Na Espanha, se seu clube não é o Barcelona ou o Real Madrid, dificilmente você terá facilidade para contratar jogadores. Mesmo times do porte de Atlético de Madrid e Valencia sofrem para levantar dinheiro para investir no elenco, e uma prática já conhecida há um bom tempo no Brasil começa a se fortalecer no país ibérico: a participação de fundos de investimento na compra dos direitos econômicos dos atletas. Essa medida tem se espalhado pela Europa, mas é na Espanha que tem se destacado. O próprio presidente da Liga Espanhola se posiciona a favor dos fundos de investimento no futebol, mas Michel Platini, mandatário da Uefa, se colocou contra os rumos que o futebol espanhol tem tomado e falou até em “vergonha”.

“Não podemos aceitar que os jogadores sejam propriedade de entidades financeiras. Não compartilho da postura do presidente da Liga Espanhola (Javier Tebas). Vou lutar para mudar esse sistema em que os fundos de investimento têm cada vez maior protagonismo. A Fifa já está estudando isso, mas se ela não tomar uma decisão, nós mesmo faremos”, falou Platini em uma coletiva de imprensa em Bilbao.

Antes da chegada dos fundos de investimento, os clubes espanhóis contraíam dívidas bancárias para poder contratar jogadores. Como a crise financeira limitou bastante o crédito, tiveram que buscar outras alternativas, já que não deixariam de se reforçar. Foi aí que passaram a ser “vítimas” dos fundos. Um dos primeiros casos no país foi o da transferência do goleiro Roberto, então no Benfica, para o Zaragoza, por € 8,6 milhões, em 2011, o que causou polêmica quanto à origem do dinheiro. Outro caso que gerou polêmica, mas fora da Espanha, foi a chegada de Carlos Tevez e Javier Mascherano ao West Ham em 2006 através da MSI. A transferência dos argentinos gerou uma punição de € 8,2 milhões aos londrinos e a criação de uma regra proibindo a escalação de atletas pertencentes a empresários ou terceiros em jogos da Premier League.

Nos últimos anos, um dos mais dependentes deste tipo de negócio no futebol espanhol é o Atlético de Madrid. A equipe teve a ajuda de empresas quase que sistematicamente, com nomes como Elias, Pizzi e até mesmo Radamel Falcao García sendo contratados apenas por causa da ajuda de terceiros. Obviamente, é uma boa saída a curto prazo, já que o clube resolve carências técnicas sem ter de mexer no próprio bolso. Porém, como foi bem apontado por Platini, esse método é péssimo para a imagem institucional das agremiações. As equipes não podem ficar dependentes de investimentos e empresários pontuais para entrar na rota do sucesso.

“Compreendo que estas entidades tratem de recuperar o dinheiro investido nos clubes, mas nós temos que proteger o futebol diante desta nova situação. O dinheiro agora é dessas entidades financeiras. Os clubes vão morrer e não investirão na formação das categorias de base. As pessoas passam, e os clubes ficam. É a única maneira de manter a identidade regional, mesmo que cada país tenha uma legislação que deve ser respeitada.”

Ter um jogador de qualidade em seu elenco, que é protagonista a cada final de semana, e vê-lo posteriormente deixar seu clube sem que a equipe ganhe nada em troca é algo com que estamos acostumados no Brasil. Combater esse tipo de negociação nunca virou um objetivo por aqui, mas o presidente da Uefa parece estar disposto a brecar o avanço dessa situação na Europa. Pelo bem dos clubes de menor poder aquisitivo do Velho Continente, esperamos que sejam encontradas medidas para diminuir a influência financeiras desses fundos de investimento no futebol. Pelo menos na Espanha, a briga não será fácil.