Desde a criação da Serie A, com o sistema de pontos corridos no futebol italiano na temporada 1929/30, apenas cinco clubes disputaram a elite uma única vez. Quatro deles neste século: Treviso, Carpi, Frosinone (que tem chances de retornar e, portanto, deixar o grupo) e o Benevento – que, ao que tudo indica, deve retornar à segunda divisão na próxima campanha. O outro caso é um clube curioso e de história hoje praticamente esquecida: a Pistoiese, que esteve no meio dos grandes na temporada 1980/81. Com suas camisas alaranjadas, um bando de veteranos históricos do Calcio em campo e no banco, uma vitória marcante em um dérbi e até mesmo a presença fugaz de um brasileiro (pouco lembrado inclusive por aqui), a trajetória dos arancioni é uma página singular na história do futebol da Bota.

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Clube da Toscana – região que tem a Fiorentina como principal equipe e também já contou com Empoli, Livorno, Lucchese, Pisa e Siena na Serie A –, a Pistoiese foi fundada em 1921. Na temporada 1928/29, a última antes do surgimento do atual formato, participou pela única vez da Divizione Nazionale, a elite de então, na qual as 32 equipes eram divididas em dois grupos de 16, antes de disputarem uma fase final. Pelas cinco décadas seguintes, no entanto, além de cessar suas atividades durante a Segunda Guerra Mundial, sendo refundada logo após o fim do conflito, limitou-se a peregrinar pelas divisões periféricas da liga italiana, chamando a atenção apenas por sua camisa num tom laranja berrante.

Na primeira metade dos anos 70, disputava a Serie D, mas dentro de pouco tempo viveria uma efêmera, mas marcante revolução. Aos poucos, o time foi galgando as categorias inferiores. Em 1975, conquistou com facilidade o acesso à Serie C. De lá, pulou para a B em 1977 ao vencer um dos grupos regionalizados da terceira divisão, outra vez sem sustos, terminando oito pontos à frente do Parma. Na segunda categoria, à qual retornava após quase 20 anos, conseguiu permanecer a duras penas em 1977/78, mas chegou bem perto do acesso na campanha seguinte, terminando na quinta colocação (três subiam).

Na terceira tentativa, veio o acesso histórico, sacramentado com um empate em casa diante do Lecce em 1º de junho de 1980. Eram tempos do rico presidente Marcello Melani, conhecido como “Faraó” pelo poderio econômico, e do técnico Enzo Riccomini, comandante nas três temporadas da segunda divisão, durante as quais a equipe recebeu o apelido de “Piccola Olanda” ou “Olandesina”, pelas camisas laranjas. Eram também os tempos da “Pistoiese dei vecchietti” (“Pistoiese dos velhinhos”), em alusão à alta média de idade do elenco, que reunia vários veteranos do Calcio.

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Um deles era o goleiro Lido Vieri, nome histórico do Torino e da Internazionale, reserva da seleção no título europeu de 1968, bem como no vice-campeonato mundial em 1970, no México. Em 1976, aos 37 anos, deixaria os nerazzurri rumo à Toscana para defender os arancioni ainda na Serie C, permanecendo até pendurar as luvas, após o acesso. Naquela temporada histórica, entretanto, não era mais o dono da posição. Maurizio Moscatelli, 16 anos mais jovem, era não só o titular como também um dos destaques do time, eleito o melhor jogador do campeonato. Mas não seguiria com a Pistoiese na elite: seria contratado pela Lazio, recém-rebaixada pelo escândalo do Totonero.

A formação do elenco

Vieri permaneceria, mas em outra função: com a saída de Riccomini para a Sampdoria, seria ele o treinador dos arancioni na elite, supervisionado pelo experiente Edmondo Fabbri (que comandou a seleção italiana na Copa de 1966, além de treinar Torino, Bologna e Cagliari) na função de diretor técnico. Alguns dos velhinhos presentes no acesso – como o zagueiro Fabrizio Berni (31 anos), o líbero Marcello Lippi (32), o meia Mario Frustalupi (38) e o atacante Giorgio Rognoni (33) – continuaram no elenco. Outros, como o líbero Mauro Bellugi e o ponta Roberto Badiani (ambos com 30 anos) foram contratados.

O elenco, porém, não era composto apenas de veteranos: alguns jovens valores, muitos deles conseguidos por empréstimo para aquela temporada, também despontaram. O zagueiro Alessandro Zagano e o lateral-esquerdo Marco Marchi vieram cedidos pela vizinha Fiorentina. Da Lazio, juntamente com Badiani, chegou o meia-armador Andrea Agostinelli. Do Torino, também emprestado, veio o volante Mirko Paganelli. E, em definitivo, chegou outro volante: Paolo Benedetti, de apenas 19 anos, pescado na Lucchese, da Série C2.

