Quando deixou o Uruguai fora da Copa de 1982, esperava-se que o Peru pudesse aprontar naquela edição do Mundial. Todavia, a seleção alvirrubra dependia demais de uma geração que se preparava para dizer adeus (José Velázquez, César Cueto e Teófilo Cubillas já haviam passado dos 30 anos), e o esquema excessivamente ofensivo pensado pelo brasileiro Tim não colaborou. Os peruanos caíram na primeira fase. Desde então, esperam para reavivar sua história em Copas. Pois bem, a espera nunca esteve tão perto de acabar: com a vitória por 2 a 1 em pleno Olímpico Atahualpa, em Quito, a Blanquirroja chegou à quarta posição das Eliminatórias da América do Sul, entrando na zona de classificação direta para a Copa de 2018 – e mostrando vontade de não sair mais.

De certa forma, dá para dizer que os peruanos ganharam na capital equatoriana como vários outros países fizeram-no: apostando na cautela, de início. Principalmente nos chutes de fora da área. Aos sete minutos, Edison Flores chutou de longe, e Máximo Banguera espalmou para escanteio. Algum tempo depois, aos 28, Christian Cueva bateu colocado, assustando Banguera. Finalmente, aos 37, foi a vez de Paolo Guerrero arriscar, para novamente Banguera espalmar. No escanteio em sequência, o goleiro equatoriano saiu mal do gol, e só Cristian Ramírez impediu o gol peruano. De certa forma, tais lances mostravam o controverso destaque do goleiro do Equador: Banguera passa longe de ser seguro, mas, bem ou mal, dá um jeito de cumprir sua tarefa.

Ao Equador, restava impor mais velocidade com a bola nos pés para impedir mais um capítulo de sua queda célere nas Eliminatórias. Aos 10, Enner Valencia driblou dois pela esquerda, mas seu cruzamento foi interceptado. Aos 20, Juan Cazares cortou para a direita, arriscou, mas Carlos Caceda encaixou para defender. E aos 27, Jefferson Orejuela carregou a bola pela direita, mas seu cruzamento saiu forte demais. Ainda assim, assustou Caceda.

Mantido o 0 a 0 no primeiro tempo, o Peru partiu para o que lhe interessava na etapa final: vencer. Não teve dificuldades para impor sua capacidade técnica crescente. Logo aos cinco minutos, Guerrero tentou o cruzamento, mas Gabriel Achilier consertou o erro que cometera, chegando a tempo para o desarme. Na sobra, Renato Tapia arriscou de longe, forçando Banguera a ótima defesa. Aos 12, Guerrero teve grande chance para o gol: após erro da defesa equatoriana, Cueva cruzou, mas o camisa 9 chutou muito por cima.

De tanto bater na pedra dura que Banguera tentava ser, a água peruana virou gol, aos 29 minutos. Em nova tentativa de fora da área, Edison Flores arriscou. Serviu: Banguera falhou – poderia ter ido mais firme para a defesa -, e a bola balançou as redes para o 1 a 0 que empolgou os peruanos. Só para ampliar a empolgação, passou-se apenas um minuto para o segundo gol que fez explodir a pequena torcida peruana no Olímpico Atahualpa. Um gol que simbolizou o que o ataque peruano tem de melhor. A experiência de Guerrero, segurando a bola até o momento certo no contra-ataque. A vontade e a habilidade de Cueva, ao acompanhar a jogada, receber o passe, se enrolar um pouco, mas conseguir deixar a bola à feição. E o oportunismo de Paolo Hurtado, que acabara de entrar no lugar de André Carrillo, para tocar no canto direito de Banguera e marcar o gol que praticamente garantiu a vitória.

Houve espaço para sustos, ainda. Aos 36 minutos, Enner Valencia puxou a jogada do pênalti que sofreu, causando a expulsão de Christian Ramos. E o próprio camisa 13 equatoriano converteu a cobrança para diminuir a vantagem, iniciando a pressão dos mandantes, durante os nove minutos regulamentares restantes – e cinco de acréscimo. Mas veio a merecida vitória peruana. Merecida e histórica (primeira vitória peruana no Equador por Eliminatórias de Copa). Um triunfo que, além de ressaltar a reação constante sob o comando de Ricardo Gareca – reabilitando seu nome no cenário sul-americano -, mantém mais vivo do que nunca o sonho de reativar a história do Peru nas Copas do Mundo, após 36 anos.