Começo de ano no futebol brasileiro tem os estaduais e a discussão sobre sua importância. Em meio a um calendário inchado para os grandes e muito curto para os pequenos, os estaduais são uma espécie de portal entre duas dimensões do futebol brasileiro.  No meio de ambos, baixas médias de público e torneios que são, em sua grande maioria, deficitários para todos os envolvidos.

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De um lado, os times de primeira e segunda divisão, especialmente, que vivem uma realidade de ter calendário o ano inteiro, transmissão na TV e possibilidade de um orçamento decente. Do outro, times que muitas vezes precisam se montar apenas para seis meses para tentar causar algum impacto nos poucos confrontos com os times maiores.

Saudade?

O começo do ano normalmente tem uma sensação de saudade. A falta que o futebol faz na vida dos torcedores. O que é normal, aliás. A saudade do futebol pode até existir, de fato, embora o período sem jogos não seja tão grande assim.

A última rodada do Campeonato Brasileiro aconteceu no dia 11 de dezembro, depois do adiamento por causa da tragédia da Chapecoense. Muitos dos estaduais voltaram neste fim de semana, no dia 28, sábado, 51 dias depois (ou 52, para quem jogou no domingo).

Na Inglaterra, a distância entre o último jogo de uma temporada e o primeiro de outra foi bem maior. Considerando o último dia que teve jogo, 17 de maio de 2016, para o primeiro dia que os times entraram em campo pela Premier League, no dia 13 de agosto de 2016, foram 89 dias. Quase três meses de espera para os torcedores. Claro, há amistosos, torneios preparatórios, às vezes excursões ao exterior, se forem times mais famosos. Mas jogo valendo mesmo, são três meses de espera.

O tempo longo é porque os times dão férias para os jogadores e depois têm quase dois meses inteiros para se preparar adequadamente para a temporada. Isso só é possível porque o calendário inglês, mesmo sendo um dos mais inchados entre as grandes ligas europeias, ainda é bem menor que o brasileiro.

Contexto histórico

Os estaduais trazem muitas coisas interessantes. O futebol brasileiro foi forjado dentro dos estaduais, com confrontos locais, com times do interior enfrentando os das capitais. A maior parte dos nossos mais de 100 anos de tradição de futebol contou com o estadual como o principal torneio. Foi nas últimas três décadas que o Campeonato Brasileiro foi se tornando o principal torneio do país.

Isso não significa que disputas como a da Taça Brasil, do Roberto Gomes Pedrosa ou mesmo do Brasileiro não tenham sido importantes antes disso. Sempre foram, desde a sua primeira, e os registros históricos mostram isso. A questão é que o Brasil e o mundo mudaram muito desde então. Mudou a percepção de um torneio nacional, a logística se tornou possível – era inviável pensar em um nacional nos anos 1960 nos moldes atuais –, a globalização borrou fronteiras e o impacto disso aconteceu em termos de negócios também.

O Campeonato Brasileiro se tornou uma competição muito mais valiosa para a TV, que passou a pagar mais. Os grandes clubes se distanciaram muito dos menores. Os torneios estaduais, nos grandes centros do Brasil (sudeste, sul e grande parte do nordeste) passaram a ter menos atrativos do que disputar uma vaga na principal divisão nacional – ou disputar uma vaga na Libertadores ou o título, para um grupo menor.

Os estaduais, então, se tornaram claramente torneios menores. Em muitos estados, ele continua sendo a chance do ano de ser campeão, já que alguns times disputam a primeira ou segunda divisão nacional, mas não conseguem buscar títulos. Muitos dos times foram moldados na grandeza de conquistas estaduais, muito mais do que as nacionais, ou mesmo internacionais.

O descompasso entre a história e a realidade acaba gerando as muitas dúvidas. As comparações com as grandes ligas do exterior, muito mais próximas pela TV e internet, levam a questionamentos. Torcedores e dirigentes dos grandes clubes sonham que seus times se tornem tão fortes quanto aqueles que enchem a TV HD nas manhãs e tardes dos fins de semana. Todos sonham com seu time como um Barcelona, um Real Madrid, um Bayern de Munique, sendo um grande desafio nos Mundiais de Clubes da vida.

Talvez por isso a nostalgia dos anos 90 tenham chegado tão forte no futebol. Muitos clubes eram felizes ganhando estaduais e não ir bem no Brasileiro não era um problema tão grande. Uma época que ganhar estadual era muito saboroso, que os times brasileiros batiam de frente com os melhores do mundo.

