Diego Braghieri comemora gol do Arsenal-ARG (AP Photo/Luis Hidalgo)

O guia Trivela-Impedimento das quartas da Libertadores

Diante de uma das edições mais alternativas da Libertadores em muitos anos, com apenas dois campeões ainda vivos e recheada de equipes tão modestas quanto simpáticas, pode parecer que a atual competição está se desenvolvendo sob o signo da aleatoriedade. É claro que o acaso tem grande importância no futebol, mas mesmo os times mais outsiders desta Libertadores chegam às quartas de final com méritos e louvor. Para compreender quais são os melhores valores de cada equipe e o que elas fizeram para chegar até aqui, Impedimento e Trivela juntaram forças para traçar um panorama das oito equipes que mantêm vivo o sonho de afixar sua plaquinha na base da Copa Libertadores.

Arsenal de Sarandí

Por Leonardo Lepri Ferro

Se a máxima “não há mais bobo no futebol” ainda precisa ser exemplificada, em Sarandí reside esse famoso lugar comum. Em sua quarta participação na Copa Libertadores (terceira consecutiva), o clube já tem motivos para festejar uma campanha histórica: é a primeira vez que avança à fase de mata-mata da competição. Mas engana-se quem pensa que o Arsenal é uma mera casualidade. Destaca-se no futebol argentino por jamais ter sido rebaixado desde que chegou à elite em 2003, além de reunir importantes conquistas locais (Clausura 2002 e Copa Argentina 2013) e internacionais (Copa Sul-Americana 2007).

Fundado e gerenciado pela família Grondona, de turvas negociatas, o time é uma receita de sucesso. Alcançou, com Gustavo Alfaro no banco de reservas, a estabilidade que os grandes do país invejam. O ex-treinador, com duas passagens pelo clube e cuja a última durou quatro anos, deixou o comando da equipe às vésperas do duelto contra o Unión Española, pelas oitavas de final. O presidente Julio Ricardo Grondona, filho do mandatário da AFA, agiu rápido e contratou uma comissão técnica que entende mais de Libertadores e CATIMBA do que qualquer esquema tático pode propor: Martín Palermo, auxliado por Rolando Schiavi e Roberto Abbondanzieri.

A classificação final da fase de grupos diz que o Arsenal passou como o melhor segundo colocado. Mas os números escondem detalhes importantes. Por exemplo, teve a segunda melhor defesa da competição: quatro gols sofridos (o Vélez sofreu três, mas já caiu fora). O segundo melhor ataque desta fase ao lado de Defensor Sporting e Santos Laguna, com 11 gols marcados, ficando atrás somente do Cruzeiro autor de 13 tentos.

A campanha até aqui

Venceu quatro dos seis jogos da fase de grupos (destaque para o 100% de aproveitamento em Sarandí). Perdeu duas vezes e, em ambas as ocasiões, por apenas um gol de diferença; na estreia no México diante do Santos Laguna (1 a 0) e na virada sofrida para o Peñarol no Centenario de Montevidéu (2 a 1). Garantiu seu lugar nas oitavas com uma rodada de antecedência, graças à PÍFIA campanha do gigante uruguaio.

O personagem

O forte do Arsenal é o conjunto. Um punhado de jogadores, alguns renegados, que funcionam muito bem dentro de um time solidário. O veterano goleiro Campestrini é um dos referentes. Ainda no setor defensivo, Braghieri e Nervo se destacam mais pelo comprometimento do que pelo talento. Martín Rolle, Sperduti e Aguirre são os bons nomes de um meio de campo mais habilidoso que o restante do plantel. Na frente, Julio Fruch e Caraglio (que os narradores brasileiros insistem em chamar de Milton por razões fonéticas óbvias) são jogadores que conhecem bem o caminho do gol.

O grande jogo

O Arsenal teve boas apresentações dentro de casa. Porém, o grande jogo da equipe até aqui foi a vitória por 1 a 0 sobre o Unión Española no Chile, por ter definido a vaga nas quartas diante de um adversário mais organizado, levemente superior e favorito. Veja o vídeo.

