo, já ganhou uma grande alegria neste retorno ao torneio após 36 anos.