Um político como Recep Tayyip Erdogan causa polêmica no mundo todo. O presidente turco está no poder nos últimos 15 anos e tenta reeleição no próximo dia 24 de junho. Seu partido, AK, opera uma repressão violenta a opositores, especialmente depois de uma tentativa de golpe em junho de 2016. Mais de 50 mil pessoas foram acusadas de ligação com os Fethullah, de origem islâmica, ou com curdos. A perseguição a opositores inclui ativistas, jornalistas, professores, advogados e figuras públicas. Foi ao lado desse político que estiveram Ilkay Gündogan e Mesut Özil, dois alemães de origem turca, em um encontro em Londres. As reações na Alemanha foram muito negativas para os jogadores.

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Emre Can, outro alemão de origem turca que também joga na Inglaterra, foi convidado pelo presidente turco para o encontro no hotel de Londres, mas recusou. Não foram divulgados os motivos. Além de Özil e Gündogan, Cenk Tosun, turco que atua pelo Everton, esteve com Erdogan em fotos divulgadas pelo AK, partido do presidente turco. Özil entregou uma camisa do Arsenal a Erdogan, enquanto Gündogan entregou uma do Manchester City com os dizeres “com grande respeito para o meu presidente”.

O presidente da DFB, a Federação de Futebol Alemã, Reinhard Grindel, se manifestou condenando a atitude dos jogadores – algo raro na sempre muito ponderada entidade que dirige o esporte no país. “O futebol e a DFB defendem valores que não são respeitados pelo senhor Erdogan. É por isso que não é bom que nossos jogadores se deixem serem manipulados para sua campanha eleitoral. Ao fazerem isso, nossos jogadores certamente não ajudaram o trabalho de integração da DFB”, disse Grindel.

Oliver Bierhoff, diretor da DFB e ex-jogador, também condenou a aparição dos jogadores com o presidente turco. “Nenhum deles estava ciente do valor simbólico dessa foto, mas é claramente errado e nós falaremos com eles sobre isso”.

A deputada Sevim Dagdelen, alemã de origem turca, criticou a ação dos jogadores. “É um erro grosseiro posar ao lado de um déspota como Erdogan em um hotel de luxo em Londres e dignifica-lo com o título de ‘meu presidente’, enquanto na Turquia democratas são perseguidos e jornalistas críticos são detidos”, afirmou a política, no Twitter. Dagdelen é vice-líder do Die Linke, um grupo de esquerda no Bundestag, o Parlamento Alemão.

Cem Özdemir, do partido Verde alemão e também membro do Parlamento, é um crítico contumaz de Erdogan e criticou especialmente a mensagem de “meu presidente” escrita por Gündogan ao presidente da Turquia. “O presidente do jogador da seleção alemã é chamado Frank-Walter Steinmeier, a chancelor é Angela Merkel e o parlamento é chamado Bundestag”, disse o político.

A reação se explica quando entendemos as difíceis relações entre Alemanha e Turquia nos últimos anos.

A tensão entre Alemanha e Turquia

A Alemanha é o país que mais recebe imigrantes turcos e, por isso, é muito comum vermos jogadores alemães de origem turca, como Özil, Gündogan e Can. Alguns optam por defender o país dos pais. Além da forte comunidade turca na Alemanha, há outro fator importante: as relações políticas entre Turquia e Alemanha, que não andam boas. Desde a tentativa de golpe de Estado contra Erdogan, as relações entre os países pioraram. E as tensões estão aumentando desde então.

No dia 2 de junho de 2016, o congresso alemão reconheceu o genocídio armênio de 1915, algo que os turcos negam veementemente. Na época, a Turquia chamou seu embaixador em Berlim. A comunidade turca na Alemanha também protestou na época.

Em julho de 2016, após a tentativa fracassada de golpe, o governo turco acusou a Alemanha de não tomar uma posição clara contra o golpe. Logo depois, o governo alemão acusou o turco de perseguição e prisão de diversos opositores. Diplomatas, acadêmicos e membros do exército fugiram do país, muitos pedindo asilo político na Alemanha.

