A máfia não é brincadeira na Itália (Foto: AP)

Por que o que Aidar disse foi tão ofensivo ao Napoli

Na apresentação de Diego Maradona no Napoli, em 1984, um jornalista francês chamado Alain Chaillou perguntou o que muitos queriam saber. Levantou a mão e questionou o craque: você sabe que o dinheiro da sua transferência foi coletado pela Camorra? Foi o fim da sua entrevista coletiva. O presidente do clube Corrado Ferlaino imediamente o expulsou: “A sua questão nos ofende. Napoli é uma cidade honesta. Como presidente, eu peço que você saia”.

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Chaillou teve muito pouco jogo de cintura. Afirmou ao invés de indagar, e acusou o Napoli de usar dinheiro da máfia da cidade. Carlos Miguel Aidar, presidente do São Paulo, não quis acusar. Como virou hábito desde que reassumiu o clube do Morumbi, fez uma brincadeira idiota. Disse que os napolitanos não conseguiriam comprar Paulo Henrique Ganso “nem com todo o dinheiro da Camorra”. Mas ofendeu uma cidade e um país que tentam desassociar as suas imagens de organizações criminosas, cruéis, violentas e homicidas do mesmo jeito que o Brasil quer se ver longe da imagem de destino para turismo sexual e de terra de trabalhadores preguiçosos que só querem fazer festa.

Fora da Itália, a máfia às vezes é tratada com leveza, muitas vezes em tom de brincadeira. Foi inserida à cultura de outros países por meio de centenas de filmes: Poderoso Chefão, Os Bons Companheiros, os Infiltrados e muitos outros. Na televisão, a premiada Família Soprano forneceu um retrato profundo, complexo e extenso dos bastidores de um grupo de mafiosos.

Só que não precisa procurar muito para achar uma família italiana que não acha essas histórias nada interessantes e não vê graça nenhuma em piadas sobre a máfia. Muitas vezes, porque um de seus entes queridos foi assassinado por ela. O próprio Ferlaino é sobrinho de um promotor público que foi morto porque estava investigando a ’Ndrangheta, a máfia da Calábria. Há, inclusive, um site chamado Vittime Mafia que reúne o nome dos que perderam a vida por causa da violência de mafiosos.

Na Espanha, há um restaurante chamado La Mafia, decorado com imagens de filmes, como O Poderoso Chefão, e fotos de Al Capone e Lucky Luciano, dois famosos chefes da máfia dos Estados Unidos. Ele abriu em 2000, mas apenas este ano a Itália tomou conhecimento – e ficou irritadíssima. “Usar a palavra ‘máfia’ em uma marca comercial é sujo e inaceitável. É uma ofensa a todas as pessoas que perderam a vida pela defesa da justiça e da legalidade”, disse o senador de centro-esquerda Giuseppe Lumia, do Partido Democrata. O jornal La Reppublica foi um pouco mais longe e fez uma comparação: “Imagine o que aconteceria na Espanha se alguém na Itália abrisse um restaurante dedicado aos terroristas do ETA (grupo separatista basco)?”.

No futebol, o Napoli sofre muito com isso. É praticamente o único clube de uma cidade controlada por um dos grupos mais famosos, a Camorra. Maradona nunca ajudou muito e vira e mexe foi visto em festas dessa organização ou em companhia de seus chefes. Ele e todos os jogadores, membros da comissão técnica e diretores daquela época tiveram que dar depoimento para as autoridades do país sobre seus supostos envolvimentos. Há, inclusive, uma lenda de que o Napoli perdeu o título italiano de 1987 de propósito porque beneficiaria financeiramente a Camorra.

Na Copa Itália deste ano, em Roma, a partida entre Napoli e Fiorentina só foi em frente depois que Marek Hamsik negociou com um dos líderes dos ultras napolitanos, um homem cheio de ligações com a máfia. As torcidas organizadas italianas têm presença forte de mafiosos.

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Pela influência e importância que o Napoli tem na cidade, provavelmente seus presidentes já tiveram que fazer vários acordos com a Camorra. Nem sempre a máfia dá a opção de aceitá-los ou recusá-los. O que não quer dizer que o clube sobrevive com dinheiro ilegal, fruto de atividades criminosas e assassinas. Isso não foi provado. E isso não parecia uma questão importante para Carlos Miguel Aidar em seu primeiro mandato como presidente do São Paulo, em 1987. Afinal, foi para o Napoli de Corrado Ferlaino que ele vendeu Careca, inclusive mandando o São Paulo para Nápoles para disputar um amistoso que serviu como forma de pagamento e despedida do atacante.

Eis que um dia, no outro lado do oceano, o presidente de um clube de futebol, que não sabe do que está falando – ou sabe e não se importa –, resolve reforçar esse preconceito, apenas por diversão. Dá para entender por que o clube ficou tão irritado com a declaração, emitiu uma nota oficial e prometeu processar Carlos Miguel Aidar?

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