Lionel Messi vibra ao marcar contra a Bósnia, no Maracanã (AP Photo/Victor R. Caivano)

Pode ter faltado futebol à Argentina, mas não faltou alma a Messi

Liderar um time é uma responsabilidade que, algumas vezes, os craques não são capazes de fazer. Há quem consiga ser o craque tecnicamente e o líder do time, mas são dois pesos grandes a carregar, que só grandes nomes conseguem fazer. Lionel Messi, aos 26 anos, leva no braço a braçadeira de capitão da Argentina, um dos países mais apaixonados por futebol e com o sonho de milhões de pessoas pendurados na camisa azul e branca. É também o grande craque do time, aquele de quem se espera um passes geniais e gols decisivos. Contra a Bósnia, na estreia da Copa, no Maracanã, era preciso dar um cartão de visitas. Poderia até faltar futebol, como faltou, mas nunca poderia faltar alma.

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Craques não vivem só de boas jogadas. Vivem de criar momentos épicos, de fazer parecer fácil um lance difícil, de dar um chute perigoso e intimidar o adversário, que já pensa “lá vem ele de novo”. Didier Drogba conseguiu isso ao entrar no jogo contra o Japão, no sábado. Lionel Messi estava apagado, gerando até piadas no Twitter, como a que disse que o craque teria se movimentado menos que o exoesqueleto de Miguel Nicolelis na abertura da Copa. Uma brincadeira, claro, mas que mostrava que ele estava aquém do esperado. Mas os craques podem trazer todo seu histórico à tona com um lance. Uma jogada, um domínio de bola, um passe, um gol.

Mas veio o minuto 65. E veio aquele lance que parece ser a sua marca registrada: uma movimentação pelo meio para o chute no cantinho, rasteiro, longe do alcance do goleiro. Com a categoria e a precisão que ele se acostumou a mostrar nos últimos anos. Um gol que fez Messi explodir. Uma corrida desenfreada, socos no ar, braços balançando com força, com raiva, como se fosse chutar o que aparecesse pela frente naquele momento. Uma grito da alma, como se berrasse ao mundo que ele está ali, que a Argentina está ali. Uma explosão de fúria de um jogador que tem o seu estilo frio em frente ao gol, mas que está longe de ser alguém de sangue frio. Foram 65 minutos até que o craque estufasse a rede, no seu primeiro grande lance no jogo. Suficiente para despertar o time e assustar o adversário. Para criar o fantasma na cabeça daqueles que tentam o parar.

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O gol de Messi é como uma sombra que cobre todo o dia adversário, que vê do outro lado um monstro gigante surgir. Como combater um craque como Messi se ele resolve jogar o seu futebol? Parece uma missão impossível, ainda mais para uma seleção como a Bósnia, estreante em Copa, jogando em um dos estádios mais místicos da história do futebol, o Maracanã, contra uma seleção com a camisa pesada de um bicampeão mundial como a Argentina, e, pior, com dezenas de milhares de argentinos colorindo o estádio de albiceleste. É muita história de uma vez, é muito peso futebolístico para absorver de uma vez só.

O gol que a Argentina sofreu no final só serviu para deixar o torcedor argentino com o coração na mão mais alguns minutos. Sofrido, suado, dramático. A Argentina não jogou bem, esteve longe do seu melhor. Messi não foi o craque que decidia jogo após jogo em cada partida das Eliminatórias. Não importa muito. Importa vencer, como venceu. Importa ter Messi marcar o gol, que ele tanto perseguiu na África do Sul e não saiu. Importa é que a Argentina não esteve no seu potencial e mostrou suas falhas defensivas, táticas, técnicas, humanas. Mas mostrou, principalmente, que tem um camisa 10 que é craque, que contrasta a sua tranquilidade em frente às redes com o sangue quente que colore o rosto de rosa ao final do jogo, em meio ao suor e às lágrimas que causa nos torcedores com seus lances.

Futebol é mais do que um esporte e Copa do Mundo é muito mais que um torneio. Jogar uma Copa é um peso para qualquer jogador, especialmente quem carrega nos ombros a responsabilidade de ser o grande nome, o tempo todo, de um país que tem fome de glórias. Messi sabe do mundo que carrega nas costas. Sabe que terá ao seu lado, em Belo Horizonte e em Porto Alegre, onde o time jogará as próximas partidas, uma torcida fanática, barulhenta e numerosa. Messi sabe que ser o melhor do mundo não basta para ser campeão do mundo. Que jogar bem é só parte do roteiro, e nem é uma parte fundamental. É preciso alma. E alma Messi mostrou que tem.

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