Solimar e Silvana têm um restaurante, muito agradável, no bairro de Fátima, região central de Fortaleza. Mesmo às vésperas da Copa do Mundo, e diante da perspectiva da cidade receber muitos turistas, brasileiros ou estrangeiros, decidiram não investir demais. Colocaram umas bandeiras, vestiram os garçons como juízes de futebol e prepararam um prato temático, o Trio Arena Castelão. Não acham que desperdiçaram uma oportunidade porque conhecem o cenário comercial da capital cearense e ninguém se deu muito bem com o Mundial.

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Segundo o casal, a Copa do Mundo trouxe mais problemas do que soluções para o comércio da cidade. Sabem de muitos colegas e fornecedores que não veem a hora de ela acabar – e, pelo menos em Fortaleza, isso aconteceu na última sexta-feira. As vendas caíram ao invés de subirem. Solimar, que foi volante de Ceará, Fortaleza e Ferroviário no final dos anos 1990, conta que em um sábado costumava vender R$ 5 mil. Quando o Brasil enfrentou o Chile, vendeu apenas R$ 1 mil, em valores aproximados.

Com um ambiente mais familiar, o Tronco do Gaúcho, nome do seu restaurante, não atrai a maioria do público da Copa do Mundo, mais afeito às festas. “São poucos que preferem um ambiente mais familiar”, explica. “Acho que os turistas não vieram para gastar, vieram para a putaria”. E por isso, acredita ser natural que os botecos e as Fan Fests sejam mais procuradas. “A Copa trouxe turistas, gente de fora. A maioria baixou o rendimento”, acrescenta a esposa Silvana.

O que minimizou as perdas para o restaurante deles foi um prato especial que preparam já na época da Copa das Confederações. O Trio Arena Castelão reúne linguiça cozida com queijo e macaxeira. Meio pesado, principalmente porque a manteiga de garrafa que acompanha a refeição é obrigatória para tudo ficar mais gostoso. A combinação ganhou o concurso “Comida de Boteco”, chamou a atenção da imprensa, apareceu na revista de viagens da TAM e atraiu muitos turistas.

“Veio um grupo de dez pessoas do Rio de Janeiro. Vieram três vezes porque nas primeiras estávamos fechados. Fizeram questão de comer, não poderiam ir embora sem”, contou Silvana, orgulhosa. Ela garante que prepara o único prato temático de Copa do Mundo do Ceará, embora, em um estado tão grande, isso seja muito difícil de confirmar. A ideia veio do marido Solimar. “Falava-se em entregar as arenas então usamos isso”, relata. A comida vem em uma cuia de madeira especialmente preparada. Foram necessárias seis tentativas para acertar o tamanho.

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Se o Tronco do Gaúcho compensou um pouco os problemas que a Copa do Mundo trouxe para o comércio formal de Fortaleza, os ambulantes não tiveram tantos problemas assim. À frente do Mercado Central da cidade, há uma feira com diversos vendedores, que expõem seus produtos (a maioria falsificados) sem nenhum pudor. Todos eles tinham ao menos alguma coisa que fazia referência à Copa do Mundo, nem que fosse uma regata verde e amarela.

A aposta funcionou. Todos que conversaram com a reportagem da Trivela garantiram que venderam mais do que estão acostumados durante a Copa do Mundo. Um rapaz que vende roupas femininas, a maioria sem referências ao Mundial, disse que “vendeu tudo o que trouxe”. Outro, que comercializa regatas cujas estampas mostram os jogadores da seleção brasileira, especialmente Neymar, a R$ 10, disse que apenas esse item saiu mais de mil vezes ao longo do torneio. “Quando o produto tem qualidade, é só esperar”, diz. Um terceiro, pendurando camisas falsas da seleção brasileira, confirma que o comércio clandestino de Fortaleza se deu bem no último mês. “Eles reclamam de barriga cheia”, critica.

Eles, no caso, são os comerciantes que não conseguiram capitalizar em cima da Copa do Mundo, um evento único no cotidiano de uma cidade como Fortaleza – ou até mesmo de um país como o Brasil. Os ambulantes conseguiram.