A seleção da Bósnia escrevia uma das histórias mais marcantes da Copa do Mundo de 2014. Um país transformado pela guerra, que, duas décadas depois, disputava o seu primeiro Mundial. O orgulho nacional era enorme, ainda mais se considerando as divisões étnicas dos bósnios. E o próprio elenco era um retrato dessas diferenças, representado por jogadores das mais diferentes origens, muitos refugiados em outros países. Dos 23 convocados, 14 saíram dos Bálcãs nos tempos de guerra ou são filhos de migrantes. Boa parte deles chegou até a servir outras seleções de base, mas acabou optando por defender a bandeira de suas origens.

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Em campo, porém, esse nacionalismo bósnio não garantiu um bom desempenho. Erros de arbitragem à parte, a seleção foi muito mal contra a Nigéria e mereceu a derrota. A vitória sobre o Irã, quando o time já estava eliminado, foi em vão. E, de todos os que vestiram a camisa da Bósnia durante a Copa, ninguém a honrou mais que Miralem Pjanic. Justamente o que menos tinha chances de estar no Mundial se permanecesse na sua seleção de base.

A maioria dos bósnios tem passagens por seleções médias ou fortes da Europa. Alemanha, Bélgica, Áustria, Croácia, Holanda. Asmir Begovic defendeu o Canadá que, querendo ou não, já conseguiu ir a uma Copa pela Concacaf. Pjanic, em compensação, teria que fazer milagre para levar Luxemburgo ao Mundial.

O meia havia se mudado ao país ainda na infância, quando a Guerra da Bósnia estourou. No país, foi treinado pelo próprio pai e chegou a atuar pelo Schifflange, pequeno clube luxemburguês.  Acabou levado para as seleções de base quando tinha 15 anos. E, por sorte, pôde disputar o Europeu Sub-17 de 2006, que aconteceria justamente em Luxemburgo. Marcou o único gol de sua equipe, o suficiente para já chamar atenção. Também jogou pela seleção sub-19 e morou na França a partir da adolescência, defendendo o Metz e o Lyon – quem sabe, a ponto de gerar interesse nos Bleus. Mesmo assim, afirmava sempre que preferia a Bósnia.

A primeira partida com a camisa bósnia, no entanto, demorou a acontecer. Pjanic não tinha o passaporte do país onde nasceu e precisou esperar por oito meses até que a Fifa permitisse a mudança de nacionalidade. Em 2008, enfim, a primeira partida. Desde então, se tornou nome cativo na seleção principal.

Na Copa de 2014, Pjanic foi o único de sua equipe que foi muito bem em todas as partidas. Era um dos poucos lúcidos contra a Argentina. Incansável contra a Nigéria, quando nenhum de seus companheiros acertava as jogadas. Comandou a vitória sobre o Irã, marcando um gol e ditando o ritmo do meio-campo. Ao lado de Begovic e Kolasinac, pode voltar ao seu país de cabeça erguida, consciente de que ao menos ele honrou as expectativas de seu povo.