Muitos dos traumas da Inglaterra nas Copas do Mundo se contam sob as traves. Principalmente nos últimos anos, os Three Lions sofreram com a falta de goleiros confiáveis, falhando em jogos decisivos. Ou quando tinham alguém mais tarimbado, esse cara não necessariamente correspondeu. As lembranças de Gordon Banks e Peter Shilton pareciam distantes demais aos ingleses, e os velhos temores voltaram à tona na preparação ao Mundial de 2018. Joe Hart, o titular nos últimos ciclos, vinha em franca decadência. Surgiam alguns garotos talentosos, mas oscilantes, que não davam garantias sobre quem seria o dono da posição. Jordan Pickford subiu na hierarquia e, mesmo sem estourar em sua primeira temporada com o Everton, ficou. Era quem se mostrava o mais preparado. Que, em um jogo de mata-mata, se torna herói para espalmar outros fantasmas da seleção inglesa.

Pickford chegou às categorias de base do Sunderland quando tinha oito anos de idade, mas é um daqueles frequentes casos de jogadores ingleses que precisaram suar muito para ter uma chance na elite. A partir dos 17 anos, o camisa 1 foi emprestado seis vezes. Jogou em todas as divisões do Campeonato Inglês a partir da Conference Premier, equivalente ao quinto nível do futebol local. Entre nanicos e clubes históricos, passou por Darlington, Alfreton Town, Burton Albion, Carlisle United, Bradford City e Preston North End. Na quinta e na quarta, era reserva. Ganhou a posição de titular no Bradford, brigando pelo acesso na terceirona. Já na segundona, há dois anos, ajudou o tradicional Preston North End a se manter no meio da tabela. Enquanto a seleção fracassava contra a Islândia na Euro 2016, o desejo do rapaz de 22 anos era somente ganhar uma sequência na primeira divisão.

A chance de Pickford no Sunderland, enfim, aconteceu na temporada 2016/17. E não era um bom momento aos Black Cats. A equipe se tornou o saco de pancadas da Premier League, consumando um rebaixamento que ensaiaram por muito tempo. O goleiro, ainda assim, terminou como um dos melhores do campeonato. Mesmo buscando a bola no fundo das redes dezenas de vezes, colecionou milagres ao longo da campanha. Era o típico arqueiro de time pequeno, bombardeado, mas adiando ao máximo o desastre. O reconhecimento veio. Primeiro, Pickford foi indicado ao prêmio de melhor jovem da competição. Depois, aceitou sua transferência ao Everton por €28,5 milhões. E o passo maior veio com as convocações frequentes a partir de agosto de 2017.

Gareth Southgate, afinal, já conhecia bastante o goleiro. Pickford passou por todas as seleções de base desde o sub-16, acumulando 50 partidas pelos Three Lions. Quando chegou ao sub-21, trabalhou com o treinador e participou do Campeonato Europeu da categoria em 2017, no qual caiu diante da Alemanha nas semifinais, nos pênaltis. Antes disso, Southgate até o havia convocado para o elenco adulto, mas apenas para ganhar experiência, sem sair do banco. No segundo semestre de 2017, ele virou uma opção real, diante de todas as incertezas dos ingleses na posição. Joe Hart vinha em péssima fase técnica. O mesmo acontecia com Fraser Forster, o potencial substituto. Tom Heaton sofreu uma lesão séria. E sobravam jovens, como Jordan Pickford e Jack Butland, meros novatos a tamanha pressão.

Southgate ainda tentou dar outras chances a Joe Hart, mas o veterano não se sustentou. Pickford era a escolha óbvia, até por se dar bem nas chances que ganhou. Não sofreu gols nos amistosos que disputou contra Alemanha e Holanda, os dois únicos jogos que disputou antes da convocação final. E ajudava que seus concorrentes fossem Butland, rebaixado com o Stoke City sem se sair tão bem, e Nick Pope, a surpresa da lista ao se tornar titular do Burnley nesta temporada e arrebentar. Que o desempenho do Everton não tenha sido impressionante como se esperava, Pickford fez boas partidas na Premier League e vinha em crescente. A camisa 1 seria dele. Sua estreia na Copa foi apenas seu quarto jogo pela equipe nacional.