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Dando a liga entre jovens e experientes, havia nome importantes como o do lateral e capitão Sergio Borgo (vindo da Lazio em 1976), o ponta-esquerda goleador Vito Chimenti, cigano da bola, trazido após boa temporada no Catanzaro, além do goleiro Poerio Mascella, que aos 30 anos faria sua estreia na Serie A. Por fim, aquela equipe ainda teria direito a um suposto “bônus”. Chegara à elite precisamente na temporada de reabertura dos portos italianos aos jogadores estrangeiros, cuja contratação havia sido vetada em meados dos anos 60. Cada equipe poderia contar com um atleta.

O engano Luís Sílvio

E, assim como a Roma (com Falcão) e o Bologna (com Enéas), a Pistoiese recorreu a um brasileiro: o jovem ponta-direita Luís Sílvio, revelação do Marília que conquistou a Copa São Paulo de juniores em 1979 e que se transferiu em seguida rapidamente ao Palmeiras e de lá para a Ponte Preta. Seu futebol encantou o auxiliar técnico Giuseppe Malavasi, que tinha vindo ao Brasil observar o atacante Paulinho (ex-XV de Piracicaba e Vasco, então no clube campineiro) e recomendou sua contratação.

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O jogador, entretanto, teria curtíssima trajetória no Calcio, sendo relembrado posteriormente como um dos fracassos estrangeiros mais emblemáticos daqueles tempos de vagas restritas para forasteiros. Diz a lenda que o fiasco se deveu a um desencontro linguístico. Segundo a história comumente contada pelo jogador, ao chegar à Itália, foi perguntado se jogava de “punta”, o que respondeu afirmativamente. Só que “punta”, no vernáculo futebolístico italiano, quer dizer jogador de frente, mas centralizado, como um ponta de lança ou centroavante. Em virtude disso, a escalação equivocada teria minado seu rendimento.

O fato é que Luís Sílvio entrou em campo apenas seis vezes pela Pistoiese, cinco delas como titular (e, para que se registre, em quatro vestindo a camisa 7). De novembro de 1980 até o fim da temporada, jogaria apenas uma partida. Sua passagem foi tão insólita que mesmo anos depois gerou inúmeras lendas urbanas: a de que teria se tornado pizzaiollo, ou vendedor de sorvetes na porta do estádio ou até a de que não seria de fato um jogador de futebol, mas um ator pornô (!) mandado por engano para a Itália.

Diante da parca contribuição de seu reforço estrangeiro, o time-base da Pistoiese que debutaria na Serie A seria 100% nacional e armado no tradicional “gioco à italiana”. Mascella era o goleiro, com Zagano atuando como lateral-direito defensivo, fechando pelo meio da área. Berni era o stopper, enquanto Borgo era o lateral-esquerdo apoiador. O veterano Bellugi (ex-Inter, Bologna, Napoli e seleção italiana das Copas de 74 e 78), que também chegou a atuar algumas vezes como stopper e volante, revezava-se na função de líbero com um certo Marcello Lippi, que vinha de jogar quase toda a sua carreira pela Sampdoria.

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No meio-campo, o jovem Benedetti era o primeiro homem do setor, ainda que se projetasse bem à frente (marcaria quatro gols). O talentoso Agostinelli era o regista. Já a camisa 10 era vestida por Frustalupi, trequartista vencedor de dois scudetti, um pela Inter em 1971 e outro pela Lazio em 1974. Na reserva, o versátil Paganelli, volante de origem, cobria várias posições. Na frente, sem Luís Sílvio, pela direita jogava Badiani, outro nome rodado, enquanto Rognoni, multicampeão com o Milan na virada dos anos 60 para os 70, era o centroavante. Mas o goleador mesmo era Chimenti, que fechava da esquerda para o meio.

A campanha

O campeonato foi aberto em 14 de setembro de 1980. Na estreia, a Pistoiese viajou a Turim e foi derrotada pelo Torino por 1 a 0. O jogo seguinte, primeiro em casa, teve gosto um tanto amargo: o time fez 1 a 0 na Udinese com gol de Benedetti na metade do segundo tempo, mas deixou a vitória escapar a três minutos do fim, tendo de se contentar com o empate. O primeiro triunfo só viria mesmo na quarta rodada: 1 a 0 diante do também promovido Brescia, num chute de fora da área de Paganelli.

O segundo chegaria depois de três derrotas seguidas: novamente por 1 a 0, agora sobre o Perugia, com um bonito gol de Benedetti, completando de voleio um levantamento para a área de Frustalupi em cobrança de falta. O triunfo marcaria o começo do melhor momento dos arancioni no campeonato. Um período mágico, embora curto, do qual os tifosi nunca mais se esqueceriam. O time emendou mais uma vitória no jogo seguinte, batendo o Avellino por 2 a 1, novamente por meio de Frustalupi e Benedetti.

