Pirlo pendura as chuteiras: o meia ofensivo comum que, ao recuar, se tornou lenda

Qual posição um jogador mais rende? Isso pode definir o sucesso ou fracasso de uma carreira. Andrea Pirlo parecia não encontrar o seu melhor futebol em alguns dos primeiros anos da carreira, no final dos anos 1990, mesmo com um talento imenso. Um meia ofensivo talentoso, mas chamado de lento, sem dinâmica. Aos 38 anos, o craque italiano confirmou a aposentadoria nesta segunda-feira, depois do fim da temporada do New York City FC, seu último clube. Uma carreira que se tornou extremamente bem sucedida depois de uma mudança de posição que mudou também a sua história.

LEIA TAMBÉM: Nos 20 anos da estreia de Buffon pela seleção, 20 defesas lendárias com a camisa azzurra

No final de 1994, Andrea Pirlo estreava pelo Brescia em uma carreira que se tornaria marcante. Discreto, elegante e com uma paixão pelo futebol. Gostava de falar sobre companheiros, adversários e sobre o jogo. Não gostava muito dos holofotes. Sempre gostou do trabalho dentro de campo.

Pirlo se tornou um símbolo do futebol italiano nos anos 2000. Incluindo a campanha vitoriosa da Copa do Mundo de 2006, no qual foi um dos principais jogadores da Itália campeã do mundo – o título que todo jogador mais sonha  em vencer.

Mudança de posição

Andrea Pirlo pelo Brescia, em 2001

O enorme sucesso que Pirlo teve na carreira se deve às suas características que foram bem exploradas: visão de jogo, excelente passe longo e bolas paradas. Tudo isso foi possível depois de uma mudança de posição que mudou a sua carreira para sempre. Algo que tem a participação de três técnicos: Carlo Mazzone, Fatih Terim e, principalmente, Carlo Ancelotti.

Pirlo só estrearia na Serie A em 1995, mas era um jogador completamente diferente do que seria no final da carreira. Naquela época, atuava como um segundo atacante. Tinha só 16 anos e era claramente um talento com a bola nos pés. Foi promovido ao time principal pelo técnico romeno Mircea Lucescu, que dirigiu o Brescia de 1991 a 1996.

Embora tenha estreado no time principal muito jovem, Pirlo só passou de vez aos profissionais na temporada 1996/97, na Serie B, quando ajudou o time a subir à Serie A. Em 1997/98, já de volta à primeira divisão, chamou a atenção do técnico que o promoveu, Mircea Lucescu, que estava, então, na Internazionale. Foi contratado para a temporada seguinte.

A essa altura, Pirlo era um promissor meia ofensivo, que se aproximava do ataque. Atuava na posição que os italianos descrevem como trequartista. Sua primeira temporada em um time grande não foi de impressionar. Ele nunca conseguiu ganhar a posição e acabou sendo uma decepção. Não teve o espaço para mostrar o que sabe. Vestia a camisa 11 e chegava com a responsabilidade de ser o próximo grande craque. Nunca foi. Na Inter de Massimo Moratti não havia paciência: quem não deu certo era rapidamente deixado de lado.

Acabou emprestado à Reggina na temporada seguinte, 1999/2000. Voltou à Inter na temporada seguinte, mas novamente quase não jogou. Foi, então, emprestado de volta ao Brescia na segunda metade da temporada 2000/01. Foi alvo de críticas por sua falta de ritmo, velocidade, considerado um jogador lento e pouco participativo nas partidas. Já ouviu isso de outros meias? Mas foi ali, no Brescia, que ele começou a achar um caminho, já em 2001, quando estava prestes a completar 22 anos.

Quem mudou o rumo da carreira de Pirlo foi Carlo Mazzone. O então técnico do Brescia, quando Pirlo foi emprestado pela Inter, transformou o meia ofensivo em um jogador mais recuado, um meio-campista central, atuando mais atrás como um organizador. Foi naquela metade de temporada, em 2000/01, que Pirlo passou a jogar regularmente nessa posição, mais recuada. E assim brilhou novamente para, outra vez, ter chance em um clube grande.

A consagração no Milan

Pirlo se tornou um sucesso no Milan (Photo by Newpress/Getty Images)

Como a Inter já não acreditava mais nele, foi vendido para o Milan em junho de 2001, em meio a uma série de trocas entre os dois times. A transferência mudou a sua carreira. Primeiro, nas mãos do técnico turco Fatih Terim, escolhido para comandar o Milan. Ele escalou Pirlo na posição mais recuada, como vinha jogando no Brescia, e não como o meia ofensivo que a rival Inter conheceu. O treinador não durou muito no cargo, mas ele teve um papel importante em colocar o novo contratado em uma posição que o consagraria, mantendo o que Mazzone começou no Brescia.