Se não brilhou na fase de grupos, em jogos pouco exigentes, Pickford esteve longe de comprometer. Foi um goleiro que não precisou de pirotecnias, apesar de titubear em uma ou outra bola. Ainda assim, terminou mais criticado do que deveria. O camisa 1 não conseguiu pegar o chute colocado de Adnan Januzaj, que deu a vitória à Bélgica na terceira rodada. Em entrevista à imprensa belga, Thibaut Courtois disse que poderia ter feito a defesa e que o goleiro adversário, mais baixo, não tinha envergadura suficiente, se preocupando apenas em “jogar as pernas para os ares”.

Nas oitavas de final, vieram as exigências a Pickford. Entretanto, a bem da verdade, o duelo contra a Colômbia não ofereceu tantos desafios na maior parte do tempo. Os cafeteros exibiam claras dificuldades no ataque, sem se aproximar da meta adversária. Tirando um chute fraco de Juan Fernando Quintero, o goleiro não precisou trabalhar até o fim do segundo tempo. Só então viriam as provações.

O que Pickford fez para espalmar o chute de Mateus Uribe, já nos acréscimos, merece figurar ao menos entre as três defesas mais espetaculares da Copa até o momento. Foi um chute totalmente inesperado do volante, da intermediária, se esticando para se antecipar a dois marcadores. Um verdadeiro míssil, com rumo certo ao ângulo, até se encontrar com a ponta dos dedos do arqueiro. Há muitas virtudes para se fazer uma defesa daquelas, entre elasticidade, impulsão, tempo de reação. O camisa 1 conseguiu juntar tudo e ia dando a classificação à Inglaterra. Porém, o destino o colocaria à prova, quando Yerry Mina acertou sua cabeçada libertadora. A impressão é a de que o goleiro até poderia fazer a defesa, mas não conseguiu se esticar todo porque Kieran Trippier estava no meio do caminho. O confronto se ampliaria por mais 30 minutos.

A Inglaterra precisou lidar com a pressão da Colômbia no primeiro tempo da prorrogação, mas sem que Pickford operasse novos milagres. O segundo tempo se arrastou. E o pesadelo dos Three Lions iria, mais uma vez, à marca da cal. De Shilton a Paul Robinson, passando por David Seaman, goleiros de diferentes qualidades não conseguiram salvar a seleção inglesa nos penais durante a Copa do Mundo. O novo dono da camisa 1 teria a sua chance. A cada cobrança, repetiu seu ritual de estremecer o travessão e pular sobre a linha para intimidar os oponentes.

O começo, todavia, não foi bom a ele. Não apenas pela qualidade dos colombianos nas cobranças, mas também porque David Ospina fez uma defesaça contra Jordan Henderson, deixando os cafeteros em vantagem. A sorte começou a mudar no momento em que Uribe estalou o travessão, na quarta finalização. Então, o arqueiro inglês faria a sua parte. A cobrança de Carlos Bacca não foi bem colocada. Em compensação, veio forte, no alto. Pickford fez uma baita defesa, esticando o braço para espalmar a bomba. Por fim, Eric Dier o confirmou como responsável por quebrar a sina dos ingleses nas penalidades.

Na saída de campo, inclusive, Pickford deu a sua indireta a Courtois: “Nós estudamos os batedores da Colômbia. Falcao foi o único que mudou o seu padrão. Basta definir, reagir e ir com força. Eu tenho força e agilidade. Não me importo se não sou o goleiro mais alto, mas tive força e agilidade para nos ajudar a avançar”. Merece os créditos por ajudar na classificação.

De todas as posições do futebol, o goleiro é o que menos pode entrar na zona de conforto. Pickford precisa ter consciência sobre isso. Aos 24 anos, e apenas duas temporadas em alto nível, ainda está se provando. Contudo, teve a oportunidade de estar no lugar certo e na hora certa para salvar a seleção inglesa, para afastar antigas enxaquecas. Tem que ver as duas defesas salvadoras em Moscou como um começo, e não um final. Qualidade ele já demonstrou, e isso valeu para que seu nome ficasse em um capítulo marcante dos ingleses nas Copas.