A Copa do Mundo é o palco da consagração dos grandes craques. Quase uma obrigação para aqueles que melhor tomaram conta da bola colocarem-se nas primeiras posições do hall da fama do futebol. Quantas vezes você não ouviu que Messi precisa dar um título mundial para a Argentina antes de ser comparado a Maradona? Quantas críticas Zico, Sócrates ou Falcão ouviram porque fracassaram nos anos 1980? Poucos adquirem o direito de dispensar o principal torneio de seleções. Alfredo Di Stéfano, cuja vida chegou ao fim nesta segunda-feira, aos 88 anos, foi um desses privilegiados.

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Em uma época em que o futebol internacional não era tão regulamentado quanto é agora, e a Fifa não tinha tanta força, a Flecha Loira emprestou o seu futebol a três países diferentes: à Argentina, sua terra natal, e a qual poderia muito bem ter defendido na Copa de 1950, mas já havia sido transferido aos Millonarios – e os albicelestes sequer disputaram o torneio; à Colômbia, apenas em alguns amistosos; e à Espanha, sem vaga para 1958 e sem Don Alfredo para o Chile, quatro anos depois, culpa de uma lesão, embora ele tenha viajado com a delegação e conste nas súmulas daquela Copa do Mundo.

Di Stéfano compensou essa falha grave no seu currículo com o protagonismo de três dos maiores times da história do futebol. Conseguiu fazer a torcida do River Plate não sentir tanta falta de Adolfo Pedernera e deu seguimento à Maquina do clube de Buenos Aires, absoluto na década de 1940. Como muitos argentinos, no contexto de um futebol nacional em litígio com o governo e que pagava muito mal os seus astros, juntou-se a Pedernera na Liga Pirata da Colômbia e ajudou o Millonarios e ser quatro vezes campeão colombiano. Sem contar que assombrou a Europa na bem sucedida excursão de 1952, especialmente pelos dois gols contra o Real Madrid na vitória sul-americana por 4 a 2.

Já era enorme. Quando a Liga Pirata decaísse, ainda teria muita lenha para queimar no futebol argentino e sul-americano, mas a projeção mundial, o ingresso para entrar em um seleto grupo de incontestáveis, que talvez tenha apenas mais três membros (Pelé, Cruyff e Maradona), veio apenas com a transferência para o Real Madrid, dentro das regras de um jogo muito eurocêntrico, mais ainda do que é hoje. E a polêmica em torno da sua contratação também é uma prova da sua grandeza. Porque exacerbou a rivalidade entre dois dos maiores clubes do mundo e contribuiu muito para que ela alcançasse o tamanho que tem hoje em dia.

O ano era 1953. A Fifa havia entrado em um acordo com os líderes do futebol colombiano para frear aquelas contratações, consideradas ilegais. Os jogadores tinham até outubro de 1954 para retornarem aos seus clubes antigos e precisariam esperar essa data para negociar com times de outros países. Di Stéfano já era o Santo Graal do Real Madrid, encantado por aquela atuação no amistoso e irritado por ter perdido Ladislao Kubala para o rival, e do Barcelona, preocupado que o húngaro não conseguiria recuperar-se completamente de uma tuberculose.

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Ele não quis esperar. O River Plate teve o seu craque de volta um ano antes do previsto, mas o vendeu imediatamente. Fechou um acordo de quatro milhões de pesetas com o Barcelona pela metade do passe do jogador que possuía. Ainda restava aos catalães acertarem a outra metade com o Millonarios, que exigiam U$ 27 mil. O Barça – esse sim – escolheu esperar. Quando o calendário chegasse a outubro de 1954, por causa do acordo com a Fifa, não precisaria pagar nada. Só que o Real Madrid entrou no jogo e negociou diretamente com os colombianos.

Criou-se um impasse porque cada gigante detinha metade de um jogador e não dava para uma perna ficar em Barcelona e a outra em Madrid. Um representante da federação espanhola decidiu tentar uma versão um pouco diferente disso. Em anos alternados, começando pelo Real Madrid, Di Stéfano defenderia ambos, duas temporadas cada um. Três semanas depois dele estrear pelos madrilenos, o Barça desistiu, a dois dias do clássico que perderia por 5 a 0 (com dois de Di Stéfano), sem explicar o motivo, que nunca foi realmente confirmado. Falam em pressão política do ditador Francisco Franco, o retorno de Kubala à velha forma e os problemas que o gênio difícil da Fecha Loira criavam. Pode ser um pouco de tudo isso ou outra coisa completamente diferente.

O certo é que Di Stéfano revolucionou o Real Madrid. Era um clube grande, claro, mas tinha menos títulos espanhóis que Barcelona, Valencia e Athletic Bilbao. Esse panorama inverteu-se muito rapidamente a partir da chegada do argentino. Nos seus 11 anos de dedicação, o Real conquistou oito campeonatos nacionais – e ele foi o artilheiro de quatro desses. Voltando àquela história do eurocentrismo, liderou o esquadrão que também dominou a Europa, marcando nas decisões das cinco Copas dos Campeões vencidas pelos blancos no final da década de 1950. É praticamente o responsável por criar as bases do argumento de que o Real Madrid é o maior clube da história.

Por tudo isso, mesmo sem jogar uma única partida de Copa do Mundo, na eleição da Fifa de melhor jogador do século 20, ficou em quarto lugar, atrás de Pelé, Maradona e Eusébio. O Rei do Futebol chegou a dizer que Di Stéfano foi o maior de todos. Maradona chamou-o de “fenômeno”. Para César Menotti, técnico campeão pela Argentina em 1978, foi “o rei dos reis”. Michel Platini acha impossível entender a história do futebol sem Di Stéfano. Jorge Valdano o considera o “maior jogador do maior clube do mundo”.

Ao menos do discurso, ele não gostava de se sentir tão importante. “Eu era o jogador de uma equipe. Não fui o porta-bandeiras de nada. Não gosto disso. Eu fazia o que podia, mas não era o Tarzán”, disse. Não fica tão à vontade diante de homenagens, como a estátua que ganhou no estádio Santiago Bernabéu, que leva o nome do presidente que o contratou para quebrar paradigmas no futebol mundial, e cuja rua adjacente recebeu a única queda da qual não conseguiu se levantar.

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