Melhor campanha na Libertadores até hoje

O atual desempenho é o melhor do Arsenal em Libertadores. Antes, apenas a campanha de 2013, que quase complicou o São Paulo, chegou a ilusionar o Viaducto, como é conhecido o time do sul da grande Buenos Aires.

Nacional Querido

Por Daniel Cassol

David Mendoza comemora classificação do Nacional-PAR em cima do Vélez (AP Photo/Victor R. Caivano)

David Mendoza comemora classificação do Nacional-PAR em cima do Vélez (AP Photo/Victor R. Caivano)

A prova cabal de que a Libertadores é uma competição deveras carismática é que o Nacional do Paraguai foi o pior entre os 16 times classificados na primeira fase e eliminou nas oitavas o Vélez Sarsfield, dono da melhor campanha entre todas as equipes. Mais do que isso: assim como o seu adversário Arsenal de Sarandí, o Nacional jamais havia ultrapassado a fase de grupos. E agora está aí, fazendo história.

A classificação na primeira fase foi construída com dois empates contra o Atlético Mineiro e uma vitória agônica na última rodada diante do Independiente Santa Fe, no grande jogo que descortinou a América para o clube paraguaio.

O Nacional Querido é uma equipe bem montada pelo técnico Gustavo Morínigo, que participou dos três títulos nacionais recentes do clube, como jogador e como técnico. Com uma proposta bastante defensiva, aposta na experiência do goleiro Ignacio Don, do zagueiro Raul Piris e do volante Marcos Melgarejo. O meio-campista Silvio Torales, 22 anos, é o artilheiro da equipe com três gols. Na frente, o Nacional conta com a experiência de Fredy Bareiro, ex-Olímpia, autor de dois gols nesta edição da Libertadores.

A campanha até aqui

Foram oito jogos, três vitórias, três empates e duas derrotas; 11 gols feitos, 11 gols sofridos. Vejam que é lindo o futebol: o Nacional se classificou com oito pontos, o mesmo que Lanús e San Lorenzo, ainda vivos na competição. Nas oitavas, os paraguaios eliminaram o Vélez Sarsfield, melhor campanha da primeira fase.

O personagem

Num time que se destaca pelo conjunto, poderíamos eleger o goleiro Nacho Don como figura do time, pela experiência, ou Silvio Torales, artilheiro com três gols. Mas o destaque vai para Fredy Bareiro, autor de dois gols até agora, decisivo na jogada do gol contra o Vélez no Paraguai e jogador experiente que, com o Olimpia, foi vice-campeão da Libertadores em 2013.

O grande jogo

Apesar da classificação histórica sobre o Vélez, o grande jogo do Nacional foi o último da primeira fase. Depois de estar sendo eliminado duas vezes, venceu o Santa Fe e garantiu a classificação inédita nos minutos finais. Veja o vídeo.

Melhor participação na Libertadores até hoje

O Nacional Querido nunca havia passado da fase de grupos. A melhor colocação até hoje foi um terceiro lugar no grupo em 2012.

Atlético Nacional

Por Douglas Ceconello

Torcida do Atlético Nacional em jogo contra o Bahia pela Copa Sul-Americana (AP Photo/Raul Spinasse)

Torcida do Atlético Nacional (AP Photo/Raul Spinasse)

Muito batemos nesta tecla, mas é fato que o Atlético Nacional é o clube colombiano mais QUENTE do momento, e já faz algum tempo. Na verdade, o clube se reestruturou nos âmbitos administrativo e econômico a partir de 1996, quando foi adquirido pela organização do empresário Carlos Ardila Lülle, passando a viver uma época de solidez financeira, de forma totalmente limpa e honesta. Nos últimos anos, a época de bonança refletiu nos resultados dentro do campo, e a equipe se tornou a maior vencedora da Colômbia. No Brasil, a imagem ficou meio arranhada devido às duas derrotas incontestáveis contra o Grêmio, mas o fato é que o time PAISA pode ser considerado um dos favoritos extremos a levantar a atual Copa Libertadores, já que o time conta com a qualidade individual ADMIRÁVEL de jogadores como Valencia, Sherman Cárdenas e Cardona. Entre as oito equipes que sobraram na contenda, talvez apenas o Cruzeiro se equipare em termos de excelência técnica.

