Aos poucos, o futebol brasileiro vai voltando ao trabalho depois do recesso de fim de ano, mas um observador casual teria dificuldades para perceber que uma nova temporada está começando. A duas semanas da estreia dos principais estaduais do país – menos do Mineiro, que começa em 26 de janeiro -, os clubes mais ricos do Brasil anunciaram pouquíssimas contratações e poucos nomes que animam a torcida.

O Atlético Mineiro ainda não confirmou ninguém. Nessa mesma época, ano passado, estava acertado com Luan, Alecsandro e Rosinei. O problema do atual campeão da Libertadores é o mais comum entre os consumidores que não conseguem comprar nada: falta de dinheiro. No começo do mês passado, o presidente Alexandre Kalil afirmou que os salários estavam um mês e meio atrasados e implorou que o governo federal liberasse a verba da venda de Bernard para o Shakhtar Donetsk, aproximadamente R$ 76 milhões, que foi bloqueada pela Receita Federal para o pagamento de impostos.

O Corinthians também está sem reforços por enquanto. No dia 6 de janeiro de 2013, já havia anunciado Renato Augusto e Alexandre Pato. No caso de um dos clubes mais rentáveis dos últimos anos, a causa da austeridade é mais o medo de errar. O ex-atacante do Milan não justificou os R$ 40 milhões que foram gastos pela sua contratação. Pelo contrário, o alto investimento tornou-se um fardo para jogador, técnico e diretoria. E certamente o time que só faz gols em noites de lua cheia precisa mexer bastante no elenco.

Entre os que já fecharam contratos com novos jogadores, poucos podem dizer que, de fato, se reforçaram. Se excluirmos os veteranos Lúcio e Dida, as contratações de maior renome foram Leandro Damião, em fase decadente, pelo Santos e Darío Conca pelo Fluminense – essa anunciada antes mesmo do final do Campeonato Brasileiro. 

O resto do mercado está sendo movimentado por jogadores desconhecidos, médios e bons. Edinho não arranca suspiros da torcida do Grêmio. Jorge Wagner e Luis Ricardo são úteis, mas não mudam os patamares de Botafogo e São Paulo, respectivamente. Dida, 40 anos, pode resolver o problema do gol no Internacional – como Martín Silva, do Olimpia, deve fazer no Vasco -, porém Wellington Paulista no Beira-Rio é difícil de explicar. 

O Cruzeiro, que por enquanto contratou apenas três jogadores (Marlone, do Vasco, Samudio, do Libertad, e Rodrigo Souza, do Boa Esporte), já estava acertado com Diego Souza, Nílton, Egídio, Uelliton, Henrique, Paulão, Éverton Ribeiro, Nirley e Lucca no começo de janeiro. Evidentemente, à época, o time do técnico Marcelo Oliveira estava em formação e agora inicia a temporada como campeão brasileiro. A volúpia dos mineiros por contratações é muito menor.

A diretoria do Flamengo está declaradamente tentando equilibrar as caóticas contas do clube e, apesar da perspectiva de jogar a próxima Copa Libertadores, contratou apenas o meia Éverton, do Atlético Paranaense. O Palmeiras tem um presidente com intenções parecidas, mas volta da segunda divisão e precisa mudar o perfil do elenco. Contratou Lúcio, de salário alto, deu uma chance a Diogo, que fez bom Brasileiro pela Portuguesa, e apostou no volante França e no lateral esquerdo William Matheus. Ainda assim, nada demais, principalmente se levarmos em conta que 2014 é o ano do centenário.

Lembram-se da briga toda de 2011 para rachar com o Clube dos 13 e negociar os contratos de direitos de transmissão com a Globo individualmente? Pois bem. Aquele acordo está chegando ao fim, e sabemos que geralmente o planejamento financeiro dos clubes é tão bom que geralmente as verbas da televisão são adiantas em alguns (muitos) anos. Os que ainda não renovaram vão naturalmente precisar olhar debaixo do banco do carro em busca de moedas. Alguns estão assustados com erros do passado. Outros estão tentando, responsavelmente, pagar as contas de uma vez por todas. De qualquer jeito, o mercado brasileiro está mais chato que filme iraniano.