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Peyroteo, a máquina de gols portuguesa que antecedeu Eusébio e Cristiano Ronaldo

Ele é visto como um dos maiores jogadores a vestir a camisa do Sporting, clube pelo qual foi revelado. Forte fisicamente e uma máquina de gols, tem uma ampla lista de recordes em seu nome. O atacante nascido na África fez fama em Portugal por devastar as defesas adversárias. Que possui números incríveis com a seleção lusa, além de ter ajudado seu clube a estabelecer uma dinastia no país por anos.

Bom, você não precisa ser perito em futebol português para duas lendas virem a sua cabeça: Cristiano Ronaldo e Eusébio. Enquanto a revelação sportinguista assombra o mundo por seus recordes e pela potência física, o craque moçambicano se eternizou pelas conquistas no país e pelos feitos com a seleção. Pois, ao invés de misturarem dois ídolos supremos, as descrições acima também podem se referir a apenas um mito: Fernando Peyroteo, o goleador português que nunca teve a chance de disputar uma Copa. Ao encerrar sua carreira em 1949 e com os tugas só estreando no Mundial de 1966, não teve a chance de mostrar ao planeta sua capacidade. Um matador com faro de gol suficiente para se aproximar de outros grandes nomes das primeiras Copas, como Stábile, Leônidas, Kocsis e Fontaine.

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Peyroteo saiu de Angola em junho de 1937, aos 19 anos de idade. Seguiu a Lisboa para acompanhar a sua mãe, que sofria um problema de saúde, e acabou recebido pelo amigo de infância Aníbal Paciência, jogador do sporting e que já sabia da fama de goleador de seu compatriota. Em seu país-natal, praticara ginástica, basquete, natação e boxe, entre outros esportes. Mas não apenas pela paixão por todos, e sim pelo vigor físico que apresentava. Chegou a ser visto em Portugal até mesmo com certa dúvida, já que, diferentemente dos melhores jogadores da época, era alto e robusto (tinha cerca de 1,90m). No entanto, tratou de eliminar qualquer hesitação do Sporting logo em sua primeira oportunidade com a camisa do time.

Sporting_Peyroteo

Em um jogo-treino, antes mesmo de acertar seu vínculo com o clube, Peyroteo começou sua história na equipe com três gols anotados. A atuação impressionou os dirigentes do time, que então acertaram sua contratação, sem caneta no papel. A palavra foi o suficiente para acertar a chegada do craque ao clube, no qual estabeleceu a primeira era vitoriosa.

Assim como em sua estreia pelo Sporting, Peyroteo teve impacto imediato no time, terminando sua primeira temporada com 34 gols marcados em apenas 14 jogos do Campeonato Português. A primeira partida profissional, em especial, foi memorável: clássico contra o Benfica e três bolas na rede, na vitória por 5 a 3. Os encarnados, aliás, foram os campeões daquele ano, e um número dos detentores do título ajuda a evidenciar a qualidade de Peyroteo: para ficar com a taça, o time fez 34 gols no campeonato, mesma quantidade que o goleador naquela que era sua temporada de estreia.

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A marca fantástica de Peyroteo em seu início no futebol não foi algo apenas circunstancial, que aconteceu por acaso. O atacante manteve durante toda a sua carreira médias invejáveis de gols por partida. É até hoje o maior artilheiro da história do Campeonato Português, com incríveis 331 gols em 197 jogos (média de 1,6 por partida). Em nenhum outro torneio nacional de primeiro nível um jogador conseguiu igualar esse número, e dificilmente haverá alguém que chega a marcas tão impressionantes.

Em toda sua carreira pelo Sporting, contando apenas partidas oficiais, fez 529 gols em 327 jogos, o que o coloca como o maior artilheiro da história do clube. Evidentemente, para atingir tal recorde, não bastou que balançasse as redes em todos os jogos. Era preciso massacrar os adversários frequentemente, e isso nunca foi problema para Peyroteo. Em 17 oportunidades, conseguiu marcar quatro gols em um só jogo. Um dos recordes mais destacáveis do goleador é também o de maior número de gols em uma única partida no futebol português: nove, na goleada por 14 a 0 sobre o Leça, na temporada 1941/42.

Cinco Violinos Sporting

Peyroteo fez parte da primeira grande safra de jogadores do Sporting. Ao lado de Travassos, Vasques, Jesus Correia e Albano, formou o setor ofensivo conhecido como “Os Cinco Violinos”. “Jogavam tão bem que pareciam uma orquestra, com cinco violinos a tocar”, explica Hilário Rosa da Conceição, ex-jogador do Sporting, ao falar do termo criado pelo jornalista e ex-treinador da seleção portuguesa Tavares da Silva. Antes do quinteto começar a encantar os torcedores em 1946, o clube lisboeta havia vencido o Campeonato Português apenas duas vezes. Com eles, venceu os três que disputou (entre 1946 e 1949) e mais outras quatro conquistas nas cinco temporadas seguintes, já sem todos eles no mesmo time.