Apesar do reconhecimento pelos títulos vencidos nos últimos dois anos, havia certas restrições ao fato do técnico Juan Carlos Osorio pretender instituir um modelo de jogo muito VERTICAL, menos colombiano e mais INGLÊS – de 2001 a 2006, ele trabalhou no Manchester City. Porém, nos últimos meses, o estilo de jogo, talvez até devido às críticas, e também graças ao crescimento de Shermán Cardenas, deixou de apostar tanto na ligação direita para ser mais cadenciado. O resultado é que, além de se identificar mais com a cultura colombiana de manejar a pelota, o Nacional também adquiriu um futebol mais completo, inclusive adotando estratégias diferentes para vários confrontos cruciais da Libertadores começou. Assim, voltou às quartas de final após 19 anos e se credencia a conquistar a América, refazendo o caminho que, ainda que não se recorde de forma tão nítida, certamente conhece.

A campanha até aqui

Contando as seis partidas do famigerado Grupo da Morte, que frequentou junto de Grêmio, Newell’s e Nacional (no qual acabou em segundo, com 10 pontos, quatro a menos que o Grêmio e dois a mais que o Newell’s), e mais as duas partidas das oitavas contra o Galo, o Atlético Nacional orgulha-se de ostentar a seguinte campanha: quatro vitórias, dois empates e duas derrotas, com nove gols marcados e nove gols sofridos, porque fazer saldo de gols é para os times inseguros.

O personagem

Técnico que ainda pode ser considerado na FLOR DA IDADE, com 52 anos, o colombiano Juan Carlos Osorio é responsável por uma pequena revolução técnica desde sua chegada ao comando do Verde, em maio de 2012. Com 5 títulos na GARUPA (e novamente entre os semifinalistas da atual Liga Postobón), o Atlético Nacional é o maior acumulador de canecos dos últimos anos no futebol cafetero. Após passar cinco anos como auxiliar técnico no Manchester City, Osorio estreou como mandatário supremo da casamata em 2006, no Millonarios, fez umas andanças pelos Estados Unidos e, em 2009, voltou à Colômbia para treinar o Once Caldas, onde permaneceu até meados de 2011 – ele era o técnico daquele time que arrebentou o Cruzeiro nas oitavas da Libertadores, em plena Arena do Jacaré, e caiu nas quartas após um duro embate diante do Santos, que seria campeão. Como jogador, a carreira de Osorio não teve grandes LUZES, mas conta com um fato até agora MEIO desconhecido: além de jogar na Colômbia, entre 1984 e 1985 ele atuou no Internacional.

O grande jogo

Sem sombra de dúvida, o PULO DO GATO do Atlético Nacional nesta Libertadores aconteceu na última partida da primeira fase, até porque daquele jogo dependia sua classificação às oitavas. Com o Grêmio já classificado, o time colombiano precisava vencer o Newell’s em Rosario (o empate garantia a vaga aos argentinos). É verdade que o arqueiro leproso GUZMÁN tratou se facilitar as coisas logo no início, rebatendo uma reposição sobre Trellez e entregando o primeiro gol, mas naquela jornada os verdolagas mostraram, sem qualquer ATENUANTE, todos os motivos pelos quais eram apontados como um dos favoritos nesta Libertadores – marotice, velocidade e a indesmentível leveza cafetera para viver e jogar futebol. Fizeram 3 a 1 ao natural e os rosarinos aprenderam por que, sob hipótese alguma, se pode deixar Sherman Cárdenas flanando em campo sem marcação – além de marcar o segundo gol, o meia franzino e cabeludo ainda executou um passe magistral para Berrío matar a torcida rojinegra, não de lepra, como diz a faixa, mas de tristeza. Veja o vídeo.

