Camisa pirata do Barcelona na Palestina (AP Photo/Adel Hana)

Pirataria tem influência muito menor do que se pensa na composição do preço

É domingo de jogo, você desce do ônibus e começa a caminhar até o estádio. No percurso, entre muitos torcedores do time e conversas sobre aquela partida, uma cornetada ou outra no técnico e uma reclamação sobre o transporte (se você é de uma grande cidade, certamente isso acontece), você passa por vendedores de bandeiras, faixas e camisas do seu time, dos mais diversos tipos. Não são os produtos oficiais. São aqueles produtos que às vezes são impressionantemente parecidos com os originais, outros são constrangedoramente mal feitos. Os produtos piratas que, uma vez ou outra na vida, todo torcedor de futebol se depara e consome. Nem que seja porque você nem tinha pensado em levar uma bandeira para o estádio, seja porque na loja oficial aquela peça que o ambulante vende a R$ 20 custa R$ 120. A pirataria uma realidade dentro do futebol.

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A existência desse tipo de produto é apontada como uma das causas dos preços dos preços serem altos. Seria uma forma das marcas compensarem as perdas que os produtos piratas roubariam. Como mostramos em outras matérias desta série, a questão passa bem longe disso. Aliás, as próprias marcas não dizem isso. Embora a pirataria seja um problema que todas tentam combater, ninguém apontou para esse como o motivo para que os produtos tenham preço mais alto.

Há diferentes formas tentar diminuir o prejuízo causado pela pirataria. Na França, além de ser proibido fabricar e comercializar produtos piratas, o uso também é passível de punição. Com isso, a tentativa é desestimular o consumo desses produtos. As leis anti-pirataria do país são pesadas. Para Erich Beting, o modo como a França lida é uma alternativa para combater esse tipo de problema. “O melhor argumento que eu teria contra a pirataria seria assumir uma legislação parecida com a da França: punir quem está usando.”

Na Itália, clubes como o Milan e a Internazionale fazem parcerias com esses vendedores ambulantes, que pagam uma taxa menor para vender os produtos legalmente. A taxa funciona como uma indenização ao clube pelo uso da marca. Assim, de alguma forma, o prejuízo do clube é amenizado. São alternativas, mas é um problema complicado de driblar. Seja na Inglaterra, na França, na Itália, em Portugal ou na Argentina, os produtos piratas estão ao redor dos estádios e nos mais diferentes locais de comércio.

As grandes marcas possuem equipes estudando formas de combater a pirataria, mas agora você já sabe que o negócio das marcas de material esportivo não é a venda de camisa ou produtos oficiais. Os preços altos têm muito mais a ver com as próprias marcas do que com fatores externos. Há quem acredite que a pirataria serve até como um benefício para os clubes. Afinal, ainda que não tenha a mesma qualidade, o produto mostra a marca do clube e mostra até os patrocinadores. Mas essa não é uma opinião compartilhada pelas marcas.

Adidas e Nike, consultadas pela Trivela, disseram ter equipes que trabalham para combater a pirataria. Aliás, quando perguntamos ao presidente da Nike no Brasil, Cristián Corsi, se a pirataria atrapalhava o negócio deles e se não era melhor deixar rolar, ele foi bem enfático na resposta. “Nããããããããããããão! Temos um departamento para cuidar da nossa marca, e eles que ficam responsáveis por conversar com as autoridades. Criamos programas articulados com autoridades de nível federal, estadual e municipal para fiscalizar e cuidar da pirataria”, afirmou o executivo.

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Com o preço dos produtos tão alto, acaba sendo inevitável que a pirataria ganhe força. Uma das soluções é a produção de versões mais populares das camisas. Elas têm menos tecnologia e perdem refinamento em algum detalhes (por exemplo, distintivo estampado ao invés de bordado) para chegar às lojas com preço mais acessível, mas não deixam de ser uniformes oficiais. Essa prática é muito comum na Europa, mas não tem efeitos tão grandes no Brasil. A diferença não é tão grande por uma estratégia do fabricante, que não quer dar a impressão que a camisa popular é uma porcaria, nem pretende criar uma disparidade tão grande a ponto de sabotar as vendas da opção mais nobre e de maior qualidade.

Perguntamos por que as marcas não criam uma versão popular das camisas, que concorra com esses modelos piratas. “Temos um nome, temos compromisso com tecnologia e qualidade. Na verdade, já fazemos versões econômicas. Produzimos e comercializamos a camisa autêntica dos jogadores, mas as lojas também têm versões mais baratas, entre metade e um terço do preço. Mas não podemos prejudicar a qualidade”, explicou Corsi.

Dizer que os modelos de camisa que custam mais de R$ 200 são econômicos parece esticar muito o significado da palavra “econômico”, mas é verdade. Sim, existe esse modelo citado pelo presidente da Nike Brasil. É inacreditável, mas é verdade. Há uma versão de jogador das camisas produzidas pela Nike para Corinthians, Internacional e seleção brasileira, por exemplo, que custa R$ 350. Essa seria a versão “autêntica” da camisa, aquela que é igual ao modelo vestido pelos jogadores. A Puma, por exemplo, vende a camisa da seleção italiana para a Copa do Mundo de 2014 em uma versão para torcedor a R$ 200. Já o modelo jogador custa R$ 500. Como comparação, na Itália, a maioria dos clubes trabalham com duas ou três versões, com valores na casa de € 35 a 40 (popular), € 60 (intermediária) e a partir de € 80 (oficial de jogo).

