Em sua declaração à rádio France Bleu, Michel Platini tenta se mostrar como o maior malandro do mundo. Diz que fez “um pequeno truque” para que Brasil e França só pudessem se enfrentar em uma eventual final durante a Copa do Mundo de 1998 – ressalte-se, caso fossem líderes de seus respectivos grupos. A afirmação do antigo presidente do comitê organizador do Mundial ganhou ares de “bomba” nos noticiários brasileiros. Obviamente, ele indica que houve um esquema claro de direcionamento no chaveamento do torneio. Mas, longe de querer defender quem não merece, a “revelação” do ex-dirigente acusado por corrupção está distante de ser tão bombástica. Há uma supervalorização de algo que não foi feito às escuras, já sabido há mais de 20 anos.

Do jeito que o caso vem sendo tratado, até parece que a Fifa realizou um teatrinho fajuto no Estádio Vélodrome, durante aquela noite em 4 de dezembro de 1997, quando determinou os grupos da Copa. Não foi exatamente assim, e voltemos duas décadas no tempo para analisar. A determinação dos cabeças de chave para o Mundial da França se baseou no Ranking da Fifa. A França seria a exceção dentro deste esquema, por ser o país-sede. E o direcionamento não precisou de bolinhas frias nos potes ou qualquer fraude do tipo. Ele aconteceu às claras, anunciado antes que Julie Foudy, George Carnus, George Weah ou Jean-Pierre Papin pegassem os papeizinhos.

Antes que o sorteio começasse, o Brasil já estava designado como cabeça de chave do Grupo A. Por ser o então campeão do mundo, como aconteceu até 2002, o time de Zagallo faria a abertura da Copa e aguardava o seu adversário no Stade de France. A França, como anfitriã, também acabou tendo a sua chave definida previamente. Botaram em um grupo no qual o time da casa jogasse nos principais estádios do país, como se repetiu em vários Mundiais. E aí é que pode existir certa margem à discussão, sobre o porquê do Grupo C.

[Este trecho foi corrigido em relação à publicação original] Pausa para uma observação. Antes do sorteio, já era sabido que líderes de certos grupos não poderiam se pegar antes da final. O Brasil, no A, não enfrentaria o primeiro colocado de C, D, G ou H. Assim, tendo em vista como era o modelo do campeonato em 1998, ficava fácil fazer o “truque” de Platini. Bastava brasileiros e franceses cumprirem as expectativas em suas chaves.

Como dito, o porquê do Grupo C deixa margem à discussão. A França poderia ser colocada previamente logo como cabeça de chave do Grupo B? Difícil imaginar que se submetessem ao risco de pegar o atual campeão logo nas oitavas. Poderia ser sorteada em qualquer outra chave? Também poderia, mas correria o risco de não atuar nos principais estádios locais. Ou poderia ser colocada no Grupo E ou no F? Aí é que está o “grande truque” de Platini, mas sem muitos mistérios. Até havia a possibilidade que o jogo acontecesse nas quartas de final, mas nenhuma das potências derrapou em seus grupos, assegurando a primeira colocação. Ao final, brasileiros e franceses se provaram os melhores em 1998, mesmo aos trancos e barrancos na trajetória à decisão.

A Folha de S. Paulo do dia 4 de dezembro, data do sorteio, afirma: “O Brasil já está definido como cabeça do Grupo A. A França, do Grupo C”. Portanto, o truque de Platini era perceptível desde antes da definição dos grupos, bastando olhar apenas como aconteceria o chaveamento a partir dos mata-matas. Nas notícias daquele dia, aliás, não há qualquer queixa quanto ao assunto. Apesar da manchete “Apenas Zagallo vê complô contra o Brasil”, a reclamação se concentrava ao fato de que a Seleção poderia pegar dois europeus no Grupo A, como aconteceu, mas nenhuma menção sobre a questão com a França.

E cabe lembrar que não existia nenhum estranhamento mesmo. O direcionamento de cabeças de chave foi algo comum em várias Copas, sem que gerasse essa celeuma toda. De 1974 a 2006 (com exceção feita a 2002, quando haviam duas sedes), campeão e anfitrião só poderiam se pegar em uma eventual final se fossem os melhores de seus respectivos grupos.