Melhor campanha na Libertadores até hoje

O Atlético Nacional pode se gabar de ser um dos dois campeões que conseguiram ingressar nas quartas de final desta Libertadores UNDERGROUND que está em curso. Até hoje, a mais verdolaga de todas as copas foi disputada em 1989, quando o time treinado por ninguém menos que Francisco Maturana, que contava com mitos do porte de Higuita, Alvarez, Usuriaga e Trellez, deixou pulverizados pelo caminho adversários como Racing, Millonarios e Danubio. Na grande final, bateu ninguém menos que o Olimpia de Amarilla e Ever Almeida: devolveu os mesmos 2 a 0 da primeira partida e venceu nas penalidades, com grande atuação de Higuita, sendo o primeiro time colombiano a levantar a Libertadores. O Atlético Nacional ainda foi vice-campeão em 1995, perdendo o título para o Grêmio, e semifinalista em 1990 e 1991.

Defensor Sporting

Por Bruno Rodrigues

Zeballos comemora gol do Defensor (AP Photo/Bruno Magalhães)

Zeballos comemora gol do Defensor (AP Photo/Bruno Magalhães)

Com a péssima campanha de Nacional e Peñarol, os dois grandes do futebol uruguaio, o Defensor é quem tem representado (e bem) nesta edição da Copa Libertadores a vitoriosa e respeitada história do paisito. Regidos por seu talentoso camisa 10, Giorgian De Arrascaeta, os violetas deixaram a Universidad de Chile para trás na fase de grupos e se classificaram em primeiro na chave que tinha, além dos chilenos, o Cruzeiro, para quem não perderam no torneio (vitória no Uruguai e empate no Mineirão).

Veloz, a equipe não conta apenas com a qualidade de De Arrascaeta para seguir desbancando adversários na competição. O brasileiro Felipe Gedoz, destaque no triunfo do Defensor sobre o Cruzeiro, dá trabalho pelos lados do campo e é muito perigoso na bola parada. O atacante Matías Alonso, o goleiro Campana e o experiente volante Andrés Fleurquin, de 39 anos, são algumas das figurinhas carimbadas desse bom time, comandado por Fernando Curuchet, que tem demonstrado grande disciplina tática para chegar até onde chegou.

Além de se classificar em primeiro no grupo que tinha Cruzeiro, La U e Real Garcilaso, o Defensor Sporting demonstrou grande capacidade de superação ao reverter a derrota por 2 a 0 na altitude de La Paz, no primeiro jogo das oitavas de final. Em Montevideu, a equipe devolveu o placar e obteve a classificação nos pênaltis.

A campanha até aqui

Os violetas têm até o momento quatro vitórias, dois empates e duas derrotas; marcaram 13 gols e sofreram sete. Entre as melhores campanhas da primeira fase, é a única que ainda se mantém viva na competição: Vélez, Grêmio, Santos Laguna e Atlético Mineiro já caíram.

O personagem

A grande revelação, sem dúvidas, é De Arrascaeta, meia de 19 anos que já despertou o interesse do mercado. No entanto, é uma questão de justiça destacar o veterano Nicolás Olivera, 35 anos, como o grande personagem do Defensor até agora. Foi dele a assistência para Alonso anotar, diante de La U, o gol da classificação do Defensor. Além disso, deu outro passe para gol e anotou um golaço nos 2 a 0 sobre o Strongest, deixando o seu também na disputa por pênaltis que levou os uruguaios para as quartas de final. Na hora da decisão, o Defensor pôde contar com o ídolo Olivera.

O grande jogo

Defensor 2 x 0 The Strongest, jogo da volta das oitavas de final. Depois de perder pelo mesmo placar no jogo de ida, em La Paz, os violetas correram atrás em Montevidéu e, com dois gols no segundo tempo, levaram o confronto para os pênaltis. Foi aí que a estrela do goleiro Campana brilhou, com o arqueiro pegando duas cobranças e ajudando os uruguaios na classificação para as quartas. Veja o vídeo.

