Colônia é a quarta cidade mais populosa da Alemanha. Somando os municípios vizinhos, há mais de 3,5 milhões de habitantes na região metropolitana. E em poucos cantos do país a população é tão identificada com a cultura local. Não à toa, o clube se torna mais um símbolo. Embora concentrada na Renânia do Norte-Vestfália, onde encontra forte concorrência de outros gigantes, a torcida do Colônia está entre as mais expressivas da Bundesliga. Mesmo que o clube sofra para representar sua grandeza. Donos de dois títulos nacionais e potência entre as décadas de 1960 e 1980, os alvirrubros viveram na gangorra do acesso e do descenso desde a virada do século. Por isso, a presença na Liga Europa representa tanto. Depois de 25 anos, os bodes estão em uma competição continental. E isso, de certa forma, é uma reafirmação da tradição do clube.

Se este fosse um texto comum, iria enveredar pela vitória do Arsenal. Falar da virada por 3 a 1 do time de Arsène Wenger, que sofreu no primeiro tempo e só conseguiu abrir o caminho para o triunfo graças a dois belos chutes, de Sead Kolasinac e Alexis Sánchez. Entretanto, o placar se torna algo menor para o que se viu em Londres – e em vários pontos da cidade, não apenas no Estádio Emirates. Afinal, muitos irão esquecer qual foi o marcador favorável aos Gunners. O que a torcida do Colônia produziu, isso sim, ficará para sempre na retina. Em especial, na memória dos cerca de 20 mil alvirrubros que atravessaram o Canal da Mancha para viver aquilo que quem tem menos de 30 anos sequer deve se lembrar.

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A expectativa sobre o retorno do Colônia, classificado diretamente à fase de grupos após o quinto lugar na Bundesliga, aumentou ainda mais quando o sorteio guardou o Arsenal para a primeira rodada. Era a chance para os alvirrubros escancararem a todo o continente o tamanho de sua paixão. As participações europeias dos bodes já foram um tanto quanto frequentes. Entre 1961/62 e 1992/93, foram 25 classificações aos três torneios da Uefa em 32 temporadas. Foram oito campanhas até as semifinais, com destaque para a Champions 1978/79, em que caíram para o campeão Nottingham Forest; e para a Copa da Uefa 1985/86, na qual o esquadrão de Klaus Allofs, Pierre Littbarski e Harald Schumacher avançou à sua única decisão, apesar da derrota para o Real Madrid. O ressurgimento no cenário continental desta vez garante a 26ª aparição, quinta maior marca entre os alemães, igualando o Werder Bremen. Apenas Bayern de Munique (50), Borussia Dortmund (29), Hamburgo (28) e Stuttgart (28) estão à frente.

Por aquilo que ansiavam desfrutar e finalmente tinham a chance, os torcedores do Colônia partiram em massa à Inglaterra. A maioria absoluta deles, sequer sem ter garantido o ingresso. O Arsenal tinha disponibilizado apenas 3 mil entradas, o que não impediu a enorme invasão dos alemães. As marchas dos forasteiros tomavam as principais ruas na capital britânica, em uma atmosfera fantástica. O mar vermelho e branco se fazia ouvir de muito longe, com as festas tradicionais que acontecem no Estádio Rhein-Energie. Desta vez, a uma distância de 500 km de casa.

Obviamente, nem tudo foi alegria no Emirates. Existiram alguns episódios de vandalismo e confrontos. Porém, os relatos são menores para as proporções do que aconteceu na Liga Europa. Boa parte dos depoimentos de jornalistas ingleses davam conta do caráter pacífico dos visitantes. O problema aconteceu mesmo nos portões do estádio, onde o princípio de confusão pelos muitos sem ingressos provocou o atraso no pontapé inicial em uma hora, até que a situação fosse contornada. Além disso, o congestionamento provocado pelas massas de alemães atrapalhou a chegada dos torcedores da casa. E se nem todos os forasteiros portavam os bilhetes, teve gente que deu seu jeito para não perder o jogo histórico. Inclusive, comprando as entradas para o meio da torcida do Arsenal e até se “camuflando” com camisas dos Gunners.

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O Arsenal havia disponibilizado apenas 3 mil ingressos aos visitantes, mas a certeza é de que o número de alvirrubros no Emirates foi bem maior. Alguns tentavam ir até a curva onde se concentrava a maioria, criando pontos de tensão com os mandantes e embates com os stewards – apesar de também existir confraternização entre as partes. De qualquer forma, a polícia e os seguranças do estádio lidaram bem com a ocorrência, sem registros de incidentes ou detidos. E assim que o estádio passou a se encher, a impressão era de que os alemães compunham a maioria, tamanha o impacto que criavam na atmosfera. Nesta noite, eles se sentiam em casa ao invés dos Gooners, especialmente pelo ótimo início do Colônia na partida.

Dominando as ações, o Colônia abriu o placar aos nove minutos. E não foi qualquer gol, mas sim uma pintura que se candidata a figurar entre as mais bonitas desta Liga Europa. Davide Ospina errou ao tentar cortar a bola fora da área, mas isso não tira os méritos de Jhon Córdoba. O colombiano aproveitou o gol escancarado por seu compatriota e arriscou o chute de fora da área, por cobertura, deixando os alemães em vantagem. As arquibancadas pulsavam, no ritmo dos torcedores visitantes que pulavam, acendendo sinalizadores. Enquanto isso, perdido em campo, o Arsenal teve dificuldades para responder. Ficava à mercê dos contra-ataques.

 

A situação só melhorou para os ingleses no segundo tempo. Arsène Wenger voltou a campo com Sead Kolasinac, e o bósnio precisou de pouco tempo para provar que era a escolha correta, em lindo chute de primeira para deixar tudo igual, aos quatro minutos. A virada saiu aos 22, com Alexis Sánchez chamando a responsabilidade e arrematando com categoria da entrada da área, longe do alcance de Timo Horn. Por fim, a tranquilidade dos Gunners foi garantida por Hector Bellerín, aproveitando o rebote de uma boa defesa de Horn. Apesar dos evidentes problemas dentro de campo, os londrinos faziam valer o elenco claramente superior.

E você acha que a torcida do Colônia se importou com o placar? Não era esse “mero detalhe” que estragaria a noite histórica dos bodes. Com os cachecóis esticados, faziam uma belíssima serenata ao time. Uma paixão que vai muito além dos resultados, embora o sucesso em campo ajude a engrandecer o que acontece fora dele. E que, de certa maneira, serve de lição ao que acontece em muitas “arenas” da Inglaterra. O Emirates, muitas vezes acusado de ser um estádio frio e sem alma, desta vez se encheu com o espírito em ebulição dos alemães.

Com a vitória, o Arsenal assume a liderança da chave, que ainda teve o empate entre Estrela Vermelha e Bate Borisov. Mas será um grupo no qual o futebol ficará em um segundo plano, considerando as torcidas em questão. Se a festa prevalecer, como deve, as cenas fantásticas se repetirão por mais cinco rodadas.