Quem viria depois elevaria o nível de Pirlo aos céus: Carlo Ancelotti. Foi com o técnico italiano que ele se tornou uma lenda do futebol do país. O treinador do Milan conseguiu equilibrar e extrair o melhor de Pirlo com duas características muito diferentes dos seus companheiros de meio-campo: de um lado, força física e marcação forte com Gennaro Gattuso; do outro, o talento incrível de Clarence Seedorf.

No Milan, Pirlo se tornou o que conhecemos hoje: um jogador de imensa categoria, com uma bola parada mortal, passes longos e uma saída de bola que desafoga o time. Ancelotti resolveu o problema defensivo do time e dando qualidade a um jogo que faria do time uma potência na Europa e no mundo. Pirlo era um dos mais importantes jogadores do time que conquistaria a Europa duas vezes, em 2003, contra a Juventus, e em 2007, contra o Liverpool – depois de uma dolorosa derrota em 2005.

A glória pela seleção italiana

Andrea Pirlo comemora pela Itália (Photo by Alex Livesey/Getty Images)

O talento de Pirlo o fez participar de seleções de base da Itália e, em 2000, ele capitaneou o time no Europeu sub-21. Jogou também a Olimpíada daquele ano, 2000, além da Olimpíada de 2004, quando fez parte da campanha que levou o time ao bronze. O seu talento era evidente, mas Pirlo sofria com a falta de consistência nos clubes. Na seleção de base, era sucesso. Se tornou o recordista em jogos pelo sub-21.

Na seleção principal, Pirlo estreou em 2002 com o técnico Giiovanni Trapattoni, que teimava em não convocá-lo, apesar de pedidos populares. Foi para a Eurocopa de 2004, onde jogou duas partidas. Foi com o técnico seguinte da Itália que ele brilhou. Marcelo Lippi o tornou uma peça-chave do seu esquema tático.

Pirlo acabaria sendo crucial na campanha vitoriosa da Itália no título mundial de 2006. Foi eleito o melhor jogador da partida em três dos sete jogos da Itália no torneio. Logo na estreia, marcou um gol e foi o melhor em campo nos 2 a 0 sobre Gana. Os outros dois jogos que Pirlo foi eleito o melhor em campo foram os mais importantes da competição: a semifinal e a final.

Na semifinal, Pirlo arquitetou um dos gols mais marcantes daquela Copa: o gol de Fabio Grosso, que abriu o placar para a Itália na prorrogação. Pirlo foi quem deu o passe para o lateral esquerdo finalizar com categoria, marcando 1 a 0. Um passe de muita visão do camisa 21.

Pirlo com a taça da Copa do Mundo 2006 (Photo by Clive Mason/Getty Images)

Além do título mundial de 2006, Pirlo ainda esteve em campo pela seleção em todos os grandes torneios seguintes: a Eurocopa de 2008; Copa de 2010; Eurocopa de 2012; Copa do Mundo 2014. O único torneio que o jogador ficou fora desde então foi a Eurocopa de 2016, quando já estava atuando nos Estados Unidos. Antonio Conte disse que não levaria jogadores atuando em ligas mais fracas como a MLS. A sua marca já tinha sido deixada com a camisa da Azzurra.

Renascimento na Juventus

No meio de 2011, com o Milan campeão italiano, o técnico Massimiliano Allegri vivia um dilema. O que fazer com Pirlo, que se tornou um jogador secundário no elenco rossoneri? O contrato do meio-campista acabava naquela temporada, 2010/11. Parecia o fim de um ciclo. O técnico e o clube optaram por não renovar o vínculo do jogador, então com 32 anos.

A Juventus ofereceu um contrato de três anos ao jogador, acreditando no seu potencial. As palavras de Buffon, contando quando soube da chegada do então companheiro de seleção, já diz muito sobre o que seria a carreira de Pirlo em Turim: “Quando Andrea me contou que iria se juntar a nós, a primeira coisa que pensei foi: ‘Deus existe’. Um jogador do seu nível e habilidade, sem mencionar que veio de graça, eu acho que foi a contratação do século!”, contou o goleiro em entrevista ao site da Fifa.

