Cristiano Ronaldo não precisava ter dito publicamente – como fez após o empate de Portugal contra os Estados Unidos, pela segunda rodada da Copa do Mundo – que a seleção lusa não almejava ser campeã do mundo. Ainda que seus companheiros não confirmem, ficou claro que tal declaração criou um mal estar no vestiário e abalou ainda mais a confiança de um elenco que já estava combalido.

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Mas, se foi inconveniente, CR7 foi também verdadeiro. O que ele disse era uma verdade cruel para os portugueses, mas uma verdade. Ainda que o craque jogasse tudo o que podia e ainda que os demais atletas também estivessem acima da média, as chances de Portugal erguer a taça do mundo no dia 13 de julho eram quase nulas.

Isso qualquer torcedor português minimamente sensato já sabia. O que não se esperava era que a eliminação viesse de maneira tão rápida e letal como são as arrancadas de Ronaldo nos seus melhores dias. Portugal caiu sem esboçar qualquer poder de reação, sem dar um fio de esperança à torcida.

No futebol, quando uma campanha tão ruim acontece, o primeiro suspeito a ser apontado como culpado é sempre o treinador. Não raras vezes, ele perde o emprego, em nome da “renovação” proposta pelos dirigentes.

Paulo Bento tem sua parcela de culpa no fiasco português no Brasil – e ela não é pequena. Mas está com o emprego garantido até a Eurocopa de 2016. Antes mesmo da partida contra Gana, que encerrou a participação lusa no Mundial, ele e os dirigentes da Federação Portuguesa de Futebol adotaram o mesmo discurso, de que o contrato seria cumprido até o final independentemente do resultado obtido na Copa. Depois, com a desclassificação consumada, a promessa foi mantida. “Somos pessoas de respeitar os nossos compromissos”, resumiu Fernando Gomes, o presidente da federação.

Desde que assumiu o cargo, após a Copa da África do Sul, Paulo Bento dirigiu a seleção portuguesa em 43 jogos. Foram 24 vitórias, 12 empates e 7 derrotas. Um aproveitamento mediano, que não deixa de ser reflexo do nível da seleção que tem nas mãos e da própria organização do futebol português, que ainda deixa bastante a desejar a vizinhos europeus importantes.

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Os erros cometidos em 2014 parecem claros. Vão desde a escolha de uma cidade com clima ameno para os treinos (Campinas), ignorando o fato de que iria jogar em lugares de forte calor (Salvador, Manaus e Brasília), até a teimosia do técnico em querer contar sempre com o mesmo time, mesmo que alguns jogadores não possuíssem condição física para atuar no nível desejado.

Já que o emprego de Paulo Bento está garantido e, a menos que uma inesperada reviravolta aconteça, ele permanecerá por pelo menos mais dois anos no banco de reservas português, o que se espera agora é uma renovação dos jogadores, tão importante quanto necessária. Conduzir este processo é o maior desafio do treinador.

Dos 23 atletas que estiveram na Copa do Mundo, oito contam com idade acima dos 30 anos. A média de idade do time das quinas, aliás, era a segunda mais alta de todo o Mundial: 28,2 anos. Da turma que esteve no Brasil, Cristiano Ronaldo, João Pereira, Hugo Almeida, Rubem Amorim, Miguel Veloso, Varela e Vieirinha terão, no mínimo, 31 anos quando a Eurocopa começar, na França.

Portugal possui bons nomes, que podem aos poucos ganhar experiência e formar a “nova” seleção. Tozé, João Mário, Bruma, Ivan Cavaleiro e Gonçalo Paciência são alguns exemplos. A cogitada ida de Rui Jorge, atual técnico da seleção sub-21, para a comissão técnica da equipe principal também é uma boa ideia.

Se tiver paciência, deixar a teimosia de lado e souber conduzir bem o trabalho de renovação, Paulo Bento pode alcançar o sucesso que ainda não teve à frente da seleção portuguesa.