A Europa mudou, o Brasil mudou, a Ásia, África e todas as Américas mudaram. A distância aumentou demais. A frustração também, até porque ir bem no Brasileiro é mais difícil. É um clube mais restrito. Mas os Estaduais continuam existindo, sua existência é questionada e os problemas, para grandes e pequenos, são grandes.

Calendário

Calendário é uma palavra-chave quando falamos sobre estaduais. Os grandes clubes reclamam dos muitos jogos pouco atraentes nos estaduais. Neste ano, a CBF estipulou 19 datas. Para os grandes, muitas datas. Para os médios e pequenos, poucas. Nem todos os times terão divisão nacional para jogar e, mesmo assim, alguns que jogam Série D, por exemplo, terão poucos jogos na competição nacional se forem eliminados cedo.

Ou seja: o Estadual, como é atualmente, não resolve o problema dos pequenos clubes, nem torna o calendário saudável para os grandes. Isso já está muito claro para muita gente, incluindo aí muitos torcedores e alguns – só alguns – dirigentes. Os estaduais, como existem, atrapalham mais do que ajudam. Os clubes pequenos acabam tendo uma média de público baixa na maioria esmagadora das vezes, com poucos jogos contra os grandes como atrativo – e normalmente com ingressos caríssimos.

O que seria razoável, então? Bom, parece claro que os times menores precisam de competições que durem por toda a temporada. Seria importante mexer na Série C para que ela se tornasse uma competição com mais jogos para serem disputados.

A Série D também. O fato de ser um país de dimensões tão grandes exige que a regionalização dos torneios nacionais de divisões menores aconteça, até para minimizar custos. Se isso começa na Série C, D ou em uma nova divisão criada é um ponto que precisa ser discutido, mas é imperativo que haja essa disputa.

Isso significa que os estaduais possam ser divisões de acesso, com calendário mais espalhado durante todo o ano. Ao invés das Copas estaduais que se tornaram muito comuns em todo país, divisões nacionais de fato, com calendário cheio para os times do interior, inclusive com as divisões inferiores dos estaduais.

O que fazer com os estaduais que temos hoje? Estes podem se tornar um torneio em formato de copa. Fase de grupos e depois jogos eliminatórios – em sete datas o torneio está resolvido. Todos os clubes teriam divisões nacionais para disputar ao longo da temporada, sem termos times que se montam e desmontam em menos de seis meses, só para a disputa dos estaduais no modelo atual.

Mas por que isso não acontece? Bom, isso não é difícil de explicar.

Questão política

Nosso futebol foi moldado com o estadual e, portanto, as federações estaduais se tornaram poderosas. Sustentem politicamente o presidente da CBF, que precisa do apoio de cada uma delas para ser o mandatário. Com isso, é claro que a pressão das federações é que os estaduais não só não diminuam, como aumentem.

O sonho dourado dos dirigentes das federações estaduais é que essa onda de saudosismo dos anos 1990 volte a ponto de termos estaduais novamente enormes, de ao menos seis meses inteiros, talvez mais. Os estaduais nos anos 90 geravam muito mais dinheiro para as federações, atualmente deficitárias.

O Campeonato Paulista é um dos poucos que ainda gera um dinheiro importante para os clubes por causa dos direitos de TV. Nos demais, mesmo alguns famosos como Carioca, Mineiro e Gaúcho, a questão financeira pesa bem menos.

As federações poderiam continuar comandando as divisões regionais, mas é claro que isso significa uma perda de dinheiro e também de poder, de certa forma. Por isso, não podemos esperar que estes dirigentes façam alguma mudança. As federações sempre farão força para estaduais grandes e nacionais menores.

O que surpreende é por que os clubes não brigam para ter essa mudança. Por que não criar uma liga para organizar o campeonato nacional, que seja mais profissional e mais lucrativa? Por que ainda disputar estaduais no modelo atual, sem propor uma mudança de fato?

O vínculo dos clubes com a CBF é sempre nebuloso, todos, de maiores a menores. Parecem ter medo de represália e, ao mesmo tempo, parecem todos se sentirem temerosos com traição um do outro. Basta lembrar o que aconteceu em 2011, quando o Clube dos 13, uma rara reunião de clube no país, foi implodido por ganância de alguns dos membros em ganhar mais da TV. Como se organizar e se unir se todos parecem prontos a trair um ao outro por uns caraminguás a mais?

Enquanto isso, repetimos as discussões sobre estaduais por mais um ano. E teremos mais discussões até maio, quando o Campeonato Brasileiro chega para tomar as atenções – e jogar na sombra os times estaduais sem divisão nacional.