Quando o telefone toca, e o identificador de chamadas mostra o código de área de Merseyside, bate um frio na espinha do diretor de futebol do Southampton. Nesta terça-feira, o Liverpool anunciou a contratação do quinto ex-jogador do clube nos últimos dois anos. Levou o atacante Sadio Mané, por aproximadamente € 36 milhões. É o terceiro reforço mais caro da história dos Reds, atrás apenas de Benteke e Andy Carroll. Com incentivos e pagamentos futuros, a quantia desembolsada pelo senegalês pode chegar a € 43 milhões, superando o ex-jogador do Newcastle.

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Mané é um bom jogador e pode ser útil ao Liverpool. Marcou 25 gols e deu dez assistências em 75 partidas pelo Southampton, em dois anos. Pode atuar nas três posições da linha de armadores de Klopp, ou em um trio de ataque, ao lado de Firmino e Coutinho. O treinador alemão estava de olho no atacante de 24 anos desde que o senegalês começou a colocar bolas na rede pelo Red Bull Salzburg. “Eu acompanho Sadio há anos, desde seu desempenho impressionante na Olimpíada de 2012”, contou. Senegal caiu nas quartas de final daquele torneio.

Mas foi caro. E não precisava ter sido tão caro. Como também não precisavam ter sido outros jogadores que chegaram a preços altos do Southampton, como Lallana (€ 30 milhões) e Lovren (€ 24 milhões). Ambos fazem parte da lista das dez contratações mais caras da história do Liverpool e tiveram poucos bons momentos desde que chegaram. Não se firmaram como titulares absolutos, ganharam o carinho da torcida, causaram impacto em jogos importantes ou atuaram bem com regularidade.

Os preços estão cada vez mais altos no mercado inglês. Todos sabem que a Premier League acabou de fechar o contrato de TV mais caro de todos os tempos, o que só aumenta a inflação que já existia com as chegadas dos baús de tesouro do Chelsea e do Manchester City na última década. O Liverpool disputou apenas uma vez a Champions League nas últimas sete temporadas, e a ausência de futebol europeu de elite restringe as opções e também faz o preço subir.

No entanto, voltando apenas três janelas de transferências, até o verão de 2013 no hemisfério norte, encontramos exemplos de contratações tão interessantes quanto a de Sadio Mané, ou próximas disso, que custaram menos a times ingleses que também não estavam na principal competição de clubes da Europa.

Dá para começar pelo próprio Sadio Mané, que foi contratado pelo Southampton, há apenas dois anos, por apenas um sexto do preço que o Liverpool pagou por ele. Lukaku custou quase € 5 milhões a menos ao Everton. Shaqiri foi contratado por aproximadamente € 16 milhões. Eriksen, por € 12 milhões. Lamela exigiu um investimento um pouco maior, de € 27 milhões, mas Payet, um dos maiores destaques da última temporada, foi até mais barato: € 13 milhões.

Enquanto o Liverpool abria os cofres para ter Lovren, o Tottenham buscava, primeiro por empréstimo, em seguida por € 14,5 milhões, o também zagueiro Aldeiweireld, um dos melhores da última Premier League. Os Spurs, aliás, têm um olho apurado. A dupla de meio-campo de Pochettino e da seleção inglesa, Dier e Delle Ali, foi trazida por valores combinados que não chegam a € 5 milhões.

Ainda no meio-campo, caso sobrasse dinheiro, dava para buscar Wijnaldum, por € 18 milhões, praticamente o único jogador que atuou em um nível aceitável pelo Newcastle na última temporada. Gary Medel, bicampeão da Copa América e titular da Internazionale, custou €12 milhões ao Cardiff City, e a Inter o contratou ainda mais barato, por € 7 milhões.

Evidentemente, agora já sabemos o que todos eles podem render. Muitos, na época em que foram contratados, eram incógnitas, mas isso também não se aplica a Mané? Algumas boas temporadas pela Premier League, como o histórico recente de transferências do Liverpool demonstra com muita clareza, não são garantia nenhuma.

Mas ao exigir o filtro de experiência no futebol inglês, ou na maioria das vezes só se sentir confiante com ele, o clube chega atrasado aos negócios. Caso contratasse Mané dois anos atrás, teria feito um bom negócio. O Southampton comprou Lovren do Lyon por um terço do valor pelo qual o vendeu ao Liverpool. Lucro de 200% em um ano.

Ao mesmo tempo, o Manchester United, segundo o Guardian, deve levar Mkhitaryan, do Borussia Dortmund, pelos mesmos € 36 milhões que o Liverpool pagou por Mané. O armênio está no último ano do seu contrato e quer atuar na Premier League. O United também não disputa a Champions League na próxima temporada – embora só tenha ficado fora de duas recentemente. Cabe ao bom recrutador identificar essas oportunidades, assim como observar os jogadores antes de eles chegarem à Inglaterra ou à primeira divisão.

O problema não é o Liverpool ir às compras no Southampton, no Aston Villa ou em qualquer outro clube inglês que tem talentos à disposição. Nem mesmo contratar Sadio Mané em si.  Mas continuar insistindo em uma estratégia de mercado que não vem funcionando nos últimos anos. É gastar muito dinheiro em jogadores que não mudam o patamar do time dentro da Premier League, ao mesmo tempo em que os seus rivais se reforçam melhor – e às vezes investindo menos.

Nos últimos cinco anos, o Liverpool só não teve mais prejuízo no jogo de compra e vendas do mercado de transferências do que Manchester City e Manchester United. Investiu € 190 milhões a mais do que recebeu em negociações de jogadores. Terminou a última Premier League em oitavo. Atrás do Southampton.

€ 1 = R$ 3,66. Dados do site transfermarkt.