Produtos com o nome de Lionel Messi, principal estrela do Barcelona (AP Photo/Emilio Morenatti)

Produtos com o nome de Lionel Messi, principal estrela do Barcelona (AP Photo/Emilio Morenatti)

Com os preços nesse patamar, há uma evidente seleção de quem pode ou não pode gastar tanto dinheiro com isso. E essa exclusão que se cria com o estabelecimento do preço alto é um dos fatores que contribui para o surgimento de produtos piratas. “Não é à toa que o mercado pirata é tão grande. A pessoa quer consumir esse produto, não tem condições, e acaba comprando um pirata, que tem preço muito mais baixo”, diz Jean Makdissi Junior, conselheiro executivo da Associação dos Lojistas do Brás. A pirataria, assim, faria o papel de atender a um público que quer o produto, mas não tem condições econômicas de consumi-lo.

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Segundo pesquisa divulgada pela Fecomércio/RJ/Ipsos em agosto de 2013, o consumo de produtos piratas diminuiu no Brasil. A pesquisa foi realizada em agosto de 2013 com mil pessoas em 70 cidades brasileiras, incluindo nove regiões metropolitanas do país. A pesquisa, divulgada pelo jornal O Globo em outubro de 2013, mostra que houve queda no consumo de produtos piratas, incluindo o de roupas.

Entre 2012 e 2013, recuou a compra de produtos falsificados como óculos (de 10,3% para 8,7%), roupas (9,4% para 6,5%), brinquedos (5,3% para 3,6%), relógio (de 8% para 3,6%) e equipamentos eletrônicos (5,2% para 4%).

— Essa queda tem pouco a ver com a renda ou nível de emprego da população. As pessoas passaram um período consumido produtos originais e piratas e forma simultânea. Nossa conclusão é que ela viram um valor maior agregado ao produto original — avalia o superintendente de Economia e Pesquisas na Fecomércio/RJ, João Carlos Gomes.

Para Erich Beting, jornalista criador do site Máquina do Esporte e autor do blog Negócios do Esporte, no UOL, a pirataria tem se tornado menos frequente no Brasil por uma razão simples: a ascendência social de uma nova classe média, a expansão dos cartões de crédito para as camadas mais populares da sociedade e a possibilidade de parcelamento da compra em muitas vezes. “Podendo parcelar em, digamos, 10 vezes, a camisa que custa R$ 200 sai por R$ 20 por mês, e isso se torna acessível para um público muito maior.”

A lógica é a mesma que vimos recentemente nos rolezinhos (e você pode ler mais sobre esse fenômenoem um texto de Leandro Beguoci no Oene). Um público de classe média baixa e baixa que consome tênis, roupas e acessórios que custam R$ 200, R$ 300, até R$ 600, graças ao parcelamento e o acesso fácil a crédito. O preço da camisa é, de fato, proibitivo, mas o modelo econômico que o Brasil tem de facilidade ao crédito permite mais gente movimentar a economia com os seus cartões de crédito e o parcelamento das compras. Artigos antes restritos a um grupo econômico mais alto passam a ficar ao alcance do bolso de mais gente.

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Mesmo assim, para Beting o preço da camisa ainda é alto. “Seria possível fazer um negócio para ganhar mais a um preço mais baixo. Cobrar um valor de R$ 160, R$ 180 é altamente factível”, disse. Um preço abaixo desse patamar, porém, ele acha difícil, até pela alta demanda que esse tipo de produto tem. Não há nenhuma pressão para que os preços baixem. Os clubes ganham mais com os preços nas alturas, já que os valores dos direitos de uso da marca, os chamados royalties, também são maiores.

A demanda continua existindo por parte da torcida, justamente por não ser um item comum de varejo, é a camisa do time, um símbolo do time, desejado pelos torcedores. E, ao contrário do que acontece no Reino Unido, onde o preço da camisa da seleção virou questão de Estado, no Brasil não há qualquer pressão dos torcedores ou dos políticos. Muito pelo contrário: aqui, o excesso de impostos continua prejudicando a indústria, o comércio e o consumidor. Só que quem paga essa conta não é a indústria, nem o comércio, é você, na hora que compra a camisa com uma margem de lucro enorme das grandes empresas que cobre qualquer eventual prejuízo com impostos com sobras.

A pirataria, claro, ainda é um problema e a pesquisa da Fecomércio/RJ mostrou que mesmo com a diminuição no consumo desse tipo de produto, um em cada três brasileiros consumiu algum produto pirata no último ano. Há uma demanda por camisas mais baratas, mas a demanda que consome as camisas mais caras é suficiente para deixar os fabricantes contentes. A influência da pirataria, em um negócio que é muito maior do que a venda de camisas, acaba não sendo um fator tão importante assim.

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