Talvez o caso mais gritante de influência externa tenha sido o da Copa de 1990. A Fifa resolveu criar um critério particular, considerando os desempenhos nos Mundiais de 1982 e 1986, assim determinando previamente todos os cabeças de chave. Itália, Argentina, Brasil, Alemanha Ocidental, Bélgica e Inglaterra sabiam, antes do sorteio, qual seria o seu grupo e as suas sedes. O maior imbróglio envolveu a seleção inglesa, alçada a um posto por desempenho que deveria ser da Espanha. João Havelange justificou a opção por “restringir os torcedores à Sardenha e, assim, lidar melhor com o hooliganismo”. Houve reclamação dos espanhóis, com o treinador Luis Suárez Miramontes afirmando que “se sentiam trapaceados por uma fórmula inventada”.

O Ranking da Fifa surgiu na esteira destes eventos, usado parcialmente ao Mundial de 1994. Os cabeças de chave, ainda assim, eram definidos pelos desempenhos nas Copas anteriores. Naquela ocasião específica, eles foram sorteados sem qualquer pré-determinação quanto às chaves. Porém, antes do evento, a Fifa realizou uma reunião com as seis federações para acertar as sedes. Politicagem pura, no caso. A Alemanha, por exemplo, exerceu seu direito como campeã e preferiu Chicago; os Estados Unidos, optaram pela Califórnia, próxima à base da federação; a Itália escolheu Nova York, dada a sua colônia. Ainda assim, um ex-executivo da Fifa garante que o sorteio da Copa do Mundo de 1994 foi manipulado às demais seleções, para garantir que o México jogasse em Orlando. Aí sim, algo que teria sido feito às escuras e merece investigação.

Outro caso interessante de se observar é o da Copa de 2002. O esquema utilizado foi similar ao da Copa de 1998. A França, atual campeã, ficou no Grupo A. Jogaria a estreia do Mundial em Seul, como definido anteriormente. A Coreia do Sul foi pré-determinada no Grupo D, atuando em casa, enquanto o mesmo aconteceu com o Japão no Grupo H. Por não serem anfitriões fortes, talvez Platini prefira não falar de “truque” quatro anos depois. Para atuarem apenas diante de suas torcidas, houve um esquema especial que permitia a japoneses e sul-coreanos fazerem seu caminho inteiro até as semifinais apenas atuando em seus estádios, o que criou “dois torneios paralelos entre 16 times”, que só se cruzariam na final. É o que explica o Brasil x Turquia das semis. Até a decisão, os brasileiros, cabeças de chave do Grupo C, pegaram apenas adversários de A, C, F e H. Em Yokohama, então, duelaram com o sobrevivente de B, D, E e G – a Alemanha, no caso, vinha do Grupo E.

Se há motivos para celeuma, seria mais por 2006. Naquela Copa, o anfitrião passou a disputar a abertura, não mais o campeão vigente. Assim, só seria necessário pré-determinar o Grupo A com o país-sede. Contudo, a organização na Alemanha arranjou um jeitinho para colocar o Brasil, atual campeão, no Grupo F – sob a justificativa de que o time de Carlos Alberto Parreira atuaria “nos maiores estádios”, Berlim, Munique e Dortmund. Se confirmassem o favoritismo na primeira fase, ficariam longe um do outro até a decisão. De fato, brasileiros e alemães só se cruzariam em uma eventual final, disputada entre os seus algozes, França e Itália.

A partir de 2010, a África do Sul foi o único cabeça de chave conhecido previamente. Durante o sorteio, Charlize Theron não precisou de “truques” à seleção que sequer passou a fase de grupos. Cabe lembrar que, neste Mundial, os atuais campeões também começaram a disputar as Eliminatórias, o que derrubava mais uma justifica para a pré-determinação. Em 2014, novamente, apenas o Brasil estava colocado como cabeça de chave do Grupo A – e correu sérios riscos de pegar a campeã anterior, a Espanha, logo nas oitavas de final.

Dito tudo isso, vale ressaltar que as suspeitas quanto aos sorteios da Copa do Mundo são cabíveis. Não coloco a minha mão no fogo para dizer que “não há fraude”. O mínimo sinal de irregularidade merece as devidas investigações. Mas o que foi feito em 1998, apesar de discutível, não tem nada de oculto ou maquiado. As declarações de Platini só escancararam aquilo que, a quem tem um pouco mais de percepção, estava evidente desde antes de 4 de dezembro de 1997. Os questionamentos de hoje poderiam muito bem ter vindo 20 anos atrás.