Peyroteo, já fantástico por si só, se aproveitou do grande talento que o cercava no setor ofensivo. Ele não era o mais habilidoso dos cinco (Albano e Travassos eram vistos como aqueles de melhor técnica), mas compensava isso com esforço e profissionalismo. A temporada de maior sucesso do goleador pelo Sporting foi justamente após a formação do quinteto dos violinos. Em 1947/48, em apenas 19 partidas, terminou o Campeonato Português, vencido por seu clube, com 43 gols marcados. O número foi por 26 anos o maior que um jogador havia alcançado na competição, sendo superado apenas em 1973/74 por Héctor Yazalde, com 46 gols, mas média inferior, já que havia jogado 30 partidas. Naquela conquista, o angolano ainda teve um episódio lendário no jogo decisivo contra o Benfica: mesmo passando a noite em estado febril, marcou os quatro gols na goleada por 4 a 1, que coroou os sportinguistas com a taça.

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Contabilizando a contribuição de Peyroteo com o Sporting em títulos, foram ao todo cinco Campeonatos Portugueses, um Campeonato de Portugal, quatro Taças de Portugal e sete Campeonatos de Lisboa, entre 1937 e 1949. A segunda metade da carreira do artilheiro no time lisboeta e a primeira metade da década seguinte foram o período de ouro do clube no futebol português. Como o ápice do futebol, seu clímax, é o gol, e não houve alguém como Peyroteo nesse quesito, é completamente compreensível a tese de que a máquina sportinguista foi o maior de todos os tempos no clube.

E poderia ter feito mais, não tivesse decidido aposentar-se ainda aos 31 anos - o que, para muitos, ainda custou o título de 1949/50 ao Sporting, aquele que teria garantido o octacampeonato nacional. A lenda diz que Peyroteo havia acumulado dívidas por conta de uma loja de artigos esportivos que abriu em Lisboa. Fazer uma partida de despedida, então, era uma forma de levantar fundos para liquidá-las. “Fui soldado nas fileiras do desporto nacional e um soldado não foge ao cumprimento do seu dever, seja qual for e em que circunstâncias for. Mas de hoje em diante, reconheço que sou um soldado velho, não posso corresponder às exigências de preparação de um jogador de futebol que queira manter-se em forma e ser útil ao seu clube e à modalidade que pratica. Quando entro em campo, vou cheio de vontade de jogar, mas, depois de meia dúzia de pontapés na bola, apodera-se de mim um enfastiamento inexplicável”, afirmou, em sua última partida.

Portugal 1947

Pela seleção, a aposentadoria precoce deixa uma lacuna ainda maior. Peyroteo por pouco não disputou a Copa do Mundo de 1938. Mesmo aos 20 anos de idade, era o camisa 9 do time que enfrentou a Suíça pelas Eliminatórias, em jogo único disputado em Milão. Os suíços abriram dois gols de vantagem logo no primeiro tempo e o tento de Peyroteo na segunda etapa, o seu primeiro pela Seleção das Quinas, acabou sendo inútil. Um baque grande para os portugueses, que naquele mesmo ano já haviam empatado com a Alemanha e goleado a Hungria por 4 a 0 – justamente a adversária da Itália na final do Mundial.

Da queda nas Eliminatórias em 1938 ao final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, Portugal disputou apenas nove partidas. Uma amostragem pequena para saber o real potencial da seleção, que jogou apenas contra Espanha, França e Suíça no período. Os tugas venceram apenas uma partida no período, ainda que tenha sido o momento mais prolífico de Peyroteo com a equipe nacional, autor de 10 gols. Já depois da guerra, a seleção portuguesa começou a atuar com mais frequência. Embora ainda não fosse párea aos grandes times da época, como a Inglaterra e Itália, chegou a conquistar algumas vitórias notáveis. Bateu França, Espanha e Irlanda, além de ter empatado com a Suíça, entre abril de 1946 e janeiro de 1947.

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Peyroteo marcou três gols de Portugal nesta sequência. Talvez um momento bom o suficiente para que a seleção participasse da hipotética Copa do Mundo de 1946. Nas Eliminatórias de 1950, já sem o craque, os lusitanos foram atropelados pela Espanha, com uma goleada por 5 a 1 em Madri que os deixou sem rumo para a volta em Lisboa. Ainda hoje, Peyroteo tem a melhor média de gols de um jogador pela seleção portuguesa, balançando as redes 14 vezes em 20 partidas. No entanto, a despedida do futebol aos 31 anos impediu de saber se esses números poderiam mesmo fazer a diferença contra a Espanha e levar os tugas ao seu primeiro Mundial.

Em 1961, chegou a ser técnico da Seleção das Quinas, mas a derrota por 4 a 2 para Luxemburgo nas Eliminatórias acabou sendo fatal para o seu emprego e às intenções do time em viajar ao Mundial do Chile. Peyroteo ao menos deixou sua semente para que Portugal, enfim, chegasse a sua primeira Copa: aquela partida também marcou a estreia de Eusébio pela seleção, descontando com um gol na vexatória derrota. O mesmo Pantera Negra que, em 1966, mudaria a história da seleção portuguesa.

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