Melhor campanha na Libertadores até hoje

Quartas de final em 2009, quando caiu para o Estudiantes, que seria o campeão.

San Lorenzo

Por Leandro Stein

Ocupação no subúrbio de Buenos Aires tem Daisy Gomes, a criança da foto, e uma camisa do San Lorenzo pendurada. A fé é pela esperança de conseguir habitação - e para o San Lorenzo seguir adiante (AP Photo/Natacha Pisarenko)

Ocupação no subúrbio de Buenos Aires tem Daisy Gomes, a criança da foto, e uma camisa do San Lorenzo pendurada. A fé é pela esperança de conseguir habitação – e para o San Lorenzo seguir adiante (AP Photo/Natacha Pisarenko)

De favorito a decepção e, de novo, um dos favoritos. A campanha do San Lorenzo é marcada pelas reviravoltas, pelos pequenos milagres que fazem os azulgranas acreditarem que não torcerão mais pelo ‘Clube Atlético Sin Libertadores de América’. O Ciclón possui um time de qualidade, montado na prancheta de Edgardo Bauza, que herdou o bom trabalho de Juan Antonio Pizzi. Porém, a equipe vai se superando graças à força que faz aparecer nos momentos de maior aperto. Houve uma pitada de sorte, que muitos atribuem à bênção divina de Boedo ganhar um Papa em sua hinchada. Mas o sangue nos olhos, que às vezes faltava aos cuervos, foram notáveis contra Botafogo e Grêmio. O suficiente para encorajar os torcedores a acreditarem que este ano será diferente.

O bom momento do San Lorenzo vem desde o ano passado, antes mesmo de Mario Jorge Bergoglio ser eleito o novo Papa. A chegada de Matías Lammens à presidência em 2012, apoiado pelo empresário Marcelo Tinelli, diminuiu a instabilidade política interna. E isso ajudou demais o clube, que entrou nos eixos e trouxe bons reforços, colhendo os frutos com a conquista do Torneio Inicial. O Ciclón protege-se bem na defesa, com o robusto apoio do meio-campo e um goleiro que costuma brilhar na hora da decisão. Já na frente, possui jogadores ágeis como Ignacio Piatti, Ángel Correa e Héctor Villalba, que garantem um estilo mais vertical – e que, com a ajuda de Nicolás Blandi, têm conseguido suplantar na medida do possível a ausência do artilheiro Martín Cauteruccio. E ainda tem a pressão dos 45 mil azulgranas que podem lotar o Nuevo Gasómetro, onde só perdeu uma vez neste ano.

A campanha até aqui

Campeão argentino no segundo semestre de 2013, o San Lorenzo chegou à Libertadores com toda a pompa, mas demorou a justificá-la. Fez uma série de jogos fracos, com apenas uma vitória nas cinco primeiros rodadas, até o triunfo sobre o Botafogo, que garantiu a classificação às oitavas com oito pontos – além de somente seis gols marcados, o pior ataque entre os 16 que avançaram. Em compensação, a defesa teve bons números, com cinco tentos sofridos. O setor fez a diferença para segurar o Grêmio nas oitavas, com o Ciclón avançando graças às duas defesas de Torrico na vitória nos pênaltis.

O personagem

Nas noites de Libertadores, em algum recanto do Vaticano, ouvem-se sempre o tilintar das contas do rosário. Você pode até não ser um crente, mas é difícil dissociar os momentos incríveis da campanha e a fé que o Papa Francisco tem nos cuervos. A classificação tão provável quanto um camelo passando pelo buraco de uma agulha, as bolas na trave que sempre entram, as luvas bentas de Torrico. As atuações do pontífice são tão convincentes que até Dalai Lama passou a ser cogitado pelos rivais como reforço na Libertadores. Mas, caso você ainda prefira os fatos terrenos do futebol, é possível apontar outro destaque: Ángel Correa. O atacante de 19 anos é a grande revelação do clube, habilidoso e decisivo. Marcou os gols que garantiram duas das três vitórias do time, além de também ter dado a assistência para o primeiro tento contra o Botafogo. E, como história mais curiosa, o fato de ter sido crismado pelo Papa quando ele ainda era o arcebispo de Buenos Aires. Nunca duvide…

