Fico até um pouco envergonhado pela inocência, quando a CBF anunciou que haveria árbitro de vídeo no Campeonato Brasileiro, no final do ano passado, de achar que isso realmente fosse acontecer. Evidentemente, as coisas não são tão simples no futebol brasileiro. Em reunião do Conselho Técnico, nesta segunda-feira, doze clubes da Série A (Corinthians, Santos, América-MG, Cruzeiro, Atlético-MG, Atlético-PR, Paraná, Vasco, Fluminense, Sport, Vitória e Ceará) votaram contra a implementação da tecnologia no Brasileirão de 2018.

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O ímpeto é pintar esses clubes como os vilões que impediram a inevitável evolução do futebol, que eventualmente, um dia ou outro, se renderá à tecnologia para auxiliar o árbitro, mas não podemos perder de vista dois detalhes. Um deles é que o VAR só apareceria no segundo turno, criando um desequilíbrio técnico entre as metades do torneio. O segundo, o mais importante, é que a CBF quis empurrar o custo da implementação para os clubes: R$ 20 milhões pelos 380 jogos do Brasileirão. Nesse cenário, os clubes que votaram contra fizeram exatamente o que deveriam ter feito.

O valor de R$ 1 milhão por cabeça pode não ser muito para clubes que faturam na casa das centenas de milhões (embora seja para outros, como Paraná e América-MG, por exemplo, que faturam muito longe disso), mas o xis da questão é o princípio por trás dessa história toda. A CBF, infelizmente, ainda organiza o Campeonato Brasileiro, depois de os clubes deixarem passar inúmeras oportunidades para assumirem as rédeas. E, sendo assim, é ela quem tem que investir para melhorá-lo.

Claro que os clubes também são partes interessadas em um Campeonato Brasileiro cada vez melhor. É o principal palco para os seus patrocínios, direitos de televisão, desenvolvimento de jogadores que serão vendidos e bilheterias. O Atlético Mineiro, por exemplo, propôs a divisão dos custos. Não foi aceita. Aliás, esse valor de R$ 20 milhões por edição do campeonato é o mais barato que existe? Saiu da onde? Se os clubes estão pagando, não podem buscar uma empresa que forneça o serviço por um preço mais em conta? Podem escolher a tecnologia e o modelo que seriam utilizados? Escolher os operadores do árbitro de vídeo? Quem faria os treinamentos, onde e como eles seriam realizados? Quais imagens seriam usadas? Como quem regulamenta tudo isso é a CBF, a resposta é provavelmente não: paga o boleto e fica quietinho.

O argumento da CBF é que ela não ganha nada organizando o Campeonato Brasileiro, que lhe representa um prejuízo de R$ 20 milhões por ano. E daí? A CBF não administra um restaurante, nem é uma holding que precisa que cada uma das suas unidades lucre independentemente. Em 2016, ela recebeu R$ 44 milhões a mais do que gastou, o que é o bastante para implementar dois árbitros de vídeo.

Dos R$ 600 milhões de faturamento naquele ano, R$ 509,43 milhões, ou 85%, vieram da seleção brasileira, com fatias gordas de patrocínio e direitos de televisão. A Seleção existe apenas porque utiliza – de graça, é bom frisar – os jogadores formados, desenvolvidos e contratados pelos clubes. Não contente em ser parasita, a CBF ainda quer que os hospedeiros banquem alguns gastos extras.

E se a CBF tem prejuízo com o Campeonato Brasileiro, de quem é a culpa? Prioritariamente da entidade que organiza a competição. Tem prejuízo porque, entre outras coisas, haverá rodada na véspera da abertura da Copa do Mundo. Porque a venda do mando de campo para outros estados está mais uma vez permitida. Porque o torneio não para como deveria em datas Fifa. Porque a pré-temporada é de apenas duas semanas por causa do tamanho desproporcional dos Campeonatos Estaduais que só servem para manter as estruturas políticas de poder. Porque os gramados são ruins, salários atrasados são corriqueiros, há violência nos estádios, há estádios caindo aos pedaços, a arbitragem é péssima.

E a entidade que deveria supervisionar, regulamentar e resolver todos esses problemas falha histórica e cronicamente nessa empreitada e, em vez de cuidar melhor do seu principal produto, apenas lamenta que ele não dá o dinheiro que ela gostaria que desse. Usando a metáfora do restaurante de novo, agora para o outro lado, deixa a carne apodrecer e fica surpresa que ninguém se dispõe a pagar por ela.

Os clubes também têm muita culpa neste cenário porque, em última instância, são eles que, por exemplo, atrasam os salários e deixam os estádios se deteriorarem. Mas, mais do que isso, são eles que nunca conseguem quebrar a estrutura viciada de federações estaduais que atrasa o futebol brasileiro. Foram eles que votaram no Coronel Nunes, apenas a última grande oportunidade de se unirem para assumir a organização do Campeonato Brasileiro e finalmente se livrar das algemas da CBF.

Mas também não podemos criticar a passividade dos clubes e também criticá-los quando eles levantam a cabeça, pelo menos um pouco, mesmo sem ser indicativo de uma revolução mais ampla, e rejeitam uma imposição absurda, como esta do árbitro de vídeo. Se a CBF organiza o Campeonato Brasileiro, que organize o Campeonato Brasileiro. Se não quiser, cai fora.