Assim como foi no Milan, se tornaria o pilar de um meio-campo com muito talento e força física ao seu lado, o deixando com o trabalho de ser o toque de talento na saída de bola. Arturo Vidal, recém-contratado, e o jovem Claudio Marchisio, muito talentoso, formaram um meio-campo muito talentoso para comandar a fortíssima Juventus de Antonio Conte.

A sua carreira na Juventus foi absolutamente vitoriosa. Quatro títulos do Campeonato Italiano (o que significa que ele foi campeão nacional em todos os anos que atuou pela Juve), além da Copa da Itália, em 2014/15. Fez parte da dominação que os bianconeri passaram a impor no seu país, depois do título do próprio Milan em 2010/11, ainda com Pirlo.

A Juventus ainda não tinha sido campeã italiana desde a sua volta da Serie B, após o escândalo do Calciopoli, em 2006. Parecia que faltava uma peça para tornar a Juventus ainda melhor. Pirlo conseguiu elevar o nível do time, ao lado do ótimo trabalho de Conte e do crescimento de jogadores como Marchisio.

Veterano e decisivo: Pirlo foi muito bem na Juventus (Photo by Valerio Pennicino/Getty Images)

Um momento de tensão aconteceu com a saída de Conte da Juventus e a chegada, até de forma inesperada, de Massimiliano Allegri, em 2014. Justamente o técnico que não acreditou nele três anos antes, quando deixou o Milan. Havia rumores que os dois não se davam tão bem. Seja como for, Allegri entendeu que Pirlo seria uma peça crucial no seu time e explorou bem o potencial do jogador, que foi determinante em 2014/15, provavelmente a sua melhor pela Juventus.

Não por acaso, a Juventus saiu de um patamar mais baixo em 2011, quando Pirlo chegou, para terminar como finalista da Champions League, em 2015. Naquela final europeia, o Barcelona atropelou. A cena de Pirlo chorando após o apito final era de cortar o coração. Ele já tinha dois títulos da Champions Pelo Milan, em 2003 e 2007, mas sabia que era a sua última chance para incluir uma terceira taça da Europa.

Depois daquela final em 2015, Pirlo iria para a MLS jogar pelo New York City FC. Realizava o sonho de morar na cidade americana, onde anunciou, nesta segunda-feira, o fim da sua gloriosa carreira. Aos 38 anos, Pirlo sabe que não pode mais ser o craque que se consagrou no Milan e na Juventus, além da seleção italiana. Deixa o campo, fica na história.

Homenagens

“Quem jogou com Pirlo entendeu o significado da palavra único. Um campeão que alternava classe, elegância e humildade”, escreveu Gianluigi Buffon, seu companheiro na seleção italiana e na Juventus de 2011 a 2015, e que também já tem data para pendurar as chuteiras, ao final da temporada. A Juventus, aliás, foi uma das que homenageou o seu ex-jogador com um elogio imenso: “Um verdadeiro gênio do jogo bonito”.

“Foi uma honra jogar com você e contra você, um campeão com imensa classe”, escreveu Francesco Totti, com quem jogou na seleção italiana e com quem jogou como adversário em toda a carreira. Totti é outro que se aposentou recentemente, em maio, ao final da temporada 2015/17. Buffon, Totti e Pirlo são três dos grandes jogadores da seleção italiana que ganhou o quarto título mundial em 2006.

“Ouça, Fábio, se Grosso marcar, nós somos campeões do mundo?”, perguntou Pirlo ao então capitão Fabio Cannavaro, durante a disputa de pênaltis na final da Copa 2006. O capitão respondeu que sim. A história foi contada pelo próprio Cannavaro, que ainda disse: “Foi uma honra ter jogado com você e vencido com você”.

Pirlo abraça Cannavaro na disputa de pênaltis contra a França, na Copa 2006 (Photo by Ben Radford/Getty Images)

Mario Balotelli foi outro a homenagear o meio-campista italiano. “Único, inimitável, fenômeno”, escreveu o agora ex-companheiro de seleção italiana. “Eu tive a honra de jogar com você, obrigado por tudo, Andrea”, continuou Balotelli. “Para mim, você poderia jogar mais 10 anos”.

Pirlo conseguiu preencher o seu enorme potencial, mostrado naquele final dos anos 1990, com uma mudança simples de posição. Como um meia ofensivo, um camisa 10, trequartista, talvez ele fosse só mais um jogador. Como um jogador recuado, se tornou um armador atuando atrás, como volante. Virou craque. Uma mudança de posição que mudou uma carreira e muitas vidas. Mudou também o jogo.

Obrigado, Pirlo.

 

Andrea Pirlo, do New York City