O grande jogo

O duelo com o Botafogo na rodada decisiva da fase de grupos não foi um jogo entre dois times. Afinal, os alvinegros viajaram a Boedo entregues, conformados com a eliminação que ainda não tinha se consumado, mas que era evidente. Acabou sendo um desafio entre três equipes. O San Lorenzo precisou superar suas próprias desconfianças e ainda secar o fantástico jogo entre Unión Española e Independiente del Valle, no Chile. Enquanto os cuervos passavam pelos botafoguenses sem tomar conhecimento, se assombravam com o que ouviam sobre o confronto no Estádio Santa Laura. Nove gols, três viradas no placar, a classificação nas mãos dos equatorianos. Para evitar a desgraça, o San Lorenzo precisava ampliar os 2 a 0 no placar. Aos 43 do segundo tempo, o chute de Piatti tocou a trave cruelmente, mas entrou. A vaga nas oitavas se devia àquele gol, que fez a tensão do Nuevo Gasómetro se tornar explosão. Veja o vídeo.

Melhor participação na Libertadores até hoje

Quando Francisco era apenas Jorge Mario, um fiel servo, certamente sofreu com as três vezes em que o San Lorenzo morreu na praia. Logo na primeira Libertadores, os cuervos caíram nas semifinais para o Peñarol, quando nem Sanfilippo salvou e Spencer decidiu para os carboneros no jogo de desempate. Treze anos depois, os portenhos voltaram a cair na mesma etapa do torneio, com o time de Telch, Scotta e Olguín sucumbindo ao Independiente no triangular. Por fim, foi em 1988 a última vez que o San Lorenzo chegou tão longe na competição sudaca, sem segurar o ótimo Newell’s de Batistuta, Sensini e Tata Martino.

Cruzeiro

Por Ubiratan Leal

Torcida do Cruzeiro (AP Photo/Jorge Saenz)

Torcida do Cruzeiro (AP Photo/Jorge Saenz)

O Cruzeiro é o time com elenco mais completo do Brasil, e o que pratica o futebol mais atraente. Tem meias rápidos e habilidosos, que criam muita movimentação e pressionam o adversário. Mas o papo aqui é Libertadores, e a Raposa só está nas quartas de final porque esquece todas essas virtudes no aeroporto. Na competição continental, o que tem carregado o time mineiro é a capacidade de encontrar forças quando elas parecem não existir, e arrancar, na marra, resultados improváveis.

Foram duas vezes em que os celestes pareciam virtualmente eliminados. E conseguiram vitórias fora de casa sobre Universidad de Chile e Cerro Porteño, sempre no contra-ataque, quando não se espera. O modo como se deu a classificação nas oitavas, no Paraguai com um jogador a menos, pode dar a força decisiva para o campeão brasileiro deslanchar na competição. Algo necessário, porque só uma vez a cada trinta anos um time consegue ser campeão da Libertadores passando tanto aperto a todo momento. E a cota de 2000 a 2030 já foi atendida no ano passado.

A campanha até aqui

Foram 10 pontos na fase de grupos, com três vitórias, um empate e duas derrotas. Nas oitavas de final, uma vitória e um empate. Curiosamente, os dois empates da campanha foram no Mineirão. Na campanha do título do Brasileirão 2013, a Raposa empatou apenas um em 15 jogos em seu estádio.

O personagem

Em um time que gosta de dar emoções fortes a seu torcedor, é a defesa que tem resolvido lá na frente. Dos 16 gols, seis foram anotados por defensores (os zagueiros Dedé e Bruno Rodrigo e o lateral-esquerdo Samudio). E, entre eles, gols muito importantes: os da vitória sobre a Universidad de Chile em Santiago, o que garantia a classificação no saldo contra o Real Garcilaso, o do empate cardíaco contra o Cerro Porteño em Belo Horizonte e o que abriu a vitória sobre o Cerro em Assunção. Apesar de ser o menos goleador do trio, Dedé é a referência. Pela experiência, projeção na carreira, capacidade técnica e liderança, tem sido o homem que empurra o Cruzeiro quando é preciso algum empurrão extra, aquele espírito competitivo.