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A goleada sofrida diante da poderosa Juventus em Turim (4 a 1) não freou o ímpeto da equipe. A Pistoiese seguiria vencendo os três próximos jogos. No primeiro, o time bateu o Como por 2 a 0, gols de Chimenti. E no segundo, em 28 de dezembro, impôs um categórico 3 a 1 ao Catanzaro fora de casa (o gol de honra veio de pênalti só no último minuto). O primeiro triunfo como visitante levou o time para o rebolo: com 11 pontos ganhos, dividia o sexto posto com outras cinco equipes (perdia no saldo para todos, porém).

O dérbi inesquecível

Mas o momento mais épico da campanha viria na partida seguinte, a primeira após a virada do ano, em 18 de janeiro de 1981. O derby contra a Fiorentina era um confronto um tanto raro: não era jogado por competição oficial desde 1946, quando os times se cruzaram em um torneio de consolação (houve, entretanto, um amistoso em Florença, em 1954, bastante lembrado por ter sido interrompido devido ao aparecimento de um OVNI). Mas voltou com força naquela temporada, primeiro na Copa da Itália – empate em 0 a 0 na fase de grupos, também em Florença – e depois finalmente na Serie A.

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Embora as duas equipes tivessem a mesma pontuação naquela altura do campeonato, a Viola era a favorita por jogar em casa. Mas o experiente elenco da Pistoiese estava disposto a surpreender. Após suportar a intensa pressão inicial da Fiorentina, os arancioni abriram o placar aos 35 minutos quando Rognoni recebeu de Chimenti, avançou e bateu de muito longe, surpreendendo o goleiro Giovanni Galli. Cinco minutos depois, o ponta argentino Bertoni cavou um pênalti, que o meia Antognoni converteu e empatou.

Mas aquele era mesmo o dia da zebra passear no Comunale de Florença. Aos 41, Rognoni outra vez avançou com a bola e entregou a Chimenti, na meia lua. O ponta passou de primeira a Badiani (nascido em outra cidade vizinha, Prato), que entrava na área, para fuzilar novamente Galli e recolocar a Pistoiese em vantagem. Um resultado histórico, que deixou os arancioni agora isolados numa incrível sexta posição, a quatro pontos da líder Roma. Além dos giallorossi, viam apenas Inter, Juventus, Napoli e Torino à sua frente.

Foi quando, bem no seu auge, a carruagem laranja começou a virar abóbora. O anticlímax viria logo na partida seguinte, ao receber justamente a Roma no Comunale de Pistoia. O time saiu atrás no marcador logo aos dois minutos, mas teve a chance de empatar aos 19 da etapa final quando – pela primeira e única vez naquela temporada – teve um pênalti marcado a seu favor. Mas Chimenti, o artilheiro da equipe, desperdiçou a cobrança. Para piorar, três minutos depois, um gol contra de Borgo aumentou a vantagem romana, que disparou uma goleada a partir dali, fechando o placar em 4 a 0.

A decadência

Mesmo com a derrota acachapante, a Olandesina continuava na sexta colocação. Mas não por muito tempo. A campanha desabou a partir dali: o time perdeu para o Cagliari na Sardenha na última rodada do turno e atravessou todo o returno sem vencer nenhuma partida, somando apenas três pontos, obtidos em empates com o Torino em casa (1 a 1), Brescia (2 a 2) e Ascoli (0 a 0) fora. Este último resultado, combinado com os outros daquela 21ª rodada, trouxe consequências desastrosas: a Pistoiese entrava na zona de rebaixamento, para não mais sair.

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O rebaixamento seria decretado na 28ª rodada, ironicamente pelas mãos da Fiorentina, que deu o troco do turno vencendo por 1 a 0 em Pistoia com um gol contra do atacante Rognoni. Seria o último confronto oficial entre as duas equipes até hoje. E a campanha terminaria ainda mais inglória: após perder para o Cagliari por 3 a 1 (num jogo em que mandaram em Modena), os arancioni seriam ultrapassados pelo Perugia, ocupando pela única vez, justo na última rodada, a lanterna isolada da competição.

Do elenco que mais participou da campanha na elite, apenas cinco jogadores ficaram para a temporada seguinte. Após flertar com um novo rebaixamento naquele ano e no seguinte, a queda para a Serie C1 finalmente viria em 1984, ano em que Marcello Melani deixaria a presidência do clube. Sem ele, os toscanos despencariam para a C2 já no ano seguinte. Três anos depois, a Pistoiese iria à falência, sendo refundada – o que se repetiria em 2009. De 1984 para cá, disputaria outras quatro temporadas na segunda divisão, mas tendo como melhor colocação um fraco 16º lugar, bem longe de sonhar com o retorno à elite.

Quinzenalmente, o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no Mundo Rubro-Negro.