Era óbvio que o Manchester City era favoritíssimo a vencer o Feyenoord, na estreia de ambos pela fase de grupos da Liga dos Campeões, na quarta passada. E foi exatamente o que aconteceu. Bem, talvez o Stadionclub pudesse ter evitado a goleada por 4 a 0. E a defesa também não precisava ser tão frágil taticamente (como se viu, por exemplo, na jogada do gol de Gabriel Jesus, com todos pedindo impedimento inexistente). Mas diante do nível técnico dos grandes clubes ingleses da atualidade, uma vitória surpreenderia demais. Até por isso, embora meio sem graça, a torcida não se importou muito com a goleada do City. Vale mais o começo promissor do atual campeão nacional nesta temporada do Campeonato Holandês: líder e único com 100 por cento de aproveitamento – quatro jogos, quatro vitórias.

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E assim como a primeira mostra de que o clube de Roterdã deveria ser encarado seriamente como candidato ao título da temporada passada foi uma vitória sobre o PSV em pleno Philips Stadion (1 a 0, na 6ª rodada), esse começo tranquilo dos Feyenoorders terá o primeiro grande teste novamente em Eindhoven, neste domingo, pela quinta rodada da Eredivisie. O teste só ficará mais difícil pela provável ausência daquele que segue como um dos grandes destaques do time: Nicolai Jorgensen, com lesão muscular na parte posterior da coxa. Ainda assim, pelo que já mostrou na liga, o clube alvirrubro tem mostrado algo que faltou em momentos cruciais de 2016/17: tranquilidade.

Se não fosse assim, talvez o Feyenoord tivesse falhado na rodada passada, por exemplo. Contra o Heracles Almelo, fora de casa, a equipe de Giovanni van Bronckhorst já encaminhou a vitória no primeiro tempo, fazendo 3 a 0. Porém, o time de Almelo melhorou no segundo tempo. Reuven Niemeijer já havia marcado o primeiro gol dos mandantes, e diminuiu para 3 a 2 a dez minutos do fim. Relaxar assim seria causa para desespero, em outros tempos. Com este Feyenoord, não foi: nos acréscimos, até o goleiro Bram Castro foi tentar o gol de empate num escanteio. Perdeu a chance, os visitantes foram rápidos no contra-ataque, e fizeram o 4 a 2 com o gol vazio.

Aliás, vale citar que dois dos reforços do Feyenoord para a temporada são os dois grandes destaques nesse bom começo no cenário doméstico. Jean-Paul Boëtius preenche completamente a lacuna aberta por Eljero Elia na ponta esquerda do ataque: o camisa 7 já fez três gols pelo Holandês, e sua velocidade o torna constante opção para as jogadas, como provam as duas assistências que já deu. Outro que merece citação é Steven Berghuis. Pela direita, o atacante justifica plenamente por que o clube se esforçou tanto para contratá-lo em definitivo junto ao Watford: já são quatro gols em quatro jogos, e muita capacidade para ajudar Jorgensen nas finalizações. Sem contar Sam Larsson: vindo de ótimas atuações pelo Heerenveen, entrou no final do jogo contra o Heracles, e foi justamente o autor do gol supracitado nos acréscimos.

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Não bastassem Boëtius e Berghuis, os reforços vindos para as laterais também mostram utilidade, além de algum equilíbrio. Pela direita, Kevin Diks tenta ajudar mais a marcação; na esquerda, Ridgeciano Haps (outro desfalque para o Feyenoord no domingo) começa muito promissor, também oferecendo a constante possibilidade de tabelas com Boëtius ou com os meio-campistas restantes. De resto, ficam os nomes conhecidos, que também seguem bem na Eredivisie: Tonny Vilhena, Jens Toornstra, Karim El Ahmadi – fez primeiro tempo estupendo contra o Heracles -, Eric Botteghin etc.

A mescla de acertos nas transferências e manutenção da base com que Giovanni van Bronckhorst trabalhou no título rende até mais possibilidade para lançar jovens no time titular, sem tanta pressão. É o caso do goleiro Justin Bijlow, titular da seleção holandesa sub-21, que jogou na estreia do Feyenoord pela Eredivisie, contra o Twente. É o caso do atacante Cheick Touré, apenas 16 anos (nascido em 7 de fevereiro de 2001), que veio do banco na fácil goleada por 5 a 0 sobre o Willem II, na terceira rodada. E deverá ser o caso de mais dois jogadores: o atacante Dylan Vente, 18 anos (já entrou contra o Manchester City), e o zagueiro Lutsharel Geertruida, 17 anos, recém-promovido ao grupo principal.

Vale ressaltar: toda essa tranquilidade é vista somente na Eredivisie. Após a derrota da quarta passada, as declarações mostravam humildade e uma opinião em comum: o quanto o Feyenoord – e o futebol holandês, de certa forma – precisa melhorar em todos os aspectos para sonhar desafiar clubes de grandes centros. Foi o que falaram o zagueiro Jan-Arie van der Heijden (“Aprendemos uma dura lição”) e o próprio Van Bronckhorst (“Precisamos nos acostumar ao nível de uma Liga dos Campeões, e falar isso ainda é pouco. Eles jogaram num ritmo rápido demais para nós”).

Todavia, mesmo que o Feyenoord seja derrotado no clássico pelo PSV – que também só vencera, até o 2 a 0 para o Heerenveen na rodada passada -, é possível notar que o fim do jejum de 18 anos já rendeu um ganho. Sentem-se em De Kuip, hoje em dia, os doces gostos da tranquilidade e da autoconfiança. Incomum falar isso após um 4 a 0, mas é verdade.