O grande jogo

Cerro Porteño joga pelo empate por 0 a 0, mas é melhor desde o primeiro minuto. Cria diversas chances, e o placar só ficou parado porque Romero desperdiça oportunidades como troca de roupa e Güiza mais tromba com a zaga do que joga. Ainda assim, o gol paraguaio parece questão de tempo, ainda mais após a expulsão de Bruno Rodrigo. Até que, em uma falta despretensiosa na intermediária, Éverton Ribeiro faz o chuveirinho, Dedé desvia e a bola encobre o adiantado Gatito Fernández. Se o Cruzeiro for campeão, a torcida falará por décadas da “Batalha de Assunção”, da vitória heróica em gramados paraguaios, da garra de Dedé, das defesas de Fábio. É daqueles jogos que marcam uma campanha. Veja o vídeo.

Melhor campanha na Libertadores até hoje.

O Cruzeiro é um dos dois times ainda vivos na Libertadores 2014 que já conquistou o troféu. Foi em 1976 e em 1997.

Bolívar

Por Gabriel Dudziak

Callejón, do Bolívar, comemora gol contra o Emelec (AP Photo/Juan Karita)

Callejón, do Bolívar, comemora gol contra o Emelec (AP Photo/Juan Karita)

O senso comum diz que os times bolivianos são altitude e nada mais. Obviamente que o Bolívar se vale dos 3.700 metros de sua cidade, mas nesta Libertadores La Academia é bem mais que altura, conseguindo uma vitória contra o León no México e um empate com o Flamengo em pleno Maracanã. O futebol não é vistoso, e nem poderia, mas a competitividade e capacidade de reagir a placares adversos deixa o time azul com chances de ir ainda além.

A equipe atua normalmente no 4-4-2 com o uruguaio William Ferreira como referência e os velocistas “El conejo” Arce e o espanhol Callejón no auxílio. Os arremates de longa distância são uma das jogadas preferidas do Bolívar, acostumado a chutar de longe em La Paz.  A defesa não é das mais confiáveis, mas tem dado conta do recado, sobretudo com a proteção de Walter Flores e as defesas mirabolantes de Quiñonez.

A campanha até aqui

Foram oito jogos com três vitórias, quatro empates e uma derrota, tendo feito 11 gols e sofrido 9. A equipe se classificou em primeiro no grupo 7 e passou às quartas com dois empates contra o León; 2 a 2 no México e 1 a 1 em La Paz. Dos 13 pontos feitos até aqui, somente oito foram na capital boliviana, o que deixa bem claro que não é só morro; é bola também.

O personagem

A figura do Bolívar está no banco de reservas e chegou com a competição em curso. O espanhol Xabier Azkargorta é bem conhecido por seu vasto bigode, mas também pelo currículo que inclui a primeira e única classificação da Bolívia a uma Copa do Mundo, em 1994. Neste ano ele decidiu abandonar a seleção verde para pegar o Bolívar na Libertadores. Até aqui ele tem conseguido fazer o time ser competitivo e eficiente.

O grande jogo

Sem sombra de dúvida o empate por 2 a 2 com o Flamengo no Maracanã foi a melhor atuação do Bolívar até aqui. Uma das maiores de sua história aliás. A equipe boliviana saiu na frente, tomou a virada, mas teve forças para arrancar a igualdade. Veja o vídeo.

Melhor participação na Libertadores até hoje

La Academia foi semifinalista em 1986, mas num formato de competição que não é mais utilizado. Naquele ano o Bolívar venceu o grupo 3 que contava com Jorge Wilstermann, Universitario e UTC, ambos do Peru. Na fase seguinte seis times foram divididos em dois grupos. O time ficou no grupo B junto com América de Cali e Olimpia. Os colombianos avançaram e perderam para o River na decisão.