Para piorar, manifestantes de origem curda fizeram protestos na cidade alemã de Colônia, especialmente pedindo a libertação de Abdullah Ocalan, líder do partido PKK, que tem grande representatividade do Curdistão e um grupo que o governo turco considera terrorista por seus atos. A Turquia acusa a Alemanha de não fazer o bastante para impedir as atividades do PKK. Em fevereiro de 2017, as coisas pioraram com a prisão de cidadãos alemães na Turquia, o que o governo alemão chamou de prisões políticas. A acusação do governo turco foi que essas pessoas se envolveram com organizações terroristas.

Em março de 2017, o governo de Erdogan fazia campanha por um plebiscito que, na prática concederia mais poder em suas mãos. Diversas cidades alemãs proibiram eventos com os ministros de Erdogan, que pretendiam fazer campanha a favor do referendo. O governo turco acusou a Alemanha de usar “táticas nazistas” contra cidadãos turcos na Alemanha. Como você deve imaginar, isso não soou nada bem com os alemães. Em março de 2017, a Alemanha acusou a Turquia de espionar centenas de turcos vivendo na Alemanha, ou mesmo turcos-alemães, supostamente apoiadores da oposição a Erdogan, inclusive instituições e escolas.

As coisas pioraram um pouco mais em 18 de agosto de 2017. Erdogan acusou os três principais partidos alemães de serem “inimigos da Turquia” e pediu que os cidadãos turco-alemães não votassem a favor deles nas eleições de setembro. Os partidos acusados por Erdogan foram os Democratas Cristãos (CDU, da chanceler Angela Merkel, os socialdemocratas (SPD) o os Verdes. Merkel acusou Erdogan de estar interferindo na eleição alemã.

Com as tensões nas alturas, Angela Merkel disse no dia 4 de setembro de 2017 que a Turquia não deveria ser aceita como membro da União Europeia. Mais do que isso: a líder alemã disse que falaria com lideranças da Comunidade Europeia para acabar com as negociações com os turcos. Em outubro, Merkel apoiou um movimento para encerrar o envio de fundos da União Europeia para a Turquia.

Como se já não houvessem poucos problemas entre os países, em janeiro de 2018 as questões na Síria se tornaram ainda mais sérias. Os militares turcos e sua aliança com rebeldes sírios atacaram uma área curda em Afrin, no norte da Síria. A ação foi criticada pela Alemanha. Surgiram mais protestos de comunidades curdas na Alemanha.

No dia 16 de fevereiro de 2018, o jornalista Deniz Yücel, alemão de origem turca e que era correspondente pelo jornal Die Welt, foi liberado depois de um ano de prisão sem acusação contra ele. De acordo com a imprensa da Turquia, Yücel foi liberado sob fiança de prisão preventiva. Os promotores turcos pedem 18 anos de sentença para Yücel por acusações como propaganda e incitação ao terrorismo.

A explicação dos jogadores

Depois da enorme polêmica causada pela divulgação das fotos, Gündogan divulgou um comunicado defendendo não só ele, mas os outros jogadores presentes. Segundo o jogador, o encontro aconteceu depois de um evento de uma fundação turca que ajuda estudantes do país.

“Nós deveríamos ser indelicados com o presidente da pátria de nossas famílias? O que quer que tenha justificado as críticas que aconteceram, nós decidimos nos encontrar em um gesto de polidez, por respeito ao cargo do presidente e de nossas origens turcas”, diz ainda o comunicado do jogador do Manchester City. “Não foi nossa intenção fazer uma declaração política nesse quadro”.

O problema é que foi exatamente isso que Erdogan fez com os jogadores. Seu partido tratou de divulgar as fotos dos jogadores com o presidente, o que o ajuda a ganhar popularidade com figuras notoriamente de origem turca fora do país. Querendo Gúndogan ou não, a sua ação foi política. E favorável a Erdogan.

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