Lanús

Por Leandro Stein

Santiago Silva, centroavante do Lanús

Santiago Silva, centroavante do Lanús

Permanecer nas cabeças do Campeonato Argentino, conquistar a Copa Sul-Americana e, agora, se colocar entre os oito melhores da Libertadores não são meras coincidências ao Lanús. É fruto de um trabalho bem feito há quase uma década, com a montagem de times sólidos e boas observações no mercado. Com um ou outro medalhão, o Granate esteve em cinco das últimas sete edições da Libertadores, o máximo de participações entre os clubes argentinos no período – empatado com o Vélez. Sinal mais do que evidente da regularidade nas competições domésticas, o que tem sido raro até mesmo para os grandes argentinos. Agora, essa ascensão começa a ressoar para o resto do continente.

Guillermo Barros Schelotto tem sob suas ordens aquele típico adversário chato de se encarar. Que atua de maneira compacta, com a defesa liderada por Paolo Goltz e ainda contando com o goleiro Agustín Marchesín para fazer seus milagres quando preciso. Que sabe aproveitar as bolas paradas e os lançamentos longos, através da experiência de Leandro Somoza no meio-campo. E que possui um ataque que se completa, através das boas opções com Lautaro Acosta, Ismael Blanco e Santiago Silva – mais do que tarimbado na Copa e com fome de conquistá-la há tempos. Isso sem contar no potencial do Granate em La Fortaleza, um dos principais caldeirões sudacas, onde não perde por torneios continentais desde 2010.

A campanha até aqui

Time saído da pré-Libertadores, com a terceira pior campanha entre os classificados às oitavas. Duas afirmações verdadeiras, mas que dizem muito pouco sobre o Lanús. Os argentinos precisaram passar pela fase prévia, é verdade, mas com a tranquilidade de duas vitórias sobre o Caracas, um clube que costuma encardir. Da mesma forma como o grupo do Granate foi um dos mais equilibrados não apenas desta edição, como da história da Libertadores. Sem vencer nenhum de seus primeiros três jogos, o time reverteu sua situação com as vitórias sobre Deportivo Cali e Cerro Porteño em casa no returno e carimbou a vaga no suado empate com o O’Higgins no Chile. Nas oitavas, o Santos Laguna foi bem menos perigoso do que prometia e o Lanús venceu os dois encontros.

O personagem

Muitos afirmam que o futebol argentino não conta com bons goleiros há tempos. Certamente não viram os últimos jogos de Agustín Marchesín. O camisa 1 já passava por uma boa fase na meta do Lanús, mas chegou a um novo patamar nesta Libertadores. Foram só seis gols sofridos em oito partidas, bom número explicado por suas atuações. Sua partida contra o O’Higgins foi fora de série, fazendo várias defesas difíceis e salvando até pênalti. Contra o Santos Laguna, principalmente na viagem ao México, pegou tudo.

O grande jogo

Três times com sete pontos, outro com seis. A rodada final do Grupo 3 não poderia ser mais parelha, com todas as equipes dependendo apenas de si para ir às oitavas. A missão do Lanús, todavia, não era das mais simples: segurar o O’Higgins, atual campeão chileno, fora de casa. Os anfitriões pressionaram muito. Nada superava a muralha argentina, nem mesmo um pênalti aos 41 minutos do segundo tempo, quando Marchesín rebateu o chute de Calandria. Se a bola entrasse, o Granate estava fora. Avançou, após deixar muitos torcedores com taquicardia. Veja o vídeo.

Melhor participação na Libertadores até hoje

O Lanús disputou a Libertadores pela primeira vez em 2008. E nunca o Granate tinha chegado tão longe quanto neste ano. Caiu nas oitavas em 2008, para o Atlas, e em 2012, nos pênaltis para o Vasco, após a ajudar a eliminar o Flamengo na fase de grupos.

Equipes Impedimento e Trivela.